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segunda-feira, 27 de dezembro de 2010

ESSA JUVENTUDE OBTUSA

Fico estarrecido e preocupado ao conversar com jovens possuidores de diploma universitário e tão faltos de conhecimento de nossa história recente. Estou me referindo aos últimos 20 anos, apenas. São jovens de classe média, que mal leem um jornal, que não tem opinião própria, repetem, como papagaios, o que ouvem nos telejornais, leia-se Jornal Nacional, o que mais desinforma o telespectador.


Infelizmente, com a maioria deles você pode se informar sobre Big Brother, sobre o último capítulo da novela das oito, sobre as celebridades (quem se casou com quem, quem se separou de quem e outras bobagens. A maioria dos nossos jovens, infelizmente, são doutores em futilidades.


Outro dia, encontrei uma ex-aluna numa dessas muitas comemorações de fim-de-ano. Cumprimentei-a alegremente e perguntei-lhe que expectativa tinha sobre o governo de Dilma Rousseff. Resposta: “Tenho medo dessa mulher”. Insisti, perguntei-lhe por que. Ela repetiu o “argumento”. “Ah! Não sei. Tenho medo dessa mulher.”


Senti-me culpado por tamanha falta de conhecimento. A jornalista em questão tem trinta e poucos anos, a faculdade foi bancada pelos pais. Era uma aluna aplicada, participativa, que gostava de questionar os professores sobre a profissão de jornalista, queria saber sempre um pouquinho mais. Talvez eu não tenha sido muito claro em minhas respostas. Ou ela não entendeu nada, pelo menos nas minhas aulas.


O fato é que aquela aluna que questionava os professores não existe mais. Ela deixou de ser combativa para ser uma cidadã que se conforma com a versão da imprensa (leia-se Jornal Nacional, o que mais desinforma o telespectador), não procura entender a profundidade das informações, pois desconhece nossa história. Isso não é culpa a faculdade. É próprio do desinteresse da juventude pela história de seu país, é culpa dos programas imbecis que a televisão exibe sem a menor preocupação com a formação cultural de nosso povo.


Misture a programação televisiva com a pregação religiosa, que transforma Deus num monstro pronto a nos castigar se não fizermos a vontade daqueles que falam em Seu nome, o resultado é este que vemos aí. Jovens que desconhecem sua história, cujos valores passam ao largo de uma civilização que busca a modernidade e precisa de gente capaz de comandar politicamente as próximas gerações, pois a minha está se despedindo.


Logo após o segundo turno das eleições presidenciais desse ano, li uma postagem no Facebook, de um colega jornalista, que dizia temer o que Deus estava reservando para o Brasil, que acabara de eleger Dilma Rousseff para a presidência da república. Ele se referia a “essa mulher”, como se o brasileiro tivesse pecado por preferir Dilma à Serra e Deus fosse mandar pragas para o Brasil como as que teria mandado ao Egito, até que os hebreus fossem libertados do cativeiro.


A Igreja prestou um desserviço ao Brasil, capitaneada pelo próprio papa Bento XVI, por bispos conservadores e padres covardes, que se escondiam no púlpito para dizer inverdades aos seus crédulos fiéis. Usaram descaradamente o nome de Deus para ameaçar o povo brasileiro.


Assumo minha parcela de culpa. Não devo ter provocado o debate político com meus alunos do curso de jornalismo da Unitau como deveria. Cabe a nós, pais, provocar o debate político com nossos filhos, para um dia não ouvi-los dizer que tem medo deste ou daquele presidente sem saber por que.