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quarta-feira, 17 de agosto de 2011

CHALITA: BONITINHO, MAS ORDINÁRIO

Recém-convertido ao PMDB, o deputado federal Gabriel Chalita articula com o PSDB de Taubaté para apoiar Ortiz Júnior à Prefeitura da cidade. Quem leu a informação publicada na edição de terça-feira (16/08) no Painel da Folha, deve ter pensado o mesmo que eu: Ary Kara José, coordenador regional do PMDB, e José Bernardo Ortiz, mentor da candidatura do filho, são como óleo e água – não há como se misturarem.

A HONRA PELO PODER
A densidade ideológica dos políticos varia como a maré varia, diria o poeta. Nem todos, é verdade, mas são tão poucos os políticos idealistas, que são facilmente engolidos pelos políticos surrealistas. Quando você pensa que seres políticos como Ary Kara e Bernardo Ortiz jamais se misturarão por questões ideológicas, ou de interesses pessoais, eis que aparece Gabriel Chalita a aproximar ambos. O sonho de alcançar o poder fala mais alto e as alianças mais esdrúxulas podem ser feitas, mesmo que para isso tenham que jogar a honra na lata do lixo. Resta a podridão. Há mais de meio século a palavra dada não tem mais valor na política. Tapem os seus narizes para as articulações em andamento para a sucessão municipal taubateana.

CANÇÃO NOVA
Para chegar aos dias atuais, vamos retroceder um pouquinho no tempo. Que tal as eleições de 2010? A Canção Nova exerce grande influência sobre os eleitores, especialmente os do Vale do Paraíba, certo? O pomo da discórdia é o núcleo da Canção Nova de apoio a Chalita. Ele queria unanimidade e o apoio do padre Fábio de Melo à sua candidatura a deputado federal. O popularíssimo clérigo, em Taubaté, optou por apoiar seu colega de batina, Padre Afonso Lobato, candidato (reeleito pela terceira vez) a deputado estadual pelo PV.

APOIO AO TUCANO
Tentarei resumir o que se passou em 2010. Gabriel Chalita foi candidato a deputado federal pelo PSB. Mandou imprimir “santinhos” seus com Padre Afonso e Ortiz Júnior, candidatos a deputado estadual, respectivamente, pelo PV e PSDB. Estava com um pé em cada canoa.
Os “santinhos” com Ortiz Júnior foram distribuídos nas portas das igrejas católicas sob influência da Canção Nova. Os “santinhos” com Padre Afonso foram engavetados e declarados à Justiça Eleitoral como doação de campanha. Neste vídeo, Chalita pede voto para Ortiz Junior. O interesse pessoal fala mais alto: apóia tucano em São Paulo e PT em Brasília.
Por que os “santinhos” com Padre Afonso não foram distribuídos em Taubaté?
Poucos sabem, mas o próprio Padre Afonso flagrou Gabriel Chalita fazendo campanha nas ruas de Taubaté com o candidato do PSDB, Ortiz Júnior. Bernardo Ortiz, o “velho”, acompanhava a ambos. Foi um encontro casual, muito constrangedor para Chalita, que se igualou à maioria dos políticos para angariar votos e agradar seu patrono Geraldo Alckmin, apoiando a candidatura de Ortiz Júnior para a Assembléia Legislativa do Estado de São Paulo.
Gabriel Chalita, ao lado da candidata Dilma Rousseff, na missa em Aparecida
Aqui cabe outra explicação: eleito deputado federal pelo PSB, Chalita, que assistiu a missa de 11 de outubro em Aparecida ao lado da candidata à presidência da República Dilma Rousseff, deve ter sonhado com algum ministério no governo que se formaria caso Dilma fosse eleita.

VINGANÇA TUCANA
Gabriel Chalita não foi o cardeal do PSB na Câmara dos Deputados que sonhou ser. Ao perceber que estava no limbo das negociações políticas de Brasília, bandeou-se para o PMDB. Há pelo menos três meses esta informação me foi dada pelo coordenador regional do PMDB, ex-deputado Ary Kara José. O pacote incluía a saída de Paulo Skaf do PSB e sua filiação ao PMDB.
A possibilidade de Gabriel Chalita candidattar-se à Prefeitura de São Paulo pelo PMDB agrada não apenas o partido fundado pelo grande Ulysses Guimarães, mas também a ala do PSDB de Montoro, Covas e do próprio Alckmin.
Chalita seria para o governador Geraldo Alckmin o que foi Gilberto Kassab para o ex-governador José Serra nas eleições municipais de 2008. Isto é, Chalita atrapalharia os planos de Serra em 2012 como este atrapalhou Alckmin em 2008 ao apoiar Gilberto Kassab.

TAUBATÉ NA HISTÓRIA
A história chega a Taubaté quando o próprio Junior admite que Chalita seria o único homem a capaz de unir PSDB e PMDB em Taubaté. Foi ele o responsável pela nomeação de Bernardo Ortiz para presidir a FDE (Fundação para o Desenvolvimento Escolar).
O ex-deputado Ary Kara é um entusiasta da adesão de Chalita ao PMDB. Ele acredita que o apoio do deputado a determinados candidatos a prefeito em cidades do Vale do Paraíba será suficiente para elegê-los. Como faria Chalita caso venha a se confirmar sua candidatura a prefeito de São Paulo: ele deixaria por algumas horas sua candidatura na capital para apoiar Ortiz Junior em Taubaté e Isael Domingues em Pindamonhangaba?
O que liga Gabriel Chalita ao PSDB é sua ligação histórica com o governador Geraldo Alckmin, de quem já foi secretário estadual, que por sua vez respeita Ortiz como a um pai. Tanto Ortiz como Ortiz Junior são funcionários do governo de São Paulo – o pai na FDE e o filho no Palácio dos Bandeirantes.

O QUE FALTA?
Nesta história, que mais parece enredo de novela mexicana, está faltando Mário Ortiz, de quem querem tirar o DEM para dá-lo, em uma bandeja de prata, para Ortiz Junior. O vereador democrata deve recuperar a sigla, que lhe foi tirada depois que uma fotografia sua foi entregue à direção regional do partido. Como o PSD não deve sair do papel para as disputas municipais do ano que vem, Mário Ortiz pode confirmar apoio ao deputado Padre Afonso, como afirmou várias vezes nos últimos anos.

ALIANÇA EMBLEMÁTICA
Ficará difícil para o eleitor esclarecido entender o que se passa dos bastidores da política taubateana. Uma coisa, porém, é verdadeira: Gabriel Chalita, que amealhou uma imensidão de votos femininos em Taubaté, onde foi sufragado por quase 10 mil eleitores, está se mostrando bonitinho, mas ordinário.