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terça-feira, 29 de janeiro de 2013

AUDÁLIO DANTAS: UM JORNALISTA,
UM ESCRITOR, UMA LENDA VIVA

Antonio Barbosa Filho, jornalista

DELFT (Países Baixos) - Creio que Audálio Dantas dispensa apresentações, especialmente aos leitores de Taubaté e do Vale do Paraíba. Aos 80 anos de idade, Audálio tornou-se um símbolo do bom Jornalismo e da coerência intelectual, respeitado por 100% dos seus colegas em todo o país. Aliás, já nos anos 80 ele era quase uma unanimidade, tendo sido eleito presidente da Federação Nacional dos Jornalistas, a primeira entidade nacional de trabalhadores que realizou eleição direta, ou seja, todos os jornalistas sindicalizados do país puderam votar, enquanto outras centrais, federações e confederações ainda elegiam suas diretorias por voto indireto - votavam delegados de cada Estado.

A última obra de Audálio Dantas é sobre o
asassínio do jornalista Vlado  Herzog nos porões
do Doi-Codi, em São Paulo
Nosso amigo Audálio tornou-se um nome destacado no jornalismo ainda nos anos 60 quando, repórter da importante revista O Cruzeiro, encontrou numa favela de São Paulo a moradora Maria Carolina de Jesus, que escrevia seus diários em cadernos e pedaços de papel que recolhia do lixo. O repórter reuniu e editou o material, sem acrescentar nada, e publicou na revista e depois num livro, "Quarto de Despejo", que foi um dos mais vendidos no Brasil à época, e traduzido em 13 idiomas.

Já em 1975, Audálio foi eleito, por apoio espontâneo de seus colegas, presidente do Sindicato dos Jornalistas Profissionais no Estado de São Paulo, até então dominado por pessoas ligadas à ditadura militar. Dando mais dignidade à categoria profissional que representava, coube a Audálio liderar o primeiro enfrentamento mais significativo ao regime militar, quando o jornalista Vlado Herzog foi assassinado nos porões da repressão militar.

O Sindicato tornou-se, naquele momento, o bastião da luta pela Democracia e contra as torturas e assassinatos que vinham se repetindo diante do silêncio medroso da sociedade. Juntaram-se ao movimento figuras hoje históricas como o cardeal Dom Paulo Evaristo Arns, o rabino Henry Sobel, o pastor James Wright, que realizaram um ato ecumênico na Catedral da Sé (cercada por mais de mil bloqueios de ruas) onde oito mil brasileiros disseram um "Basta!" ao terrorismo de Estado.

Em 1978, Audálio foi eleito deputado federal, pelo MDB, apoiado por toda a inteligência brasileira, e sem gastar dinheiro que nunca teve: Chico Buarque de Holanda compôs um "jingle", Henfil desenhou várias tiras e charges, Elis Regina doou parte da renda de seus shows, Osmar Santos o levava aos jogos de futebol para comentar como convidado (única forma de colocar o nome do candidato na mídia), artistas plásticos doaram telas e esculturas para serem leiloadas.

Naquela eleição, Audálio obteve 2.500 votos em Taubaté, o mais votado para deputado federal. Foi vice-líder do PMDB (o MDB foi extinto em 79, quando acabou o bipartidarismo), e todos os anos esteve entre os dez deputados mais atuantes do Congresso Nacional, e o melhor da bancada paulista. Recebeu o Prêmio Kenneth Kaunda de Direitos Humanos, na sede da ONU, em Nova Iorque, ao lado do ex-presidente Jimmy Carter, e da atriz sueca Liv Ülmann.

Em 1982 não conseguiu reeleger-se, já que o campo da esquerda estava agora dividido entre vários nomes daqueles que haviam sido anistiados e tinham recuperado seus direitos políticos em 1979. Mesmo assim, teve em Taubaté 10 mil votos, comprovando o reconhecimento dos taubateanos ao seu excelente trabalho. 
Atualmente, Audálio dirige sua própria empresa de Comunicação, e trabalha em seus livros, dando conferências pelo Brasil. No ano passado, pelos seus 80 anos de vida recebeu homenagens em diversos Estados, começando por Alagoas, sua terra natal.

Pois é este companheiro e amigo que, informado dos fatos dramáticos que Taubaté viveu em 2012, e das ameaças que vem sendo feitas ao trabalho independente do jornalista Irani Gomes de Lima, enviou-lhe, por meu intermédio, uma mensagem de solidariedade. Às vésperas de atender a duas audiências judiciais - Irani está sendo processado pelos dois prefeitos de Taubaté, Ortiz pai e Ortiz filho, o primeiro de fato, e o segundo por direito ainda não firmado - tenho certeza de que esta manifestação do maior líder dos jornalistas brasileiros traz ao Irani um conforto: ele não está sozinho.

A verdade há de prevalecer, ainda que tarde um pouco.

Eis o texto de Audálio para o Irani:

Companheiro Irani

De longa data acompanho o seu trabalho jornalístico, voltado sempre para a defesa da causa pública. Você continua, hoje, mesmo sem o respaldo de veículos de comunicação editados por empresas fortes, a fazer o jornalismo que sempre fez, baseado em princípios éticos, os mesmos que, como professor, incutiu em seus alunos, na Universidade de Taubaté.

Fazer jornalismo num blog, sem ter por trás o respaldo de uma empresa, torna o profissional muito vulnerável, sujeito às pressões do poder econômico e político, quase sempre uma coisa só.

Trata-se de uma batalha árdua, extremamente difícil, mas acredito que, por sua fibra, você dela sairá vitorioso.

Receba o meu abraço solidário.

Audálio Dantas

Para saber mais sobre a trajetória profissional e política de Audálio Dantas, acesse aqui a edição especial de Jornalistas & Companhia.

Esta e outras informações podem ser lidas em nossa fã page.