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sábado, 31 de março de 2012

O QUE VOCÊ FAZIA EM 1º/4/1964?

A história brasileira foi conspurcada no dia 1º de abril de 1964. Ponto final. Eu completaria 13 anos em julho daquele ano. Agora estou perto de completar 61.

Para ganhar um dinheirinho que me garantisse a matinée dominical no Cine Boa Vista, carregava cestas no Mercado Municipal aos sábados.

Em 1960 morava  estudava em São Paulo; o golpe militar ainda seria dado
Havia completado o Grupo Escolar em 1961, em São Paulo. Naquela época Taubaté possuía escolas públicas de excelente qualidade: Estadão,Municipal, Lopes Chaves e Dom Pereira de Barros, todas longe o bastante da minha Vila São Geraldo.

Meu pai não tinha como me manter em escola particular: Diocesano, Anchieta, Taubateano, Paroquial ou outra qualquer.

Fiz curso de admissão ao ginásio no SESI, que mantinha uma escola com três ou quatro salas de aula em um casarão na Rua Barão da Pedra Negra.

Marchava todos os dias, debaixo de um sol escaldante, desde a Vila São Geraldo, para não perder uma aula sequer. Não possuía bicicleta e muito menos dinheiro para o circular – era assim que chamávamos o transporte coletivo.

Na Vila São Geraldo, nossa atividade resumia-se a frequentar o Parque.

Sob o comando de seu Antero Ferreira da Silva, sempre com um charuto no canto da boca, ou cigarro de palha, não me recordo mais (afinal, são passados 48 anos), os meninos eram reunidos para aulas de ginástica.

Vestindo calção branco, feito de pano de saco de trigo e camiseta branca, passávamos boa parte da manhã no exercitando pela Vila São Geraldo: Avenida Brasil, ruas Amazonas, Paraná, Rio Grande do Sul e Sagrado Coração de Jesus.

Terminado o exercício, éramos reunidos no Parque propriamente dito – uma área com cerca de 4 mil m², cercada por muros baixos, como eram as casas da Vila São Geraldo. Herança da Companhia Fabril de Juta de Taubaté, que havia falido dois anos antes.

No vestiário apertado tomávamos banho frio. Pacientemente, seu Antero espera os garotos terminarem o banho para distribuir pão com banana e um copo de leite a todos.

Era a recompensa que esperávamos pelo esforço despendido após duas horas de exercício e obediência ao agradabilíssimo seu Antero – uma dessas figuras raras que passam pela sua vida e jamais serão esquecidas.

Voltando ao 1º de abril de 1964.

Naquela manhã repetimos o ritual. Todos nos dirigimos ao Parque. Para nossa tristeza, seu Antero informou que naquele dia não haveria atividades.

Não explicou por que. Não fizemos perguntas e voltamos resignados para nossa vidinha de meninos sem compromisso com escola ou trabalho.

Nem desconfiávamos que os militares houvessem dado um golpe na véspera e afastado o presidente João Goulart – aliás, nem sabíamos que o Brasil tinha presidente.

Sem o pão com banana matinal e o copo de leite, quem tinha alguns tostões corria à sorveteria do seu Sebastião para comprar um picolé.

Outros preferiam o bar do seu Arthur. Os dois ficavam na Avenida Sagrado Coração de Jesus. Naquela época tomávamos guaraná Jaty ou Joaninha.

Só os lugares mais requintados, na região central da cidade, vendiam Coca-cola, Seven-up e outras bebidas mais sofisticadas.

Silva Neto (Difusora) e Monteclaro Cesar (Cacique) eram os locutores da notícia em Taubaté. Eram os mais ouvidos da cidade.

Ninguém comentava sobre o golpe militar. Éramos mantidos na mais absoluta ignorância. Por isso não buscávamos informações a respeito.

Os anos se passaram. Os militares recrudesceram o golpe. A censura se impôs, centenas de brasileiros foram torturados e mortos pela ditadura militar – alguns estão desaparecidos até hoje.

Em 1970 prestava o serviço militar obrigatório. Nas folgas usávamos o uniforme do Exército por obrigação. Colegas que dariam baixa retornavam do Vale do Ribeira.

Dizia-se que Lamarca estava por lá e que nós (recrutas) iríamos também.

Não sentia medo porque Lamarca para mim era um desconhecido, ignorava o que se passava no Brasil e que um taubateano havia participado do sequestro do embaixador americano Charles Elbrick no ano anterior.

Minha ignorância começou a cessar em 1979, quando participei de minha primeira greve, em São José dos Campos. Era metalúrgico na GM.

Com a entrada do jornalismo em minha vida, passei a entender o que era golpe militar, censura à imprensa, perseguição política, tortura, prisões arbitrárias, ditadura, desaparecidos políticos, esquerda, direita, comunismo, Tio Sam, CIA.

O sono letárgico que vivi dos 13 aos 28 anos acabou.

Agora compreendo que nossos pais, pelo menos na Vila São Geraldo, ignoravam o golpe militar e evitavam se exporem politicamente.

Era puro medo das consequências, tal o terror que dominava mentes de pessoas simples com os militares no poder.

Ainda bem que tivemos nossos heróis, aos quais saúdo nesta data que não deve ser esquecida jamais.

O 1º de abril de 1964 não é data para ser celebrada.

É dia de relembrarmos as atrocidades cometidas contra cidadãos que lutavam para sermos um povo livre de ingerências externas, subjugados por quem se autoproclamava defensor da democracia e ofendia os direitos individuais.

Qual a sua história sobre o 1º de abril de 1964?