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quarta-feira, 3 de outubro de 2012

O VOTO DIRÁ


Por Carlos Karnas, jornalista e escritor

Aparentemente, o eleitorado taubateano se deixou seduzir pela imagem e despreza o conteúdo. Alimenta frenesi pelos candidatos mais midiáticos, sem avaliar os custos de campanha eleitoral fantástica como a praticada pelos que lideram as pesquisas de intenção de voto. A força robusta do dinheiro, o batalhão de pessoas contratadas para a campanha deles, o material panfletário produzido e o tutelamento oportunista dos caciques políticos que os sustentam, estabelecem a manipulação conveniente e fantasiosa aos que não querem ou não têm condições de pensar diante de uma eleição tão importante quanto a deste ano. Um perigo à democracia, à honra, integridade e independência de Taubaté.

O comportamento do eleitorado taubateano pode estar no rumo contrário às orientações do próprio Tribunal Superior Eleitoral. Este colegiado, preocupado em moralizar o perfil das candidaturas e determinado a alertar a conduta dos eleitores de todas as facções – até mesmo os sem facções –, estabeleceu um código de orientação que diz: “Siga sua consciência. Não vote contrariando sua opinião nem influenciado por pesquisas. Conheça o passado do candidato. Conheça o programa do candidato e suas ideias. Preste atenção nas atitudes do candidato. Elas mostrarão o caráter dele.

Objetivamente, o TSE chama a atenção para a importância do ato de se votar. Chama a atenção do eleitor para que ele não se deixe contaminar por pesquisas nem pelos enfeites que determinados candidatos expõem na mídia. Propostas são meras propostas, jamais compromissos fundamentados em ideias do homem público independente, experiente, afinado com a democracia e o povo, que respeita o dinheiro público.

Qualquer avanço na reflexão sobre os atuais candidatos à prefeitura de Taubaté – e seguindo as orientações do TSE –, é fácil perceber que o candidato Ortiz Jr. (PSDB), da coligação “tudo de novo”, é o mais vulnerável quanto ao seu presente e passado. Primeiramente pela sua atitude perdulária e nada honesta nesta sua campanha eleitoral. Depois, pelo seu passado que não lhe dá qualquer sustentação digna de prestação de serviços à coletividade. Pelo contrário. Seu histórico de atividades é insignificante, pífio e nebuloso.

Foi exposto publicamente como garoto preguiçoso, inconsequente e irresponsável na administração municipal, por não trabalhar e passar o dia brincando em computadores, daí ter sido defenestrado da prefeitura. Foi seu ex-patrão quem fez essa revelação. Mesmo assim, o candidato tucano está apadrinhado no exercício de atividades confortáveis, só possíveis no governo de compadrio. Seu patrimônio declarado ao Tribunal Regional Eleitoral pode ser totalmente duvidoso, bem como os gastos apregoados para esta campanha eleitoral. É a mais rica e fantástica de todas as que já foram praticadas em Taubaté. E pior: Ortiz Jr. está sob suspeição e é acusado de ser propineiro, de participar de negociações entre empresa interessada e a Fundação para o Desenvolvimento da Educação (FDE), presidida pelo seu pai, José Bernardo Ortiz – atualmente licenciado para participar da campanha eleitoral do filho.

Ortiz Jr. é acusado de praticar licenciosidade, desde que beneficiários alimentassem com dinheiro vivo a sua campanha eleitoral. A denúncia fundamentada está no Ministério Público e é alvo de investigação na Assembleia Legislativa do Estado. Não há menção da participação de Ortiz Jr., o candidato tucano, em qualquer pequeno, médio ou grande movimento político em defesa da honra e em benefício da cidade e da população.

Não bastassem todos esses fatos pouco recomendáveis, a campanha de Ortiz Jr. é festival de propostas nada inovadoras, mas mero resgate de ações e práticas de quem já governou Taubaté, cujas realizações foram destruídas ou descontinuadas pelos sucessores (José Bernardo Ortiz e Roberto Peixoto) nos últimos 12 anos. Isso ele esconde e então pratica a desonestidade. Acena com parcerias alienígenas daqui e dali que são visivelmente eleitoreiras. Caso fossem responsáveis, seria obrigação dos tuteladores desse candidato já terem concretizado e atendido às reivindicações insistentes, de anos, feitas por Taubaté.

