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terça-feira, 9 de agosto de 2011

DA CRISE, SÓ VERA SABA E PADRE AFONSO SAEM LIMPOS

O jornalista Barbosa Filho, que passa mais uma temporada na Holanda, a meu pedido envia o comentário que ora publico. É a análise do jornalista experimentado, que acompanha de longe os fatos políticos que marcam indelevelmente nossa urbe. Barbosa Filho é um dos grandes conhecedores da vida pública taubateana nos últimos trinta anos. Eis seu texto:

Antonio Barbosa Filho

DELFT (Holanda) - O amigo e brilhante jornalista Irani Gomes de Lima pede-me um artigo sobre a crise política vivida por Taubaté, o que significa grande responsabilidade, dada a credibilidade que seu Blog adquiriu desde o lançamento. Confesso que, de tudo que tenho lido na internet sobre o processo político em minha cidade, as melhores informações tenho encontrado aqui, principalmente pela extensa reprodução de documentos inéditos ao público.

Sei que alguns dos meus pontos de vista colidem com os do Irani e de outros qualificados observadores. Se não fosse um jornalista democrático, Irani não me convidaria para opinar. Serão, se houverem, divergências pontuais, pois no geral concordo e aplaudo este esforço coletivo contra a corrupção e pela maior participação política da nossa cidadania.

Se tirarmos todos os adjetivos e xingamentos que têm sido lançados ao ar de todos os lados, o que sobra é o seguinte: o prefeito está sendo processado pela Câmara Municipal por graves irregularidades que teriam sido cometidas na aquisição de medicamentos e de merenda escolar. As denúncias sobre corrupção eleitoral não fazem parte deste processo e estão sendo avaliadas pela Justiça, em segunda instância, ao que me consta, por recurso do Ministério Público.

Como o processo na Câmara é puramente político, não obedece aos rigores de um processo judicial, tanto que seu resultado poderá ser invalidado, corrigido, anulado pelo Judiciário, caso seja cometida alguma injustiça na condenação. Foi assim com o ex-prefeito José Bernardo Ortiz, que teve seu mandato cassado pela Câmara Municipal (teve apenas dois votos a seu favor, numa Câmara de 21), e não ficou nem um dia fora do cargo, por decisão superior da Justiça.

As denúncias analisadas pela Comissão Processante e que levaram o julgamento ao plenário são aquelas de 2009, surgidas na CEI da ACERT, presidida com competência pelo vereador Antonio Mário. De lá para cá não surgiram fatos novos, sendo tudo, inclusive a prisão do prefeito, da primeira dama e do contabilista, consequência daqueles fatos denunciados, e sob investigação do Ministério Público e da Polícia Federal.

Feito o resumo, vamos às consequências e possíveis repercussões desta crise na vida política e social de nossa maltratada Taubaté:

1 - Na hipótese de o prefeito ser absolvido pela Câmara (o que me parece perfeitamente possível, dada a dificuldade de obter-se dez votos pela cassação), Roberto Peixoto vagará pelos corredores do Palácio como um zumbi, meio-morto, meio-vivo. Sua autoridade e liderança política estão completamente debilitadas e ele perdeu o respeito da população. Quando isso acontece com um político, não se pode dizer que ele está acabado, porque no Brasil temos a memória curta, e passados uns anos acabamos dando nova chance a quem já foi condenado e execrado um dia. Está aí Paulo Maluf, que não me deixa mentir: já desceu aos infernos, já subiu aos céus e continua desfrutando de sua imunidade como um dos deputados mais votados de São Paulo. Mas demorará muito para o então ex-prefeito voltar à vida pública, se tiver esta pretensão. Algum candidato aí quer ter Peixoto em seu palanque, ainda que seja absolvido?

Fossemos nós, que não temos esta vocação do poder a qualquer custo, da riqueza de qualquer fonte, iríamos para casa ou mudaríamos de cidade. Nada deve ser mais humilhante do que ser apontado pelas ruas como "ladrão" do povo. Mas os corruptos não têm esta vergonha-na-cara que nós temos: quando a ambição é muito grande, o político paga o preço do ridículo, da desconsideração social, e quando xingado olha para o gordo extrato bancário e se parabeniza: "Sou esperto! Os pobres que chorem as mágoas."

2 - Pode ser, porém, que os vereadores pressionados pelos eleitores (muito poucos estão realmente interessados, embora os movimentos organizados façam seu papel legítimo de agitação) resolvam cassar o mandato do prefeito, e caso a Justiça determine seu afastamento do cargo, aí teremos um quadro muito interessante. A posse da vice-prefeita a mais de um ano das eleições traz um fator que nem os mais entusiastas cassadores de quatro ou seis anos atrás desejavam: ela terá tempo de fazer uma faxina moral na Prefeitura, e mostrar serviço.

