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segunda-feira, 21 de janeiro de 2013

PINHEIRINHO, UM ANO DEPOIS

Silvio Prado, professor

Dona Carmem Benedita de Jesus, mesmo diante do otimismo da população do Pinheirinho, não acreditou em nenhum momento na trégua de 15 dias assinada entre o presidente do tribunal de Justiça de São Paulo, Ivan Santori, e os deputados Ivan Valente, Carlos Gianazzi e o senador Eduardo Suplicy. A trégua foi assinada no dia 18 de janeiro e propunha para a questão do Pinheirinho uma solução que resolvesse a questão da moradia e dispensasse ações truculentas da polícia militar.

Fiz esta foto no dia 9 de janeiro de 2012: os moradores do Pinheirinho
interditaram parcialmente a rodovia Floriano Rodrigues Pinheiro para
protestar contra a desocupação da área em que moravam em São José
dos Campos. O governador Geraldo Alckmin se dirigia a Campos do Jordão
para assinar a lei que criaria a Região Metropolitana do Vale do Paraíba.
Os protestantes não imaginavam o tamanho da truculência policial
que enfrentariam menos de duas semanas depois, durante a desocupação.
Naquele momento, todos se lembram, um imenso aparato de guerra foi montado pelo governo de São Paulo para arrancar homens, mulheres, crianças, velhos e todos os moradores (mesmo aqueles que estivessem doentes ou fossem deficientes) das rústicas moradias do Pinheirinho. Sabendo da determinação dos moradores, que organizaram um verdadeiro exercito para resistir às investidas da PM, a trégua, se aliviou temporariamente os resistentes, para os interesses de um governo desleal e parcial, caiu como uma luva.

De um lado, os trabalhadores certamente ganhariam fôlego e melhor organizariam sua resistência. Do lado do governo e dos interesses milionários envolvidos na desocupação, o interesse maior era desmobilizar os trabalhadores e, em poucos dias, pegá-los de surpresa com o ataque de um grande e repressivo aparato policial.

No sábado, 21 de janeiro, moradores do Pinheirinho e lideranças populares fizeram uma grande festa comemorando a trégua. Naquele momento, o fato parecia uma vitória dos trabalhadores. Porém, em nenhum minuto, como se viu depois, o Estado abriu mão de efetivar a desocupação de forma violenta.

Afinal, a cobiça em torno daquela área de mais de 1 milhão de metros quadrados não era pequena. Certamente a decisão de arrancar 8 mil pessoas de suas casas fez jorrar dinheiro grosso em muita conta bancária de gente importantíssima de São José dos Campos. Menos de oito horas depois de finalizada a festa, pelo menos dois mil policiais cercaram o Pinheirinho iniciando um dos mais escandalosos massacres contra trabalhadores brasileiros.

A ação da Polícia Militar, sob autorização do governador
Geraldo Alckmin, para desalojar velhos, mulheres e crianças
do Pinheirinho com uma violência jamais vista no Vale
do Paraíba mereceu uma comparação
com as tropas nazistas de Hitler contra os Judeus
Dona Carmem, descrente da trégua comemorada, dormiu na noite de sábado com o peito apertado e amargou um pesadelo horrível: tropas da policia militar entraram e barbarizaram o Pinheirinho. Depois das três da madrugada, por não conseguir mais dormir, ela já estava na cozinha preparando um rápido café. Meia hora antes, a filha havia chegado e já dormia como se nenhuma ameaça pairasse sobre seu descanso. Numa outra cama, o neto de seis anos.

Porém, menos de uma hora depois, uma vizinha, aos gritos, batia em sua porta avisando que a policia cercava o Pinheirinho e já se preparava para o ataque. Quase ao mesmo tempo, ouviram-se explosões de bombas de gás lacrimogêneo, e os insuportáveis efeitos do spray pimenta já começavam a atordoar, inclusive crianças. Pelo céu, numa verdadeira guerra, helicópteros da PM voavam baixinho e, não bastando à barulheira atordoante, despejavam também bombas de gás lacrimogêneo e o insuportável spray de pimenta sobre moradores surpreendidos pelo ataque.

Levada pelo desespero, dona Carmem arrancou o neto da cama e foi com ele na direção da entrada principal da ocupação. Ao seu lado, a filha, desesperada. Um pouco antes da entrada, ao ver as duas mulheres e a criança um policial se aproximou com “uma enorme arma em punho”. Foi o suficiente para pensar que as três não sairiam vivas dali.

