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terça-feira, 19 de abril de 2011

INCIDENTE EM ANTARES E EM TAUBATÉ?

Há exatamente quarenta anos, em 1971, era lançado o último romance de Érico Veríssimo, Incidente em Antares. Aconselho sua leitura. Era uma prévia do que pode acontecer em Taubaté nos dias atuais.

Com as notícias que circulam pela cidade nos últimos dias, sobre o descontentamento dos coveiros do nosso cemitério municipal e uma possível greve da categoria, fiquei imaginando Taubaté como a fictícia Antares e seus mortos insepultos.

Em Antares, Dona Quitéria protestou por permanecer insepulta após vários dias da greve dos coveiros, que não permitiram que ninguém adentrasse ao cemitério para proceder aos enterros.

Como seria a fictícia ressurreição de mortos insepultos em Taubaté, largados ao Deus-dará na porta do cemitério municipal?

Eles fariam como em Antares, onde os mortos foram à praça e contaram, para toda a cidade, os podres da sociedade local?

O que os mortos insepultos de Taubaté fariam? Desceriam o morro e parariam em frente à casa do prefeito para pedir uma solução rápida e serem enterrados antes de derreterem em público?

Ou prefeririam prosseguir e parar em frente à Prefeitura, na Avenida Tiradentes, e contar para os jornalistas, que por certo lá estariam para cobrir um acontecimento inusitado, todos os podres da atual administração?

Será que eles falariam que o mau-cheiro que obrigava as pessoas que acompanhavam o protesto a tapar o nariz era causado pelo lixo não recolhido, esparramado pela cidade, e não por eles que não foram sepultados no tempo certo.

Como não há como contestar a fala de defuntos, eles poderiam falar sobre os casos de corrupção sob investigação pelo Ministério Público: compra de remédios superfaturadas, merenda escolar e propina para seus contratantes, adiantamentos suspeitos, frota municipal sucateada, quebra de sigilo bancário do prefeito e por aí vai.

Os defuntos poderiam passar horas em frente à Prefeitura falando de todas as maracutaias que conhecem e ainda dariam boas manchetes para O Vale, Vanguarda, Band Vale, Difusora, Jovem Pan, Jornal Contato e, claro, este blog.

Chamar médicos e enfermeiros pouco adiantaria. Os motoristas da Prefeitura, descontentes com o banco de horas-extras em vez de dinheiro pelas horas-extras trabalhadas, recusariam a missão de buscar os mortos insepultos na Tiradentes e levá-los para o Pronto Socorro, que também está precário.

Será que o prefeito vai encontrar uma solução sem ferir o combalido orçamento municipal? Ou deixará que Taubaté se transforme na Antares de Veríssimo?