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quarta-feira, 9 de novembro de 2011

BASTIDOR DA SAÚDE PÚBLICA EM TAUBATÉ É SEGREDO DE POLICHINELO

Foi preciso a corajosa médica Rita de Cássia Bittar, ex-diretora de Saúde da Prefeitura de Taubaté, revelar os estarrecedores números de mortes ocorridas no Pronto Socorro Municipal entre o final de 2008 e o primeiro semestre de 2009, acima dos padrões aceitáveis pela OMS (Organização Mundial de Saúde) para os cidadãos passarem a entender a lógica da mistificação dos números da “saúde” taubateana divulgada pela Prefeitura.

Soubemos do caso de uma conselheira municipal de saúde que por pouco não foi a óbito no Pronto Socorro Municipal por falta de atendimento. A denúncia da ONG Transparência Taubaté foi feita neste blog e na mídia regional. Teve repercussão, mas continua "tudo dantes como no quartel de Abrantes", ou seja, nada mudou.

Se uma conselheira municipal de saúde é submetida a este tipo de “atendimento”, o que pode esperar o cidadão comum que não conhece ninguém e se vê obrigado a procurar a ajuda de um suplente de vereador para ser atendido?

Talvez por falta de conhecimento com alguém “influente”, uma senhora deu entrada no Pronto Socorro no dia 2 de outubro deste ano e foi a óbito no dia seguinte.

O médico que a atendeu teria confirmado que a mulher falecera em consequência da dengue, mas recusou-se a atestar a causa mortis. A família teve que esperar 19 horas para ser atendida pelo IML para liberar o corpo.

O descaso com a saúde pública em Taubaté passa pelo prefeito canastrão e pelo incompetente secretário de Saúde do município, Pedro Henrique Silveira. Os números reais e as causas reais das mortes não são revelados. Faz-se segredo, de polichinelo, diga-se, sobre o que é do conhecimento geral.

Mas há quem se aproveita do caos na saúde pública de Taubaté, comparada pelo professor Silvio Prado a uma clínica veterinária. Fiquem com este impagável cordel.

Clínica Veterinária

Outro dia um taubateano
Pobre e desamparado
Precisando com urgência
Receber algum cuidado
Esteve no pronto-socorro
E ficou decepcionado.

Levado por um vizinho
Chegou lá do Ipanema
Com o peito apertado
Respiração com problema
Já achando que São Pedro
Ia tirá-lo do esquema.

O homem passou a noite
E a manhã do outro dia
Deitado no corredor
Dividindo sua agonia
Com um outro paciente
Que como ele gemia.

Mas não somente os dois
Viviam essa humilhação
Em pleno pronto-socorro
Sem socorro e solução
Como se objetos fossem
E não fossem cidadãos.

Eram tantos os humilhados
Largados daquele jeito
Pelo corredor afora
E pelo espaço estreito
Onde coubesse uma maca
E não coubesse um direito.

Havia gente encolhida
Curtindo dor e aflição
Na amargura da espera
E não vendo solução
Rosto triste inclinado
Preso à sujeira do chão.

Se não bastasse a doença
Doendo na sua feiúra
Aquele prédio tão feio
Mal cuidado na estrutura
Chegava a dar impressão
De ser uma pré-sepultura.

E o homem se lembrou
Vivendo aquele momento
De um fato absurdo
Trágico acontecimento
De mortes ali ocorridas
Pelo mal atendimento.

A tragédia virou notícia
E acabou pegando mal
Pois a casa em questão
Fica num ponto central
Menos de trezentos metros
Da prefeitura local.

Sob a dor do abandono
Ao homem veio a certeza
De que gato ou cachorro
Recebem maior presteza
Em clínicas veterinárias
Que ficam na redondeza.

Pensou então que se fosse
De algum proprietário o cão
No corredor não ficaria
Quando sua respiração
Estivesse presa ao peito
Sufocando o coração.

Por certo teria alguém
Com extremada atenção
Rigoroso no horário
De sua medicação
Direito negado a ele
Mas conferido a um cão.

Mas que fazer se ele era
Um cidadão taubateano
Espécie tão acostumada
A viver tomando cano
Nesse tal pronto-socorro
Em qualquer dia do ano?

De que valia ser gente
Com direito assegurado
Se na hora da verdade
A lei é posta de lado
E até em pronto-socorro
Tem-se o direito negado.
  
E então avaliando
Sua saúde tão precária
O homem pediu ao vizinho
Uma coisa temerária:
Na próxima crise me interne
Numa clínica veterinária.

Silvio Prado