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domingo, 3 de junho de 2012

O EMOCIONANTE RELATO DE KARNAS E SUA CONVIVÊNCIA COM AUDÁLIO DANTAS

Não pedi permissão ao jornalista e escritor Carlos Karnas para reproduzir o email abaixo. Se Karnas enriqueceu-se ao saber que Audálio foi o deputado federal mais votado em Taubaté em 1968 e 1972, igualmente surpreendi-me com sua revelação e senti-me enriquecido por ela.

A história está ao nosso lado e a ignoramos não porque desejamos, mas por pura desinformação ou porque seus pundonorosos personagens preferem o anonimato, talvez por não desejarem uma glória que também é deles.

Muitos jornalistas tombaram por conta da luta pela redemocratização do Brasil. Wladimir Herzog é o mais conhecido dos que pereceram nos anos de chumbo.

Após a leitura do email abaixo, aprenderemos que os jornalistas Carlos Karnas e Audálio Dantas, separados geograficamente por pouco mais de mil quilômetros, Karnas em Porto Alegre e Audálio em São Paulo, tinham suas almas unidas na luta pela redemocratização.

Sinto-me na obrigação de reproduzir o email abaixo sem consultar o remetente por entender que a história não deve ser sonegada. O relato de Karnas é um depoimento histórico, que não podemos e não devemos ignorar.

Caro Irani, belo e significativo registro para homenagear o jornalista Audálio Dantas. Enriqueceu-me -- e surpreendeu-me -- a informação de Audálio Dantas ter sido o deputado federal mais votado em Taubaté, em 1978 e 1982. Por certo não decepcionou seus eleitores.

Na ditadura, nos Anos de Chumbo, lá pelos anos 70 e diante da censura da imprensa, nós jornalistas penávamos para trabalhar com liberdade, pela publicação de informação justa, relevante, imparcial e verdadeira. Éramos perseguidos e penalizados pelo regime militar. O sindicalismo era alvo de ameaças e agressões. Sedes sindicais continuavam sendo invadidas e destruídas pelas forças de repressão (DOPS). Os jornalistas do país necessitavam se fortalecer, forçar determinados jornais a se desvencilharem do subjugo autoritário e criar mais sólida identidade profissional nacional, com dignidade e coragem. Foi um movimento de engrandecimento e de luta que fermentou e cresceu contra o regime vigente.

Naquela época despontou o nome de Audálio Dantas, como o de consenso para a presidência da Federação Nacional dos Jornalistas. À época, eu integrava a direção do Sindicato dos Jornalistas, em Porto Alegre - RS. As decisões classistas e políticas (necessárias), as tomávamos fora da sede do sindicato, em locais obscuros escondidos da Polícia de Ordem Política e Social. Lembro-me das reuniões para discutirmos o apoio a Audálio Dantas para a FENAJ. Acabou sendo decisão unânime dos gaúchos, na reunião em que estavam eu, Antonio Gonzales (falecido), Antonio Oliveira (presidente do sindicato), João Borges de Souza (vice-presidente) e alguns outros integrantes e dirigentes sindicais. Decidimos, inclusive, fazermos uma ação entre amigos para patrocinarmos a vinda e estadia de Audálio Dantas para Porto Alegre, a fim de que ele pudesse apresentar a sua plataforma e seus objetivos como presidente da FENAJ. Alguns dias depois, Audálio Dantas viajou para Porto Alegre.

Fizemos uma reunião reservada no Sindicato e, mais tarde, na sede do Sindicato dos Bancários do RS (então presidida por Olívio Dutra, que foi ministro do Lula e governador do RS pelo PT), onde o nosso candidato à FENAJ conversou com os jornalistas. Olheiros das forças de repressão acompanharam aquela reunião e por muito pouco não saiu pancadaria ao final do encontro. Depois disso saímos para jantar (éramos o pequeno grupo citado acima). Na mesa de um restaurante de nome inexpressivo, em bairro porto-alegrense idem, longe de olhares comprometedores, definimos e realinhamos as pretensões dos gaúchos para a FENAJ, em apoio a Audálio Dantas. Ele firmou compromisso conosco e, posteriormente, se empenhou para que todos fossem cumpridos. A partir de então nos empenhamos, igualmente, na sua eleição. Redigi diversas mensagens e cartas circulares de âmbito nacional para defender as propostas e apoiar o nosso candidato. O resultado foi favorável a Audálio Dantas. Com ele, como representante maior do jornalismo brasileiro, intensificou-se a presença opinativa dos jornalistas na luta contra a ditadura militar, liberdade de imprensa e pelo restabelecimento do ideal democrático. Foi um posicionamento audacioso, com episódios cruéis e sofridos, mas que ganhou força e projeção nacional. Dele e ao lado de Audálio Dantas participei. Todos os jornalistas que participaram desse importante movimento sacrificaram suas vidas pessoais. Alguns, com sequelas irreversíveis. Mas, o resultado, com a grandiosidade do nome de Audálio Dantas representando os jornalistas de todo o país, ajudou a enobrecer o nosso trabalho profissional, a imprensa brasileira e estabelecer a volta da democracia, que a cada dia tentamos aprimorá-la.

Esse meu depoimento é rápido e refere-se a um pequeno episódio envolvendo o nome de Audálio Dantas. Convivi com ele, sempre em momentos críticos da vida nacional. Nos encontramos em outras participações nacionais, como a da grande reunião dos jornalistas, ocorrida em São Paulo, quando estabelecemos o movimento e o abaixo-assinado nacional para o protesto e o esclarecimento da morte de Vladimir Herzog nos porões da ditadura. Ou seja, lembrar os 80 anos de Audálio Dantas é gesto patriótico, pelo que ele fez, propiciou, lutou e pela dignidade com que atuou como pessoa, jornalista e homem público.