Porém, apesar do perigo a mulher deixou a filha e o neto num dos alojamentos da prefeitura e resolveu voltar para dentro do Pinheirinho e defender sua casa. No caminho, topou com uma tropa de choque e não lhe restou outra saída a não ser buscar refúgio numa igreja católica que assiduamente freqüentava. Dona Carmem, se soubesse o que iria encontrar no interior da igreja certamente não teria entrado.

Como se fosse uma estrebaria, o comando da operação determinou que aquele local, construído para reverenciar o sagrado, fosse reservado para servir de abrigo a inúmeros cavalos da tropa de choque e também abrigo de cães da PM especializados na repressão ao movimento popular. No Pinheirinho, o estado, através da insanidade do comando da PM, fez mais um absurdo e inaceitável ato: invadiu e transformou um templo religioso em afrontosa estrebaria. A igreja, que já na segunda-feira seria demolida, tinha muitas de suas imagens quebradas e espalhadas pelo chão.

Mas o pavor vivido por dona Carmem não parou por ai. Pelo alto, o tormento desconcertante trazido pelos helicópteros voando cada vez mais baixo. Em cada viela, dúzias de policiais apontando armas e fazendo uma barulheira danada batendo com os cassetetes em seus escudos e invadindo residências. Provocar medo, pavor, e com esse medo e pavor provocados expulsar cada morador de sua casa era o objetivo do choque da policia. Por isso, dona Carmem acabou sozinha diante de sua casa e também diante de dois policiais.

Diante deles e da casa, antes de pensar em si mesma, a mulher teve que implorar para que não matassem o cão de estimação de seu neto. O animal, exposto à química das bombas, estava enraivecido e tentava de qualquer jeito escapar da corrente que o prendia quase a entrada da residência. Foi um custo evitar sua execução. Quando um dos policiais guardou a arma, dona Carmem ficou aliviada. Mas o alívio durou pouco.

Que alívio pode ter um indefeso que vê, sem poder esboçar reação, policiais invadindo sua residência e revirando o armário, o guarda roupa, olhando embaixo da cama, deixando tudo desarrumado e, depois, acintosamente ordenando”pega seus documentos, fecha a casa e sai”? Dona Carmem, sob o impacto da ordem e do medo, pegou documentos, fechou a casa e saiu. Ir pra onde, pensou?

“Os polícia tudo assim, parecia o demônio, sabe, não parecia gente. Parecia o demônio, por Deus do céu! Parecia que tava tudo drogado, endemonhado assim, sabe?” Foi essa certeza que desconcertou dona Carmem e a fez cair na cilada de procurar refúgio e segurança num alojamento montado pela prefeitura. Lá, ela encontrou-se novamente com aq ueles que ela chamou de demônio, drogado, “endemonhado”, outra vez atirando balas de borracha, bombas de todo tipo, infernizando a vida de quem na segunda-feira teria de assistir a demolição de suas casas.

Passado agora um ano, mesmo que quisesse esquecer, a mulher não conseguiria dos fatos do dia 22 de janeiro de 2012. Seu neto de apenas seis anos, impactado pela tragédia, nos últimos meses deu de sair desenhando em qualquer folha que encontra cenas que presenciou na brutalidade cometida no Pinheirinho. Estão lá em seus desenhos a população correndo da policia, máquinas enormes derrubando residências (inclusive sua própria casa), helicópteros jogando bomba sobre o povo... Como as demais crianças expulsas de sua residência, o menino não se adapta ao cômodo de fundo de quintal arrumado para abrigar sua família. Não há espaço para nada, nem para andar de bicicleta. E ele, a toda hora, pede para voltar ao Pinheirinho.

Enfim, o pesadelo montado pela juíza Márcia Loureiro, associada ao prefeito Cury e ao governador Geraldo Alckmin, muito bem referendados pelo sistema imobiliário e pelo Tribunal de Justiça de São Paulo, continua trazendo danos aos massacrados de 22 de janeiro de 2012. São José dos Campos, hoje, vergonhosamente, comporta pessoas levando vida semelhante aos milhares de refugiados das guerras civis que ensanguentam a África.

Porém, diferentemente da África e sua miséria extremada, São José dos Campos é um dos maiores centros de produção de tecnologia e riquezas no Brasil. Mas de que adiantam tecnologia e riqueza se uma elite criminosa, se apossando e manipulando o Estado, declara guerra contra gente indefesa e cria levas de refugiados como dona Carmem?

Esta e outras informações podem ser lidas em nossa fã page.