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sábado, 9 de outubro de 2010

O 2º MANDAMENTO

A cruzada feita por parte dos cristãos, católicos e evangélicos, nas eleições de 3 de outubro, só encontra semelhança, na história recente do Brasil, no apoio dado pela Liga das Senhoras Católicas e TFP (Tradição Família e Propriedade) ao movimento que culminou com o golpe militar de 1964.
Tinha pouco mais de 15 anos, em 1966, e morava em São Paulo. Trabalhava na Conselheiro Crispiniano e todos os dias, por ser officeboy em um estúdio fotográfico, me deparava com os “meninos” de Plínio Correa de Oliveira no Viaduto do Chá, impolutos em seus ternos bem cortados, portando estandartes de veludo vermelho com frisos e brasão dourados. Era a TFP.
Para um garoto interiorano, ignorante sobre a vida política do Brasil na metade dos anos 1960, aquela imagem era bonita. O vermelho dos estandartes e os desenhos dourados contrastavam com oss prédio cinzentos da antiga Light ou do Mappin, na esquina da Xavier de Toledo.
Era a extrema direita da Igreja Católica aterrorizando os milhões de passantes que transitavam, a pé, entre a Praça da Sé e a Praça da República, que tinham como caminho mais curto exatamente o Viaduto do Chá. Eles pregavam o direito à propriedade, como se estivessem ameaçados caso os “comunistas”, na opinião da TFP, continuassem no poder. Eles apoiavam o regime militar e, por conquencia, a tortura a que era submetidos milhares de brasileiros que lotavam os porões do DOI-Codi, em São Paulo.
A direita está de volta. E voltou mais forte graças à internet. Novamente com o apoio de parte da igreja, o que não significa apoio da CNBB. Se vivos fossem. D. Helder Câmara, D. Luciano Mendes de Almeida, D. Paulo Evaristo Arns, para citar apenas alguns dos prelados que lutaram contra o regime militar, por certo colocariam ordem no seio da igreja. Não a deixaria transformar-se em instrumento da direita, como há 50 anos.
O preâmbulo foi necessário para trazermos para 2010 o que ocorria nos anos 1960, quando o mundo nem sonhava com computadores pessoais e muito menos com a internet, tecnologia que uso para escrever esse artigo e distribuir aos amigos.

O 2º Mandamento

Quando padres e pastores, em suas homilias, pregam, descaradamente, o voto em um candidato a presidente da República em detrimento de outro, usando para isso o nome de Deus, estão descumprindo o segundo de seus mandamentos, entregues a Moisés no Monte Sinai: “Não tomar seu santo nome em vão”. Estão pecando contra as leis de Deus.
Deus, como prega a própria Igreja, é o senhor do Universo. O planeta Terra é somente um grão de areia nessa imensidão que não sabemos onde começa e onde é o fim.
Deus deve ter preocupações maiores que uma simples eleição presidencial no Brasil. Seu Santo nome não pode ser usado em vão, muito menos para defender interesses desconhecidos pelo eleitor, apenas porque uma certa padralhada e alguns pastores afirmam que Deus vai nos castigar caso não façamos Sua vontade.
Na Idade Média, a Santa Inquisição mandou milhares de mulheres para a fogueira, algumas por serem bonitas, outras por serem inteligentes. Em nome de Deus, os inquisidores, dedo em riste, acusavam sem precisar provar as acusações. Mais ou menos como está acontecendo agora. Como naquela época, milhares de fiéis creem no que ouvem de seus líderes espirituais. E aplaudem quando a mulher é atirada à fogueira. A areia jogada em seus olhos turva-lhes a visão e passam a acreditar que agem em nome de Deus.
Se, por força da Igreja, os candidatos que disputarão o segundo turno da eleição presidencial são obrigados a falar de aborto, como se apenas este tema interessasse aos brasileiros, ele poderia ser ampliado para a pedofilia, que assombra as sacristias de todo o mundo.
Nesse item, a desobediência é ao 6º mandamento da lei de Deus: “Não pecar contra a castidade”. Um bom tema para ser levado aos fiéis.

OBS.: Quando pertenci à Cruzada Eucarística do Conventinho, na Vila São Geraldo, aos 12 anos de idade, tive, entre meus orientadores espirituais, padre Couto, anos mais tarde nomeado Bispo da Prelazia de Taubaté. Aprendi com ele que amar o próximo significa afastar o ódio do coração e pensar, com a própria cabeça, qual o melhor destino para si.