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quarta-feira, 19 de dezembro de 2012

O DIPLOMA SUJO DE LAMA

Antonio Barbosa Filho, jornalista

DELFT (Países Baixos) - Deveria ser um dia de festa cívica em Taubaté, este 19 de dezembro, quando os candidatos eleitos em outubro recebem das mãos do Juiz Eleitoral os seus diplomas de vereadores, vice-prefeito e prefeito pelos próximos quatro anos. A cidade, cansada de crise política e dos escândalos de corrupção que mancharam o nome de Taubaté em escala nacional, ansiava por respirar novos tempos, nos quais a classe política agiria com transparência, trabalhando pelo bem comum, cada um dos eleitos vivendo de sua digna remuneração paga pelo povo - fonte de todo o Poder.

Infelizmente, o clima que vivemos na cidade é muito diferente dos nossos sonhos: saímos de uma crise para mergulhar em outra, ainda mais dramática. Sai um prefeito cercado de pesadas acusações, com uma lista de processos a responder nas várias instâncias da Justiça, e entra outro com igual peso sobre as costas. Juninho Ortiz receberá um diploma manchado de lama, encardido pelos pequenos e grandes atos ilícitos que cometeu para chegar ao cargo para o qual seu pai, o presidente afastado da FDE - Fundação para o Desenvolvimento da Educação, desejou prepará-lo desde o berço.

Aqui cabe um parênteses: prepara-se os filhos para serem bons profissionais e bons cidadãos. Um bom (ou boa) médico(a), um bom ou boa advogado(a), um bom ou boa garçom ou garçonete, um comerciante. Prefeito não é profissão! O cidadão, de qualquer habilitação profissional pode sentir, em alguma altura da vida, o chamamento ao serviço público, e aí entrará na política, disputando cargos que lhe permitam servir a sua comunidade e o seu país. Os Ortizes são um caso único de alguém que impôs a um filho uma vocação - a de ser prefeito - e para realizar tal profecia aceitou usar de quaisquer métodos, os legítimos e os ilícitos. Como diria o Diniz Júnior: ponto para Taubaté!

 Colecionador de diplomas, Juninho Ortiz não deveria sequer colocar este de prefeito em moldura muito sofisticada: ele pode ser-lhe retirado a qualquer momento. É um diploma provisório, cuja validade pode ser de alguns dias, algumas semanas, ou alguns meses. Dificilmente durará quatro anos. Depende apenas da agilidade ou lentidão (contumaz) do Poder Judiciário em analisar e julgar as gravíssimas denúncias que pairam sobre o prefeito-eleito e seu pai.

Normalmente, esse tipo de gente consegue dormir tranquila, pois é privada de um sentimento tão comum nas pessoas do povo: a consciência pesada, ou, popularmente falando, a vergonha-na-cara. Paulo Maluf é um exemplo de político notoriamente corrupto que consegue sorrir diante das mais veementes provas de seus malfeitos, e assim vai levando sua vida luxuosa há mais de cinco décadas! E muita gente o considera um cara "inteligente", pois jamais foi apanhado pela Lei (com exceção de uma breve prisão feita por meu amigo delegado da Polícia Federal e hoje deputado Protógenes Queiróz, logo relaxada por algum juiz respeitador da tradição brasileira de que cadeia é para preto, pobre, puta e, mais recentemente, petista).

Como já dizia o psicanalista mineiro Hélio Pellegrino: "a inteligência voltada para o mal é pior do que a burrice". Se Maluf representa um passado triste, que desaparece com a inexorável passagem do tempo, Juninho Ortiz é apenas um aprendiz nesta perigosa área da política do "vale-tudo por dinheiro". Sua sorte é que a imprensa regional tem a alma tucana e jamais iria deixar o povão conhecer os podres de tão ilustre filho do coronelismo caipira-carioca.

As emissoras de TV em Taubaté, por exemplo, sonegaram aos seus telespectadores qualquer informação sobre os processos a que seu jovem ídolo responde e continuará respondendo. Em 1989, na primeira eleição direta para presidente do Brasil (o páreo foi entre Lula, o peão barbudo, e Collor, o elegante e valente marajá fantasiado de caçador de marajás), o finado proprietário das organizações Globo, Roberto Marinho, deu a ordem a seus jornalistas: "Não criticamos esse jovem!". A mesma ordem parece ressoar ainda nas redações das nossas TVs, concessões de serviço público que deveriam ter a obrigação de informar o público que as sustenta. Por isso Juninho Ortiz, seu pai e todos os implicados no milionário escândalo da FDE e na fraude eleitoral de Taubaté puderam gozar de impunidade até o momento, e hoje o moçoilo agarra com as duas mãos o diploma que teima em lhe escapar, como escapará, mais cedo ou mais tarde.

Os Ortizes podem estar comemorando hoje, cercados dos costumeiros puxa-sacos e sempre disponíveis caçadores de migalhas, candidatos a cargões e carguinhos, prontos a carregar o mandatário nas costas, na hora do triunfo, ainda que precário, assim como a apunhalá-lo pelas costas na hora das vacas magras. É uma festa constrangida, sorrisos de meia-boca, tapinhas cínicos nas costas: todos ali sabem que representam uma farsa, portanto, é preciso tirar logo as vantagens prometidas ou pretendidas porque a farra pode acabar amanhã ou depois. Um baile da Ilha Fiscal, ao qual a população assiste ressabiada: até quando?

Como adverte o advogado Rubens Naves, ex-professor de Teoria Geral do Estado na PUC-SP, perguntado sobre os efeitos gerais do julgamento do tal "mensalão": "Creio que as principais consequências serão maior agilidade e maior pressão para julgar casos de corrupção. Isso já pode ser demonstrado pelo acordo, realizado no início de novembro, entre os presidentes dos tribunais de justiça de todo o país junto ao CNJ (Conselho Nacional de Justiça) para identificar e julgar as ações de improbidade administrativa e as ações penais relacionadas a crimes contra a administração até 31 de dezembro de 2013".
Um Feliz Natal e um 2013 muito produtivos para os taubateanos honestos, especialmente para o valente promotor Antonio Carlos Ozório Nunes e para o digno Juiz Eleitoral Flávio de Oliveira César. Vocês fazem por merecer.

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