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domingo, 27 de maio de 2012

TRANSFORMAÇÕES UNIVERSAIS SÃO PROVOCADAS PELAS POPULAÇÕES

O jornalista e escritor Carlos Karnas escreveu para o jornal O Vale o artigo que reproduzo abaixo. Ele foi publicado na edição de sábado do mais importante periódico valeparaibano que organiza, ao lado do jornal Bom Dia, campanha de coleta de assinaturas a fim de sensibilizar as autoridades sobre o estágio de insegurança na região que assistiu, somente o ano passado, a mais de 400 assassinatos. Mais mortes que na Faixa de Gaza, como bem lembrou o professor Silvio Prado.


Aqui, o texto de Carlos Karnas


RUMOS PARA A PAZ

A campanha pela paz, com expressivas adesões nas cidades do Vale do Paraíba, é sintoma de que políticas públicas adequadas foram desprezadas ou desvirtuadas pelas administrações públicas e pelos políticos. O modo de se pensar o social das cidades precisa ser reavaliado. A desconfortável turbulência que agita os munícipes, indistintamente, é consequência de injustiças que se engrandecem. As mudanças e transformações universais são impulsionadas por manifestações populares. As mobilizações que acontecem procuram chamar atenção e clamam por mudanças radicais da forma como governos estão estabelecidos, de como os setores financeiros e produtivos atuam, de como é complexa a relação capital e trabalho. Não há saídas fáceis e conclusivas para o bem-estar coletivo.

Não poderia ser diferente na nossa região. Os últimos indicadores apontam a violência, a falta de segurança como principal preocupação do cidadão comum. A saúde, sempre crítica, por exemplo, passou para o segundo foco. A criminalidade exagerada, não controlada pelos órgãos de segurança pública, é sintoma de sociedade doente. Valores universais básicos desvirtuados não sedimentam mais a honra, moral, educação e a ética familiar. A contemporaneidade, avanços tecnológicos, a informação caótica e os modismos, parecem alimentar injustiças e comprometer o ambiente humano. Pensadores e humanistas, diante da questão, parecem inadequados, ou pouco ouvidos. Como derradeiro esforço, restritas lideranças elegem a fé e aumentam a voz para a necessidade de algum pacto social mais justo.

A violência é real, cruel e assume diversas formas. Está na ocorrência policial, no trato social e naquilo que o Estado deixa de oferecer de básico ao cidadão. Além de expor doença social, fica escancarada a falta de responsabilidade dos políticos e governantes que não souberam sustentar sólidos valores morais, fragilizaram nossas leis, desqualificaram práticas humanistas e solidárias, bem como a qualidade de ensino, saúde, habitação e todo o resto. Políticas públicas essenciais tornaram-se discursivas, apelos demagógicos para a conquista de voto, status e poder. A pirâmide social brasileira continua desigual, conveniente para poucos e perversa para a maioria. A corrupção e a malversação de verbas estão estabelecidas, impunes, em todas as instâncias e nos três poderes do estado democrático. Sem referências sadias, a sociedade sofre consequências no seu próprio meio. A violência, neste momento, é a evidência gritante.

Entretanto, são conhecidos alguns rumos que estabeleceriam dignidade às cidades e paz para todos os cidadãos. São propostas simples. Qualquer pessoa quer viver em cidade com ambiente seguro para todos os cidadãos; que disponibiliza empregos para todos que queiram trabalhar; que busca justiça, comemora as diferenças e trabalha para estabelecer seus valores cívicos; onde todas as crianças estão prontas para a escola e para o trabalho, e onde encontram-se redes de apoio público para todas as famílias em seus próprios bairros; onde os bairros renascem pela participação dos cidadãos e da prestação de serviços específicos, via Plano de Revitalização de longo prazo; com moradia decente e preço acessível para todos aqueles que a procurarem; com cidade limpa, saudável e atraente; que tem um centro vivo e economicamente saudável; que apresenta uma boa variedade cultural, de entretenimento e oportunidades recreativas; e financeiramente sã, bem administrada, com excelentes políticas públicas.

Tais diretrizes deveriam ser do conhecimento de administradores públicos, com o compromisso de aplicá-las com responsabilidade. Enquanto convivermos com a injustiça e a fragilidade das nossas instituições, talvez seja necessário alimentar a mobilização da campanha pela paz, para combater a violência à qual a autoridade minimiza como pode. Uma irresponsabilidade. A sujeira social é volumosa, está escondida pela grandiloquência política e corrói o que nos deveria harmonizar.