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terça-feira, 23 de outubro de 2012

SOBRESSALTOS POLÍTICOS
QUE CONSTRANGEM TAUBATÉ


Por Carlos Karnas, jornalista e escritor

No país onde ideologias e doutrinas partidárias são frágeis, cada político estabelece suas próprias tendências. São absolutamente pessoais suas tomadas de decisão e não representam determinação de vontade coletiva – pelo menos da população melhor esclarecida e identificada com os rumos democráticos mais estáveis e sadios

Esses políticos valem-se de sutis conveniências particulares, voltadas para o poder de mando. Tomam suas decisões íntimas em determinados momentos políticos. Certamente de forma pensada e negociada para proveito próprio. Eles sabem identificar determinadas impulsividades da população, muitas vezes medidas nas pesquisas eleitorais do momento. Desta situação preferem tirar proveito imediato, mesmo sabendo dos riscos subsequentes e futuros que tendem a ser comprometedores e perniciosos à população.

A política conservadora de Taubaté vai continuar produzindo efeitos para minar e destruir boa parcela de intenções e predisposições políticas socialmente progressistas. A migração de apoio que está ocorrendo para o candidato tucano Ortiz Jr., neste momento político, é instigante e perigosa: tem característica do que é vendilhão, no sentido mais baixo, que trafica em coisas de ordem moral.

As últimas pesquisas eleitorais animaram a tendência migratória de políticos para o conservadorismo, com cara de caudilhismo que é estampa dos Ortizes, pai e filho. Os homens públicos que agora se afinam com o candidato tucano,jogam no lixo seus próprios discursos e, de certa maneira, comprometem seus próprios seguidores. Esses políticos, ao tenderem apoio e optarem pelo discurso de Ortiz Jr. que combatiam, podem estar cavando suas próprias sepulturas políticas.

Não terão mais chances eleitorais em Taubaté. Poderão ser figurões inexpressivos, de mostruário de banca na feira da breganha. A análise fria é esta, mas em política não há letra morta.

Mário Ortiz, candidato a prefeito pela coligação Muda Taubaté, concorreu e perdeu no primeiro turno. Liberou seus seguidores para apoiarem ou Ortiz Jr. (PSDB) ou Isaac do Carmo (PT) ou nenhum deles. Pessoal e politicamente esperou o momento de agora para anunciar o seu apoio definitivo neste segundo turno das eleições. O fez, para Ortiz Jr., sabendo dos riscos que corre.

Poderá comprometer a sua imagem política honrada e independente que sustentou ao longo dos últimos anos, com enorme sacrifício e prejuízos pessoais. O outro candidato, padre Afonso, também está prestes a anunciar o seu apoio no segundo turno. Corre a boca pequena que o encontro do candidato deputado estadual, que ficou em quarto lugar no primeiro turno, com o governador do estado, Geraldo Alckmin, foi constrangedor e intimidatório: ou o apoio ao candidato do PSDB no segundo turno é declarado explícito, ou os cargos estaduais ocupados pelo Partido Verde serão torpedeados para novas indicações.

Ou seja, jogo pesado de ameaças e consequências. Não só pesado como altamente conturbador e de alta lambança.

O resultado do segundo turno em Taubaté deixará marcas e lições. Os candidatos que perderam no primeiro turno e agora acenam apoio a Ortiz Jr., podem até terem finalizado seus acertos políticos ou pessoais com o tucano e seu grupo. Entretanto, tais acertos e negociações não se sustentarão talvez nem por seis meses, caso o tucano seja eleito.

São entendimentos efêmeros, permeados de falsidade porque não são honrados. Pelo que está exposto e conhecido, aquilo que parece estabelecido fortemente é a hegemonia e a força do caciquismo político em Taubaté, que não quer e não irá permitir qualquer sombra ou contestação. Há interesses presentes e futuros na sustentação de feudos municipais e estaduais. Vale o poder de mando, de governar, da ganância autoritária. Neste jogo indigesto as vontades coletivas da população não são levadas em conta.