Se fizer uma administração fraca em realizações, todos entenderão que ela recebeu a Prefeitura arrasada, sem dinheiro, etc. Se der sorte e tiver boa assessoria (não os puxa-sacos que agora se dizem seus amigos desde criancinhas, nos partidos e na mídia) pode melhorar a cidade em alguns setores que estão deixando a desejar. Medidas de emergência na Saúde, no Trânsito, na Educação, dando uma chacoalhada geral, certamente serão aplaudidas por todos que já estão cansados de crise política e marasmo administrativo.

Com isso, Vera Saba torna-se uma forte candidata a prefeita em 2012, podendo tranquilamente ir ao segundo turno. Alguém, dos que estavam dominando o tabuleiro político, vai sobrar.

3 - Outro pré-candidato que se fortalece na hipótese da cassação imediata de Peixoto é o deputado Padre Afonso. Primeiro, porque soube manter-se distante da agitação sem abdicar de seu dever de homem público. Criticou o prefeito quando foi necessário, fez declarações ponderadas, e não quis tomar conta da "festa", como alguns aventureiros com largas ambições politiqueiras. O deputado foi o segundo colocado na eleição para prefeito, mas sabe que sua vez chegará, e ele entrará na Prefeitura pela porta da frente, carregado pelos votos limpos dos taubateanos. Chegar como um remendo numa crise, ocupando um lugar que o povo, bem ou mal, destinou a outrem, seria apequenar-se. Padre Afonso entendeu isso e enxergou a longo prazo, sem imatura ansiedade. Mostra-se um político experiente, tolerante, e firme em seus princípios. Eu, que já o critiquei pelo apoio incondicional ao governo tucano de SP que humilha a Assembléia Legislativa, sou o primeiro a reconhecer que o deputado sai-se muito bem, e engrandecido, de todo este lamaçal no qual tantos se afundam.

4 - Não vejo vantagens para o outro forte pré-candidato, José Bernardo Ortiz Júnior, a quem admiro e desejo todo sucesso futuro. Infelizmente, a marca de seu pai, o ex-prefeito Bernardo Ortiz, tem sido a do ódio, da perseguição aos adversários, da vingança mais mesquinha. Isso tira dele autoridade moral para vangloriar-se de uma cassação do seu ex-vice, do homem que ele "colocou" na Prefeitura. Para a população, a imagem que fica é que muito do que se passa é armação do ex-prefeito, despeitado pela derrota de 2008. Ortiz quer derrubar Peixoto porque este rompeu com ele e colocou seu filho em terceiro lugar nas urnas - é o que ouço de dezenas de taubateanos.

Para manter o estilo de Bernardo, o Júnior terá que fazer oposição ferrenha a Vera Saba, como faria a qualquer outro que assumisse o cargo no lugar de Peixoto. É um estilo de fazer política: Ortiz só cresce batendo em quem estiver no poder, e ele sempre estará na oposição porque rompe com seus mais íntimos amigos e afilhados. Fez isso com seu vice no primeiro mandato Augusto Ambrogi; com seu chefe de Gabinete Adherbal de Moura Bastos; com seu candidato e sucessor Salvador Khuriyeh; com o vereador que lhe foi mais fiel na sua cassação, Arnaldo Ferreira dos Santos; com Antonio Mário ("ele será o nono prefeito de minha família", disse-me Bernardo antes de eleger seu primo); e fez o mesmo com Roberto Peixoto, seu vice por quatro anos e por ele apoiado com entusiasmo.

Posso estar enganado, mas Taubaté rejeita esses métodos que prevaleceram por décadas (Bernando exerce cargos públicos desde 1983, sem contarmos sua anterior assessoria a Prefeitura de Caçapava, que era também um cargo político - logo ele que chamava Ary Kara e Milton Peixoto de "carrapatos" porque se apegariam ao Poder).

5 - Os vereadores também não se saem nada bem desta crise, votem ou não pela cassação. Foram pusilâmines, desleixaram no dever de fiscalizar, aceitaram uma promiscuidade perigosa do Legislativo com o Executivo. Sei perfeitamente que há exceções, que alguns poucos vereadores denunciaram os indícios de irregularidades desde o início. Mas o que fica é a imagem do colegiado: a Câmara, como instituição, falhou.

