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segunda-feira, 15 de agosto de 2011

A FORÇA DO CIFRÃO, POR SÍLVIO PRADO

Como já era esperado, a Câmara, através do voto de seis vereadores, deu mais um tempo de vida inútil ao prefeito Peixoto. Se o prefeito, na madrugada de sábado, saiu vitorioso do picadeiro da Câmara, a população saiu perdedora.

Os argumentos bem fundamentados da Comissão Processante não foram suficientes para convencer Ari Filho, Teresa Paolicchi, Rodson Lima, Henrique Nunes, Chico Saad e Luizinho da Farmácia pela opção de cassar o prefeito e inaugurar uma era de moralidade na política local.

Se hoje o prefeito Peixoto se tornou um cidadão que não tem segurança sequer para frequentar um botequim de seu bairro, o mesmo destino terão os vereadores que apostaram na continuidade de um governo marcado por corrupção e mediocridade.

Nas quase 14 horas em que transcorreu a sessão que começou na sexta-feira e terminou na madrugada de sábado, nada de extraordinariamente novo aconteceu. Toda a história das compras irregulares de medicamentos foi novamente contada e recontada, argumentos se repetiram e tentativas de desqualificação da Comissão Processante ocuparam a fala dos peixotistas. Entre os grupos contrários que estiveram na sessão, houve muita gente se xingando e quase saindo no tapa.

Apenas duas únicas novidades marcaram o cansativo evento. Na primeira, bem antes do início dos trabalhos, alguns jovens portando faixas e gritando palavras de ordem causaram surpresa ao tocar, em frente a câmara, o Hino da Internacional Socialista, hino mais que centenário e símbolo da luta e resistência dos mais conscientes lutadores políticos e revolucionários do mundo todo. Em uma cidade em que a maioria dos chamados grupos e partidos de esquerda pularam fora da luta contra Peixoto, a ousadia deste setor da juventude taubateana deve ser destacada. Estes jovens, acompanhados por Cecília Gabriel (única militante petista a lutar publicamente contra Peixoto), montaram barracas e fizeram uma vigília na frente da Câmara.

Cecília Gabriel, à direita (em pé), exemplo de luta que o PT de Taubaté ignora para manter uma aliança ignóbil com o PMDB

Depois dessa, a novidade triste ficou por conta da Policia Militar, que trabalhou no interior da Câmara como se estivesse de olho em torcidas organizadas de times que tradicionalmente trocam sopapos e pedradas pelos campos de futebol do país. Pelo comportamento inoportuno da policia, tudo indica que a mesa diretora da Câmara transferiu o comando da casa para o comandante da operação, pois a polícia não se restringiu ao seu trabalho de apenas gerar “segurança”, mas se atreveu a também fazer o papel político de selecionar quem poderia entrar ou não na Câmara. Até a movimentação dos manifestantes a policia militar tentou controlar, dificultando aos manifestantes inclusive de ida aos sanitários.

Resultado de meses de tensão e disputa, ninguém de bom senso esperaria que os dois lados conflitantes trocassem beijinhos e caricias após o resultado final da votação. Diante da fúria provocada pela vitória de Peixoto e de alguns empurrões entre manifestantes, o espírito de jagunço fardado parece que tomou conta da tropa da PM. Ao invés de apartar pessoas que se desentenderam e tiveram algum contato físico mais ríspido, policiais, principalmente do lado de fora da casa, saíram aleatoriamente distribuindo borrachadas sobre quem estava nas imediações.

Depois do discurso de Rodson Lima, sem nenhum decoro e repleto de afirmações que poderiam ser questionadas pela Promotoria Pública, e também da fala recheada de cinismo de Henrique Nunes, a imagem mais ridícula da noite foi gerada pela postura da tropa de choque da policial em frente a Câmara, armas devidamente preparadas, como se estivesse diante de alguns milhares de baderneiros profissionais dispostos a tudo. Um ato de grandeza política como a sessão de sexta-feira ficou diminuído e quase transformado em mero exercício de repressão policial.

Quando se concluiu a votação, manifestantes, além de esmurrarem raivosamente o vidração que separa os vereadores da população, arrancaram do bolso notas de cinqüenta reais e mostraram (ou ofereceram?) aos vereadores peixotistas. O significado desse gesto explica muita coisa e vale por um milhão de palavras que possam ser ditas sobre o processo que tentou cassar o prefeito. Na verdade, o famoso cifrão e outros interesses escusos, no cenário da política local hoje valem mais que qualquer principio político que tenha como base a moralidade pública.

Os vereadores que votaram pela cassação tiveram o orgulho de sair pela porta da frente da casa e foram aplaudidos pelos que lá estavam. Havia um ar de admiração por esses vereadores, mesmo que houvesse entre eles gente peixotista e que, de olho nas próximas eleições, desceu temporariamente do bonde do prefeito, pegou carona e se misturou entre os que votaram pela cassação, como foi o caso de Alexandre Vilela. Ou Balela?

Já os “traíras” da vontade popular, como quem comete mais um crime hediondo e precisa esconder os fatos, tiveram que sair, de fininho, pelas portas dos fundos e rapidamente desapareceram pelas ruas escuras do Jardim das Nações ou, em conformidade com o ato que praticaram, entraram por uma boca de lobo e foram se esconder em alguma esgoto próximo.

Mas a esperança é a ultima que morre. E a esperança de muitos manifestantes pró cassação agora está centralizada numa possível ação da Policia Federal, onde não vale e nem pesa o voto salvador comandado pelo cifrão e nem tem, por exemplo, delegados controladores de alguma ONG cujos funcionários são pagos pelo dinheiro da prefeitura e, portanto, devedores de favores ao prefeito.

Com a PF é outro o papo. Com ela, o trato com bandidos não se dá com carinhosos tapinhas nas costas. Nas ações da PF não há circo e nem plenário controlado pela PM, muito menos depoimento de vereador justificando crimes cometidos pela administração pública contra a população, incluindo aí dezenas de mortes ocorridas no pronto socorro local, conseqüência da precariedade nele instalada.

Os seis votos que adiaram por pouco tempo o fim político de Peixoto insinuam que na próxima investida da PF em Taubaté bem mais pessoas serão convidadas a passar longas temporadas em alguma das pensões que esse órgão mantém no estado.

Que esse dia, que não deve estar longe, seja um dia de festa, de muita festa, e inicio de uma era em que um mínimo de moralidade pública passe a nortear a vida política da cidade. Finalizando: chega de circo, principalmente circo de lona furada e meia dúzia de palhaços sem nenhuma graça.

Silvio Prado