O PSDB é partido engessado, sem tendência de crescimento, mas, sim, de encolhimento. O resultado das eleições demonstra. Postado como está no poder, terá futuro cada vez mais difícil e vergonhoso. O partido tucano tornou-se arrogante e prepotente, minado pela venalidade e com aquilo que lhe é vantajoso e o locupleta. Não está identificado com o social necessário.

Vale-se do social para ser pecuniário e para estabelecer suas imposições. Continua forte em cidades conservadoras e acomodadas no seu perfil histórico, como Taubaté. E os tucanos, na arte do mando e da prestidigitação, estão jogando tudo o que podem no segundo turno no município.

Quanto ao PT, não está conseguindo se desvencilhar da sua origem sindical em meio conservador. Por isso, neste momento não consegue convencer e arregimentar maior número de eleitores para o seu candidato novo e inexpressivo, mesmo apoiado por figurões importantes na vida nacional.

Ao longo dos últimos anos, o PT taubateano não seguiu ou fundamentou a dinâmica e os passos que o mesmo partido estabeleceu em nível nacional. Aqui o PT não soube sair do patamar em que está para construir bom nome, com características intelectuais e políticas mais efetivas, abrangentes e melhor estruturadas.

Aliou-se perigosamente ao PMDB de Ary Kara, com alto índice de rejeição, e sustentou Roberto Peixoto da pior administração municipal, que foi algemado e preso, carregado de denúncias de corrupção. No cenário nacional, o PT conseguiu evoluir, quebrou seus próprios paradigmas, conquistou o poder, estabeleceu governos eficientes e mudou o seu próprio discurso. Menos em Taubaté, onde derrapa para um lado e para outro e pouco avança na social democracia.

Identifica-se ao PSDB, quando está atrelado ao caciquismo político e sem capacidade para delinear novo horizonte político palatável à população de cidade conservadora.

O fato é que Taubaté, até o final da semana, irá escolher o prefeito da cidade em segundo turno histórico. Não estão na disputa os nomes mais capazes, honrados e representativos. Pelo contrário. A cidade cresceu e agigantou suas próprias encrencas. Sofre com sucessivos maus governos municipais, autoritários, incompetentes, coniventes com o que é nefasto e impregnados de corrupção.

O caciquismo político é medonho e permanece há anos em mãos dos mesmos grupos de mando, que pouco ou nada fazem pelo bem-estar coletivo. O poder os locupletam. O município sangra, mas tem economia forte o suficiente para que não se destrua por completo. O que fica é a vergonha, a chacota que mina o coletivo, humilha e desmoraliza o cidadão de bem ainda impotente, submisso às mentiras e mal-informado quanto a honra dos seus representantes políticos.

Não é difícil antever o que acontecerá no próximo governo municipal. Em primeiro lugar, todas as promessas, compromissos e propostas que sustentam as campanhas de Ortiz Jr e de Isaac do Carmo não serão honradas. Não há como os dois candidatos cumprirem com o que prometem, pois são de perfis frágeis, inexperientes, praticam o discurso falso e se valem do tutelamento político que não tem compromisso com Taubaté. Puro jogo de cena eleitoral que promete realizações com dinheiro incerto para projetos que nem estão no papel. Isso é falácia para enganar a população.

O PT, no governo municipal, será forçado a abrir as portas da prefeitura para a migração maciça de executores do partidovindos de outros locais. O PSDB no governo agirá da mesma forma para abrigar destrambelhados de São José dos Campos, acomodados ao conforto do governo e identificados com os benefícios que Ortiz Jr. bem conhece e persegue, seguindo os conselhos e os imperativos paternos. Os Ortizes não sabem e não querem viver longe do poder.

Num caso e no outro a cidade ficará vendida, subjugada e entregue aos alienígenas desconhecidos. A população continuará desamparada, vilipendiada e provavelmente se agravem os conflitos sociais. Nada de importante ou significativo acontecerá. A herança destinada ao futuro prefeito será indigesta, verdadeira caixa preta que poderá surpreender a todos.

