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quinta-feira, 8 de novembro de 2012

CHEGA DE SILÊNCIO

Professor Silvio Prado

Taubaté, num silêncio absurdo, prossegue no seu drama político e ocupa, pela milésima vez, manchetes nacionais no terreno da corrupção. Num processo eleitoral repleto de suspeitas e acusações de corrupção, a cidade elegeu um prefeito que já está lhe custando caro. Se houver um mínimo de justiça, o prefeito eleito não será diplomado e nem deverá tomar posse.

Foi-se o tempo em que a referência nacional da cidade era gente do padrão artístico e cidadão de Lobato, Mazzoropi, Celi Campelo. No esporte, Zito, mesmo não sendo taubateano, honrou o nome da cidade. Na televisão, apesar da futilidade costumeira, Hebe Camargo fez a sua parte.

Porém, nos últimos tempos a administração Peixoto inaugurou por aqui a era dos escândalos e visitas freqüentes de camburões e agentes da Policia Federal. A partir daí, a cidade não saiu mais do noticiário: barriguda, vereador canastrão que se fez príncipe, ovos de ouro, julgamento da máfia que traficou órgãos humanos, índices explosivos da violência, cachorro em UTI, média de duas mortes diárias no pronto socorro e, num espaço de pouco tempo, mais de duzentas outras mortes no Hospital Escola.

Enfim, para coroar roteiro tão inglório e tão extensa relação de fatos vergonhosos temos agora o escândalo da FDE protagonizado por Bernardo pai e Bernardo filho, dois ícones da falsa moralidade taubateana.

Pelo que se sabe das tramas e tramóias que compõem o escândalo da FDE, o fato é tão grave que pode até se tornar em escândalo capaz de interferir nos rumos da sucessão presidencial de 2014.

Aécio Neves, ex-governador de Minas e rei das noites e baladas cariocas, já anda colhendo informações sobre o assunto e deve usá-las para atrapalhar, dentro e fora do PSDB, as pretensões presidências de Alckmin e Serra.

Portanto, se alguém pensa que a traquinagem da família Ortiz vai ficar restrita ao silêncio combinado da política local está enganado. Quando as amarras do processo se soltarem e a sorte da dupla for decidida no interior do PSDB, concluindo que nem Alckmin e nem Serra serão atingidos pelo furação, as principais emissoras de tevê do país inteiro, acompanhadas pelo restante dos órgãos informativos, vão destrinchar o assunto pois é muito grave o que a dupla de traquinas fez com dinheiro da educação paulista.

Quem leu a peça de acusação da promotoria pública perde o fôlego diante de tanta irregularidade e tão flagrante violação da lei. Para um desavisado, o texto do promotor passa a impressão de que não se trata de um documento explicitamente jurídico mas um entranhado enredo de algum seriado ou novela global.

Se a Globo quiser montar mais uma novela ou um de seus seriados sobre o tema corrupção na máquina pública nem precisa contratar um roteirista. Basta comprar os direitos do texto em que promotoria acusa Bernardão e Bernardinho de transformar uma fundação de caráter público em cenário típico de um certo submundo onde gangs engravatadas se organizam e se interagem freneticamente para levar para seus cofres particulares carretas de dinheiro público.

O texto do promotor, apontando tão variadas e repulsivas mutretas, está prontinho para ser um sucesso televisivo e certamente ganhará maior riqueza de detalhes quando as transcrições das escutas telefônicas permitidas pela Justiça forem reveladas.

Porém, apesar do tamanho do escândalo a cidade permanece num silêncio estarrecedor. Raríssimos são os setores da mídia que se atrevem a falar criticamente sobre o tema, como é o caso do Diário de Taubaté que tem produzido matéria e opiniões consistentes sobre o escândalo FDE, junto com o blog do Irani Lima, jornalista corajoso e de responsabilidade pública incomparável, o que deve obrigar Bernardão e Bernardinho tomar litros de Maracugina toda noite para refrear as sempre crescentes batedeiras do coração.

Por outro lado, o jornal O Vale, quando fala no assunto bota sobre a mesa um feijão com arroz muito mal temperado e se enche de cuidados para não ferir e nem contrariar ninguém. Da Metropolitana, parceira de Junior desde o primeiro dia de seu projeto, não se pode esperar nada além do amparo que tão bondosos “amigos e parceiros” precisam em horas tão difíceis.

Diante da intervenção da justiça no processo eleitoral, a cidade deveria escancarar os bastidores e colocar na rua toda a efervescência que o caso FDE está produzindo por aqui. Está na hora de discutir a cidade com maior profundidade e com um direcionamento político novo. O silêncio só interessa aos falsos transparentes e toda sorte de gente que anda plantando argumentos absurdos e idiotas para camuflar ou esconder o real.

O silêncio só interessa ao PSDB, agora completamente acuado e sem ter como responder ao povo por que a Promotoria Pública resolveu dar ao novelão eleitoral, exaustivamente encenado por Junior, um final completamente diferente daquele produzido sob patrocínio da FDE.

Silvio Prado