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sábado, 18 de junho de 2011

A FÁBULA DA RATAZANA

Era uma vez, num reino longínquo, uma ratazana infeliz sonhava morar num palácio cercada de fiéis vassalos, prontos a cumprir todas as ordens que dela emanasse. 

Mas como? Era uma ratazana pobre, mal sabia articular uma palavra. Era analfabeta funcional, porém, persistente e ardilosa.

Ela tinha um plano. Queria morar num porão onde pudesse ter acesso a bens que jamais teria no porão pobre em que vivia.

Os pais da ratazana queriam que ela fosse professora. A ratazana tornou-se professora.

Anos mais tarde, já inquilina dos porões do Palácio onde foi morar, “escreveu” um livro sobre antigas construções do reino.

A ratazana dominava o porão. Os ratos nada podiam fazer sem sua anuência.

A ratazana resolveu que deveriam assaltar a despensa do Palácio. Roubaram todo o queijo que puderam e dividiu o produto do roubo com os mais fiéis vassalos.

Os pobres ratinhos do porão ficaram sem ter o que comer. Não sobrou uma migalha para eles.

Os donos do Palácio se incomodavam com o sumiço dos queijos. Descobriram que a ratazana era a responsável pela pilhagem.

A circunvizinhança do palácio exigia providências enérgicas. Era preciso acabar com rataria.

Foi preciso contratar às pressas uma equipe para dedetizar o porão.

Na manhã de um inverno rigoroso, os ratos estavam atrás da lareira para aproveitar o calor emanado pelo fogaréu.

A equipe de desratização lacrou os buracos com os ratos no porão, onde todos morreram por falta de queijo, que não podiam mais roubar.

Com os ratos mortos, todos viveram felizes para sempre no reino da Taubatelândia.

A NOTÍCIA 

Reproduzo mais um magnífico cordel do professor Silvio Prado. Imperdível. 

A noticia que circula
Correndo toda a cidade
É que o prefeito não dorme
E não tem tranqüilidade
Devido a acusação
De atos de improbidade
Que seu governo produz
Em incrível quantidade.

Toda noite é um sufoco
Com o prefeito na cama
Falando consigo mesmo
Sentindo o frio da lama
Já tocando o cobertor
Enquanto a primeira dama
Cheia de sono e cansaço
Incomodada reclama.

A verdade é que ele
Não pode dormir direito
Diante de tanta coisa
Que o acusam de ter feito
E que saindo na imprensa
Deixa o homem insatisfeito
Pois no centro da notícia
Ele é o grande suspeito.

A situação anda difícil
Para esse governante
Que enfrenta passeatas
E um movimento constante
Pedindo de imediato
Que ele vire um retirante
Abrindo mão de seu cargo
E do poder fique distante.

E não dormindo direito
Ansiedade ele extravasa
Passeando noite adentro
Pelos cômodos da casa
Tropeçando no escuro
A cabeça toda em brasa
Imaginando o desfecho
De um caso que o arrasa.

Outro dia, pra seu azar
Um blogueiro da cidade
Mostrou um depoimento
Repleto de improbidade
Feito por ex-assessor
Que não tendo piedade
Comprometeu o prefeito
Com sujeira de verdade.

Cinco milhões em propina
Disse quem lhe acusou
Era exatamente a grana
Que o mandatário embolsou
Nesses anos de governo
Em que ninguém governou
E corrupção jamais vista
A cidade presenciou.

Se a noite é escura
Ou tem nela imensa lua
Logo surge um cidadão
De olho pregado na rua
É o prefeito que não dorme
Vendo a verdade tão nua
E falando para si mesmo
Que a culpa não é sua.

Porém, ele é o prefeito,
O supremo mandatário,
Tão somente o responsável
Pelo que escapou do erário
Indo engordar a conta
De seleto funcionário
Ou erguer rápida fortuna
No bolso de empresário

Todo esforço antes feito
Parece ter sido em vão
Para calar na cidade
Os gritos da oposição,
Enquanto não há dinheiro
Que chegue pra situação
Defendê-lo como se exige
E evitar a cassação

E a tensão continua
Pela noite e madrugada
Dentro da casa escura
Na inútil caminhada
De um cômodo para outro
Nessa hora avançada
Em que o homem conclui
Que está numa enrascada.

Por que fui comprar um sitio
Ou empregar a parentela
Abrindo pra mulher e genro
Principalmente pra ela
Dentro do serviço público
Muita porta e até janela
Que ficaram escancaradas
E hoje só trazem seqüela?

E agora não há dia
Que não tenha noticiário
Onde o ministério público
Contra esse mandatário
Não apresente um processo
Revelando o itinerário
Em que poderosa grana
Engordou outro empresário.

Até a câmara tão dócil
Já mudou sua postura
Falando em cassar o prefeito
Como se nessa aventura
Não tivesse ela lambido
O mel e a rapadura
Que escapou nesses anos
Dos cofres da prefeitura.

Devido a esses fatos
Já não se dorme direito
Pois perdeu largura a cama
Sendo agora espaço estreito
Para tanta inquietação
Que o deixa mal no leito
Consumindo a paciência
E o sono do prefeito.

Por isso, em certa noite
Num pesadelo abismal
O prefeito se viu preso
De forma incondicional
E acordou tão assustado
E acabou passando mal
Pois no sonho ele estava
Num camburão federal.

Silvio Prado