Prevejo que em 2012 a Câmara, finalmente, terá uma renovação muito alta. Embora os atuais vereadores tenham privilégios que nenhum candidato de fora poderia ter (os Gabinetes são comitês eleitorais ricos em recursos materiais e humanos, fazendo campanha 24 horas por dia durante quatro longos anos, com rádio, TV e publicações impressionantes), parece que a população quer ver caras novas no Legislativo. E será muito bom se for assim: temos vereadores que já têm tempo de aposentar-se do cargo, que até parece vitalício.

ERROS DO PREFEITO

O primeiro mandato de Roberto Peixoto já foi tumultuado. A história do sítio em Santo Antonio do Pinhal (ou é São Bento do Sapucaí?) rendeu meses de manchetes e de boatos nas ruas. Embora não exista nada demais em um engenheiro com mais de trinta anos de carreira, com escritório privado e emprego na Sabesp, vereador, juntar dinheiro para comprar um sítio ou uma casa de praia, o fato é que isso virou escândalo.

E aí Peixoto errou: deveria pegar os documentos e comprovantes e usar os horários que comprava na TV e no rádio para esfregar tais provas nas caras dos denunciantes. Qualquer um de nós faria isso, se atingido em nossa honra pessoal.

Não; Peixoto calou-se, achou que isso era choradeira da oposição sem maiores consequências. Ora, a sabedoria popular já diz: "Quem cala, consente". Ficou a suspeita no ar, abrindo espaço para outras denúncias, cada vez mais graves, até chegarmos à ACERT, às declarações do corrupto confesso Fernando Gigli (está depondo em troca de alívio na sua pena, que virá), por sinal homem de Bernardo Ortiz.

Ou seja, Peixoto deixou prosperar sua fama de corrupto. Se o é, bem feito! Se acha que é inocente, por que não reagiu à altura, desmentindo todos os acusadores e movendo-lhes processos? Mais uma vez, "Quem cala, consente".

É necessário comentar também que a presença abusiva da primeira-dama, dando ordens a funcionários, ocupando chefia de Departamento, e, segundo contam assessores muito próximos, inclusive da área de Finanças, mandando o prefeito fazer isso ou aquilo, foi outro fator desestabilizador. Já tivemos primeiras-damas dominadoras, mas para Luciana Peixoto faltava até o preparo intelectual para dar palpites. Com todo respeito pela relação matrimonial do casal, quando se está na vida pública tudo muda. No horário de expediente quem manda na cidade é o prefeito, e nenhum parente ou amigo, por mais confiável que seja. Neste caso, duas cabeças não pensam melhor do que uma. Aliás, ninguém vota na primeira-dama, não é verdade?

FUTURO

Superada esta crise, de uma maneira ou de outra, em 2012 elegeremos nova administração. Os pré-candidatos já existentes ou que venham a surgir certamente levarão consigo as lições deste momento vergonhoso que atravessamos. A população estará muito mais atenta, e os futuros vereadores, certamente, mais vigilantes. Honestidade poderá ser o grande trunfo nas próximas eleições, se os partidos e candidatos souberem levar a campanha para esse rumo.

Teremos um salto de qualidade e uma campanha de alto nível, se num segundo turno tivermos que escolher, por exemplo, entre Vera Saba e Padre Afonso. Saberemos que o perdedor continuará trabalhando pela cidade, fazendo oposição civilizada, sem tumultuar a vida da cidade e preparando-se, legitimamente, para tentar outra vez em 2016. O mundo não acaba com uma derrota eleitoral limpa e democrática.
Os movimentos pela ética devem continuar ativos - um ou outro pode dissolver-se, criado que foi para fins eleitorais de um ou outro candidato que deseja inaugurar nova imagem, longe do seu passado. Os artificiais passarão; outros mais puros sobreviverão e novos podem surgir. O "aquário" da Câmara será rompido por bem ou, um dia, pela fúria do povo alijado. Vereador voltará a ser empregado do povo, servidor público, sem as pompas e mordomias de hoje.

É fundamental restaurar o conceito da Política e dos políticos em Taubaté. Sem isso a sociedade não confia nas instituições e nem nos seus integrantes; instala-se a suspeita generalizada e, já que ninguém presta, deixem-me tirar minha casquinha também.

A sociedade apodrece quando valores como a Honestidade, a Palavra verdadeira, e, por que não dizer? o Sacrifício pelo bem público não são valorizados por todos.

E nada disso é difícil, depende apenas de cada um de nós. Esta crise deve nos envergonhar a todos, eleitos e eleitores, jornalistas, líderes sindicais e comunitários.

É nosso dever bradar bem alto: "Política suja, em Taubaté. NUNCA MAIS!"