A responsabilidade do Governo do Estado ou do Governo Federal em comprometerem-se com o que devem a Taubaté, independe de uma ou outra candidatura, de um ou outro prefeito. É obrigação constitucional de fato, sem conluios partidários ou pessoais. A cidade nada ganhou de importante dos Governos do Estado ou Federal e dos caciques políticos que se afinam com o tucanato que envolve o moço Ortiz Jr.

Por fim, ficam as perguntas: o que fundamenta a postura política do candidato do “tudo de novo”? Qual a sua bagagem política, sua experiência, competência e discurso político consequente? Não tem. Não apresenta. Foge daquilo em que está implicado e de tudo que o incrimina. Nada explica. Não fala a verdade, escamoteia seus atos e conluios.

Ao afirmar que é envolvido por empresa que não ganhou licitação da FDE, isso não exclui toda e qualquer negociação que tenha sido estabelecida e dela tenha participado. A má intenção e o oportunismo da propina não ficam excluídos. Ortiz Jr. engana a população, gasta dinheiro estranho para se expor e aproveita o poder midiático que tem nas mãos. Cara a cara e em debates, o conteúdo desse candidato não se eleva e oinconsistente se esvai pelo ralo indigesto.

O taubateano pode estar embotado. Não está refletindo nem se dando conta da armadilha que o envolve. Parece assistir a campanha eleitoral como quem assiste a novela do horário nobre, que acaba na satisfação emocional do próprio capítulo sem consistência. E passa. Será o taubateano o especial responsável pelo resultado da eleição à prefeito deste ano? O resultado eleitoral poderá castigar o município na sua honra, novamente. Haverá algum tempo para as avaliações comportamentais do eleitorado ficarem melhor concluídas. Também para os reflexos inevitáveis.

No primeiro momento, são nítidas as consequências desastrosas das últimas administrações municipais, que comprometeram a dignidade da população e da cidade. Pior. O comportamento político geral desqualificou a voz e clamores populares que exigiam a imposição da ética, moral, comprometimento com causas municipais sérias e o fim da corrupção. Políticos e a Justiça continuam não dando respostas rápidas, definitivas e exemplares aos crimes e aos atos impróprios dos mesmos políticos.

A população e o eleitor desacreditam e não fortalecem como deveriam as nossas instituições soberanas. A contemporaneidade também ajuda o supérfluo a se sobressair. A massa da população desassistida, nos bolsões de miséria, abraça qualquer esperança dourada, mesmo a falsa. A estampa caprichada e bonitinha de candidatos, mas desqualificados e sem fundamentação, enfeitiça a visão do eleitorado mais sofrido.

Política e governo honestos e democráticos são necessários, desde que conservem representatividade responsável de mão dupla, com comprometimentos de honra, qualidade, honestidade, respeito, justiça e voltado às políticas públicas fundamentadas e consequentes. O candidato Ortiz Jr., liderando as pesquisas do momento, não se enquadra na boa política. Paga, e bem, para ficar maquilado diante do eleitorado.

É sustentado por tuteladores oportunistas que sempre levarão algum quinhão. Carrega o peso de denúncias assemelhadas às que recaem no atual prefeito Roberto Peixoto. Foi o mesmo grupo político de Ortiz Jr., com outros, que referendou e ajudou Roberto Peixoto a se eleger. Peixoto é caracterizado como sendo o pior prefeito, o mais corrupto de Taubaté. Foi detido pela Polícia Federal, é investigado pelo Ministério Público e não foi cassado graças ao legislativo municipal clientelista que, em boa parte, também se adorna ao mesmo grupo que sustenta Ortiz Jr.

Taubaté corre o risco de continuar sendo ridicularizada. O eleitor taubateano, novamente, com o “tudo de novo”, poderá estar desperdiçando o voto outra vez. Seduzido pela mídia, está desprezando outros conteúdos políticos de maior grandeza, experiência e dignidade. Taubaté tem caudilho e corre o risco de ver novo filhote nascer. O voto dirá.