O PT, talvez, poderá ter maior dignidade nos desvendamentos e na higienização dessa caixa preta que está para ser passada adiante. O PSDB, ao contrário, irá emporcalhar ainda mais essa determinada herança maldita, por ter conduzido e apoiado Roberto Peixoto, o responsável pelas últimas excrecências municipais.

O fardo pior para o PSDB, justamente, é ser o partido mais sujo da nação, segundo levantamento do próprio Superior Tribunal Eleitoral. De antemão, o candidato Ortiz Jr. já está comprometido com a delinquência e transgressão. Sustenta-se à sombra do pai e lhe convém às benesses do poder, nunca o do trabalho honrado e produtivo. Nada fez por Taubaté. É réu na Justiça, denunciado pelo Ministério Público como propineiro, como criminoso, que se beneficiou de negócios ilícitos com o pai, sangrando os cofres públicos.

Não pelo fato de as mochilas da Fundação para Desenvolvimento da Educação (FDE) terem custado barato, mas por participarem de máfia que logrou fantásticas comissões em negociatas camufladas nas licitações públicas. Os bens de Ortiz Jr. estão bloqueados, bem como os do pai – também destituído do cargo de presidente da FDE. Caso o PSDB assuma o governo de Taubaté, a administração de Ortiz Jr. já estará caracterizada tãovenal e igual, até pior que a de Roberto Peixoto.

O tucano irá governar desmoralizado, no desgaste permanente e sucessivo, sem honra ou dignidade na loucura das liminares judiciais. Perderá rapidamente autoridade moral, que já não tem por ser réu em grau comprometedor, e muito menos competência ou integridade ética. Também não está livre de ter a sua candidatura impugnada.

A população taubateana quer mudanças, mas ainda não conseguiu identificar o caminho mais correto para que elas se estabeleçam. Há carência de políticos e personalidades públicas novas, honradas e confiáveis. Restará, com o tempo, a retomada da mobilização popular taubateana. Os movimentos públicos acanhados, que se insurgiram contra a administração do PMDB de Roberto Peixoto, talvez devessem rever suas estratégias no sentido de união e arregimentação em corpo maior, de maior expressividade.

Só assim o taubateano poderá determinar a sua revolta para resgatar a honra e dignidade próprias e do município. No mínimo com eficientes protestos e panelaços na frente do Palácio Bom Conselho e diante da servil Câmara Municipal. Movimentos clamando por Justiça devem ser alimentados com insistência, porque esperar por algo ativo e consistente dos homens públicos e dos políticos conhecidos da cidade, isso a população não terá.

Taubaté, para romper o círculo vicioso em que se encontra, deverá identificar e apostar em novas lideranças políticas honestas, coerentes e com propostas estáveis. A boa saúde política taubateana só acontecerá com mobilização popular, com a prática da cidadania que engrandeça a própria política. Informação, educação e conscientização política fazem parte desse processo.

Para que os feudos e caudilhismos sejam eliminados, a população consciente deverá não mais apostar nos mesmos nomes políticos de sempre e que aí estão. Eles cada vez mais envergonham e comprometem o município e a região.

No Supremo Tribunal Federal, o país acompanha as condenações que se sucedem no Caso do Mensalão. O desfecho ainda está por vir, mas os sinais da necessidade de moralização política emitidos pela Justiça são claros e inquestionáveis. Corrupção, formação de quadrilha, lavagem de dinheiro, evasão de divisas, compra de votos e de parlamentares são crimes. Os réus implicados estão sendo condenados.

Há clamor popular e da Justiça neste sentido. Pensando bem, o Mensalão ou o Governão não serão práticas e identidades típicas em Taubaté? Não é justamente este cenário o que existe e está impregnado no município? E os protagonistas todos, daqui, continuarão impunes indefinidamente?

A política taubateana permanecer estável, como está, pode dar vergonha e ser constrangedora. Os sobressaltos são previsíveis.