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segunda-feira, 20 de agosto de 2012

ELEITOR NÃO PODE ALEGAR IGNORÂNCIA

O jornalista Barbosa Filho analisa as denúncias publicadas pela revista IstoÉ e faz uma provocação aos eleitores taubateanos sobre as eleições municipais de outubro estampada na título deste artigo.

Barbosa Filho

A matéria publicada pela insuspeita revista IstoÉ revelou para todo o Brasil aquilo que os leitores do Irani Gomes de Lima já conheciam: há um esquema de corrupção instalado na FDE - Fundação para o Desenvolvimento da Educação, do Governo de São Paulo, presidida pelo engenheiro José Bernardo Ortiz, com a participação de seu filho Ortiz Júnior e do ex-secretário da Educação Alexandre Schneider.

Não faremos como fez a velha mídia brasileira que já condenou todos os réus no caso chamado (erradamente) de "mensalão do PT". Os fatos estão sendo investigados pelo Ministério Público e os suspeitos terão direito a todas as explicações. Explicações que Bernardo Ortiz tem-se negado a fornecer à Assembleia Legislativa do Estado, num desacato que só aumenta as suspeitas.

Em primeiro lugar, é preciso ressaltar a seriedade do trabalho de meu colega Irani Gomes de Lima que desafiou todos os riscos ao trazer o assunto ao público antes de qualquer outro jornalista. Foi criticado (por que será que os críticos são sempre "anônimos"?) e até ameaçado. Soube manter-se firme no seu dever de Jornalista, sem ódio, mas também sem medo. Prestou e continuará prestando um serviço inestimável à população e ao eleitorado que só recebendo informações transparentes poderá avaliar melhor quem merece o seu voto.

Sabemos que a chamada "grande" imprensa afina-se integralmente com o projeto político do PSDB, em todos os níveis. A própria presidente da Federação Nacional dos Jornais e diretora do grupo Folha de S. Paulo, Judith Brito, já disse que a imprensa age como partido político de oposição a Lula, Dilma e ao PT "porque a oposição é muito fraquinha". A Folha, o Estadão, a Editora Abril (revista Veja) e o poderoso sistema Globo de TV, rádio, jornais e revistas fazem permanente campanha de terrorismo midiático contra o Governo Federal e seus aliados, enquanto esconde cuidadosamente os erros e crimes cometidos por membros do PSDB e da direita em geral. Lembrem-se que até ontem um dos heróis desta mídia era o ex-senador Demóstenes Torres, mostrado como um exemplo da Ética, o grande adversário do PT, enquanto participava do crime organizado sob a chefia de Carlinhos Cachoeira.

EFEITOS

Juridicamente o caso da FDE ainda vai longe, todos sabemos. Nós taubateanos conhecemos como poucos o quanto demoram os processos de corrupção contra políticos e autoridades.
Porém, a questão é também política. Um dos investigados pelo Ministério Público é justamente um candidato a prefeito desta cidade: José Bernardo Ortiz Júnior. O outro é seu pai, que todos sabemos seria o prefeito de facto, caso o Juninho fosse eleito. Bernardo jamais aceitou perder o poder e sempre tentou tutelar seus sucessores, eleitos com seu apoio e empenho. Lembrem-se que Bernardo fez a campanha de seu candidato Antonio Mário (hoje felizmente desvinculado do ex-padrinho político e mostrando imensa luz própria) com o slogan "É Ortiz de novo".

Tem sido este o lema de Bernardo Ortiz desde 1982 quando foi eleito pela primeira vez: 'É Ortiz, sempre". Quando afirmo que Ortiz vê Taubaté como um fazendão que sua família deve governar por direito divino, não estou brincando. Todos que o conhecem um pouco sabem desta sua visão quase missionária: ninguém presta nesta cidade e só nós, os Ortiz, somos inteligentes e puros o suficiente para guiar esta massa ignara.

Confesso que não sinto nenhuma alegria ao criticar, às vezes asperamente, o sr. Bernardo Ortiz e seu filho; faço-o politicamente (jamais mencionei qualquer defeito pessoal de ambos, até porque não conheço nada que os desabone enquanto seres humanos com méritos e falhas, como todos nós). Apenas tenho o direito de achar que Taubaté é grande demais para precisar de guias "superiores", predestinados a nos governar. Além disso, acho que o primeiro mandato (de seis anos) de Bernardo foi excelente; o segundo foi razoável, e o terceiro foi sofrível. É natural que o novo de hoje seja antigo amanhã; as ideias esgotam-se, os métodos cristalizam-se e instala-se a rotina. Nosso tempo exige criatividade e algo que Ortiz nunca teve: muita sensibilidade social - creio que Lula ensinou isso ao Brasil e ao mundo.

ATENÇÃO

Politicamente, portanto, este caso da FDE tem enorme importância. Os indícios são fortes demais para que o eleitorado os ignore. Quem vota em corrupto sabendo que é corrupto perde o direito de reclamar depois. Quem vota em Maluf sabe quem está escolhendo, e não pode fazer discursos hipócritas contra a corrupção. Também por isso critiquei várias vezes algumas figuras que tentaram manipular a indignação dos taubateanos com as acusações feitas ao prefeito Roberto Peixoto: a indignação é justa, mas é errado alguém tentar tirar proveito dela apenas por sede de poder.

Tenho grandes amigos no PSDB e mesmo na direita política, e sei que também não engolem roubalheira, venha de onde vier. Honestidade não tem partido, é um princípio que a maioria absoluta do povo brasileiro comunga e defende. Quando vemos o enriquecimento fácil de alguns políticos, temos que nos revoltar mesmo: o corrupto político (há também corruptos em outras atividades), que tira dinheiro que pode salvar vidas, que pode educar crianças. É um crime, eu diria, contra a Humanidade, e deveria ser punido com a pena mais rigorosa e, especialmente, com a reversão de todo dinheiro roubado aos cofres públicos.

Diante dos fatos que Irani nos trouxe há tempos e que, agora, a revista IstoÉ levou para todo o Brasil, o eleitor taubateano não tem desculpa. Ou vota de acordo com a honestidade tão reclamada, ou vira cúmplice da corrupção. A campanha milionária de Ortiz Júnior já bastaria para nos fazer pensar: vale a pena investir tanto numa eleição se o que se pretende é servir ao povo e não servir-se dele? A impressão que se tem é que o candidato deseja comprar a Prefeitura! A fortuna aplicada na campanha jamais será recuperada em quatro anos por um prefeito que viva de seu salário (que não é baixo).

Vem aí a propaganda na TV, todos aparecerão lindos e apaixonados pelo povo. Mas o eleitor precisa estar atento: a embalagem bonita pode esconder um produto podre. Depois não adianta procurar o Procon...