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terça-feira, 13 de novembro de 2012

FORMAR UMA QUADRILHA

Professor Silvio Prado

Não pense que é coisa fácil organizar uma quadrilha para faturar alto nos corredores do poder. Quantas horas de sono se perde, quanto tempo se fica longe da família e quantas reuniões, noite afora, todo quadrilheiro é obrigado a fazer em salas e salões reservados de lugares como hotéis ou mesmo casa de campo de alguém pertencente ao bando.

Cada passo da quadrilha deve ser devidamente calculado, cada ação extremamente pensada. Nada deve ser improvisado. Tudo precisa ser extremamente profissional e mostrar aparência digna de empresas bem sucedidas. Até que se decida como agir e quais objetivos devem ser atingidos pelo bando em formação, cada quadrilheiro precisa se portar como homem digno e de família, cidadão respeitável, honradíssima pessoa interessada inclusive no bem público. O quadrilheiro profissional precisa ter aparência social impecável e não deve portar manchas que o coloquem como suspeito de qualquer coisa.

Formar uma quadrilha num mudo sem ética como o nosso é um verdadeiro risco porque o que prevalece entre os quadrilheiros, inclusive entre quadrilheiros engravatados, é uma desconfiança geral e absoluta, mesmo que todos tenham feito o juramento de que serão fiéis um ao outro até mesmo diante de algum delegado incorruptível da Policia Federal. Não importa se o quadrilheiro é católico ou evangélico, umbandista, espírita. De nada vale sua fé religiosa. O que vale é o seu elevado espírito de quadrilha, mesmo que alguns se emocionem e façam impressionantes orações depois de um roubo bem sucedido.

Quando a quadrilha é formada para roubar dinheiro público através, por exemplo, de licitações fraudulentas, aí o couro come de verdade pois o dinheiro do Estado, sempre muito bem vigiado, é coisa grandiosa e desperta um apetite desgraçado em todo mundo. Não pense que é coisa fácil obter informações privilegiadas em algum setor do estado e depois usá-las de maneira conveniente para negócios escusos feitos dentro da lei. Para que a coisa funcione bem e gere negócios lucrativos, é sempre bom incluir na quadrilha alguém próximo de algum secretário de estado ou pessoas próximas de algum manda chuva de qualquer fundação ou organismo público que tenha cofres poderosos. Algumas poderosas quadrilhas que agem dentro ou nas imediações do estado são estimuladas muitas vezes por funcionários graduados, secretários presidentes de fundação, como alguns fatos recentes acabam de provar.

Todo mundo sabe que meter um trezoitão na cara de um bobo numa viela e arrancar dele um celular vagabundo é coisa de despreparado ou nóia embalado pelo crack. Porém, partir para fraudar ou truncar licitações públicas e arrancar montanhas de dinheiro do estado é bem mais complexo. Não basta apenas querer, é preciso saber e conhecer os detalhes, meandros, caminhos e descaminhos legais e ilegais por onde vai entrar ou sair o dinheiro que tanto interessa. Isso é coisa para advogados espertíssimos, contadores habilitados, políticos, burocratas de carreira ou gente que, mesmo não merecendo confiança nenhuma, ocupa sempre cargos de confiança na máquina pública.

Até que se consiga botar a mão na dinheirama e depositá-la num cofre particular, vai uma longa e extenuante história que geralmente é bem sucedida, mas pode se desdobrar em equívocos e perder o rumo se um dos parceiros (ou empresa) se acha prejudicado, perde o juízo e, por pura vingança, revela o esquema para o primeiro promotor público que encontra pelo caminho.

Enfim, formar uma quadrilha para ganhar rios de dinheiro vindo dos cofres públicos é sempre bom enquanto dá certo, principalmente num país onde a corrupção, depois do futebol, é o maior esporte nacional. A corrupção é um grande negócio que às vezes, muito raramente, pode dar até cadeia. No entanto, mesmo que ganhe um rápido tempo de cadeia ou constrangimentos públicos, o autor da corrupção quase sempre é devidamente perdoado e, depois de morto, certamente terá o nome solenemente glorificado numa placa de rua, ou poderá até virar nome de escola e de creche, repartição pública, estádio de futebol, bairro, cidade...

Quantos heróis da nossa idolatrada pátria amada não usufruiu largamente da fartura de nossos cofres públicos?