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terça-feira, 2 de outubro de 2012

CAMPANHA DE ORTIZ JUNIOR
NÃO É DE UM VENCEDOR


Por Antonio Barbosa Filho

Diante do desastre causado pela divulgação, em âmbito nacional, do escândalo de corrupção que envolve o demitido José Bernardo Ortiz (ex-presidente da Fundação para o Desenvolvimento da Educação, do governo paulista) e seu filho, Ortiz Júnior, a equipe de Duda Mendonça mudou totalmente o tom da campanha. O publicitário político mais caro do Brasil abandonou a construção da imagem de competência que vinha criando para o jovem candidato e mandou-o assumir a feição de um humilde pedinte de votos, atacado injustamente por seus inimigos, e perseguido covardemente por um MInistério Público que estaria fazendo politicalha eleitoral.

O tom de Juninho, agora, é para fazer chorar seus pobres e crédulos eleitores: ao ouví-lo ontem, no seu programa de TV (eu estava num restaurante e a TV às minhas costas) pensei que se tratava de um programa religioso, e que o pregador iria pedir orações por alguma nobre causa, tão doce, tão humilde, tão carente soava o milionário candidato. Não: era apenas o denunciado ensaiando um novo discurso...

Em campanha deste porte de gastos, o marqueteiro fabrica o candidato como achar melhor para conquistar o eleitor. Juninho - ninguém sabe dizer em que trabalha o moçoilo - era mostrado como um executivo, cercado de boa equipe, dinâmico, sobrevoando as obras quiméricas que prometia fazer. Aí vieram os malditos FATOS: ele é apenas um cidadão acusado de vários crimes, sob ameaça de ter seus bens bloqueados pela Justiça e seus direitos políticos cassados, antes ou depois das eleições. Como a maioria absoluta dos eleitores de Taubaté declara-se enojada com corrupção, lá vai Duda Mendonça fabricar outro Juninho, capaz de inspirar piedade e solidariedade desses mesmos eleitores. 

SERÁ QUE COLA? 

Pelo que tenho ouvido nas ruas, e pelo que ouço também de experientes observadores políticos, é muito difícil que o povo acredite neste novo "produto" da propaganda, por mais bonita seja a nova embalagem. Quem conhece um pouco os Ortizes, sabe que a doçura e a humildade são atributos completamente estranhos às suas personalidades.

Ortiz pai sempre gostou de humilhar as pessoas, desde as mais humildes (lembrem-se que um de seus primeiros atos como prefeito, ainda em 1983, foi cortar a merenda escolar que a Prefeitura dava à APAE...) aos mais próximos de seus assessores. Muitos engoliram sapos imensos para trabalharem ao seu lado, sabendo que a qualquer momento poderiam ser enxotados e desmoralizados publicamente. Não foi isso que ele fez com seus vice-prefeitos e com seus sucessores, com os vereadores e até com autoridades do Judiciário? 

Uma testemunha deste "estilo" rude de Ortiz  tratar os demais é o próprio prefeito atual, Roberto Peixoto, que foi vice de Bernardo Ortiz e por ele entusiasticamente apoiado em 2004. Roberto, que termina seu mandato duplo respondendo por erros que cometeu e por muitos que nem sequer imaginou, afirma com resignação: "O Júnior quer parecer diferente de seu pai, mais humano, mas é ainda mais agressivo e autoritário. Só quem não o conhece pode se deixar enganar". 

Peixoto está "queimado" politicamente, mas ainda tem seus seguidores no meio do povo, e vem recomendando discretamente que votem no Padre Afonso. "Nem é tanto pelo Padre Afonso, a quem respeito, mas para que tenhamos um segundo turno, o que seria muito bom para Taubaté", afirma o prefeito. 

SEGUNDO TURNO ASSEGURADO

Com números confusos que não "fecham", uma empresa de Cruzeiro fez uma pesquisa nos dias 26 e 27 de setembro, antes, portanto da divulgação nacional do escândalo dos Ortizes-FDE, e concluiu que se a eleição fosse em 1 de outubro o Juninho venceria no primeiro turno. A manchete de um jornal de São José dos Campos com os números vantajosos ao tucano, serve muito bem para a propaganda de TV, mas esbarra num FATO inegável: se pesquisa é o retrato de um momento, e se o momento seguinte foi aquele em que os eleitores dos Ortizes ficaram chocados com a acusação consistente de corrupção, sentindo-se traídos, então hoje tudo já deve estar alterado. 

É como avaliar-se um cidadão sem antecedentes criminais na segunda-feira, e na terça ele mata uma família inteira. É óbvio que nossa opinião da segunda não valerá nada na quarta! Da mesma maneira, os Ortizes de um mês atrás, ou menos de uma semana atrás, eram "outros" no conceito popular. Hoje o quadro é muito diferente, por mais que a campanha de Duda Mendonça - a quem não se negará inteligência e talento - mude de assunto, e coloque uma auréola de santo na cabeça do Júnior. 

O tom de Júnior, quase choroso, implorando os votos que antes achava já ter de sobra, coloca o eleitor num claro impasse: vamos nos comover pelo doce menino que não tem pecados ou vamos repudiar um suspeito de corrupção que já levou Taubaté aos noticiários nacionais, e que pode nem tomar posse ou tomar posse com oficiais de Justiça aguardando na sua ante-sala?

Como taubateano, recuso-me a acreditar que 47,5% de meus conterrâneos tolerem a corrupção, ainda que, como sempre, muito bem disfarçada.