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segunda-feira, 18 de outubro de 2010

COMO PILATOS

Marina Silva, apesar do nome, você não veio do mar. Sua mãe escolheu os seringais do Acre para te dar à luz. Ali você cresceu, trabalhou com Chico Mendes, um dos poucos homens da face da Terra a entender a importância da floresta amazônica, para a sobrevivência de todos nós, lá nos anos 60.
Quando Chico foi assassinado, você era uma de suas discípulas preferidas. Somente aos 16 anos você conheceu as primeiras letras. Estudou, fez faculdade, o que era um privilégio para pessoas na sua condição naquela época. Hoje está mais fácil estudar, e você sabe disso, graças aos inúmeros programas de inserção social do governo que você defendeu até outro dia.
O povo acreano sempre acreditou em você. Você bateu recordes em suas campanhas para vereadora no Rio Branco e, depois, para o Senado da República. O brasileiro compreendeu sua luta em defesa da floresta amazônica, sua importância histórica para o momento político que vivemos, com duas mulheres candidatas à Presidência da República.
Aguardávamos, com ansiedade, sua manifestação sobre quem teria o seu apoio no segundo turno. Dilma e Serra queriam tê-la como cabo eleitoral num momento de definição, pela liderança que você representou, mas você sucumbiu.
Como Pilatos, você lavou as mãos e deixou a plebe, entre indignada e aparvalhada, ao seu próprio destino. Você mostrou-se indecisa, e um líder tem que ser decidido, tem que apontar o caminho para os liderados.
De nada adiantou a onda verde, ou melhor, adiantou sim. Adiantou para quem não desejava a vitória de Dilma no primeiro turno. Adiantou para Serra, que ganhou um pouco mais de fôlego. Adiantou para um pedaço da Igreja, que se vale de mentiras para assacar contra a candidata petista, ferindo o segundo mandamento da lei de Deus: “Não usar seu Santo nome em vão”.
Você, talvez, fosse a única eleitora desse país que não podia ficar em cima do muro, pois muro é lugar de tucano.Você, no entanto, preferiu se acomodar. Não foi isso que Chico Mendes lhe ensinou. Não foi isso que você aprendeu ao longo da sua vida, pois você sempre foi uma lutadora, mas capitulou na hora agá.
Você não tinha e não tem o direito de fazer o que fez com os quase 20 milhões de eleitores que acreditaram em sua promessa. Você não é a líder que os brasileiros esperavam. Talvez por isso não tenha chegado ao segundo turno.
Você preferiu a mais cômoda das decisões, que é a de não decidir. Você rompeu com Chico Mendes, rompeu com seu passado de luta. Como Pilatos, você lavou as mãos. Em nome de quem? Em nome do que?
Você, Marina, que já sofreu tanta injustiça, tanta discriminação, não pode aceitar o que uns poucos clérigos estão fazendo em nome de Deus. Você sabe melhor que nós, simples eleitores, que Deus não se preocupa com um filho apenas, mas com todos eles. A igreja está errada e você se furtou de enfrentá-la. Isso, para mim, não é temer a Deus. É acovardar-se diante das circunstâncias.
Não estou pedindo que você e imole, mas há tempo de se penitenciar.