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quinta-feira, 28 de fevereiro de 2013

UMA CRISE PRODUZIDA

Silvio Prado, professor

Talvez o gesto público mais duro de todo o pontificado de João Paulo II tenha se dado no aeroporto de Manágua em 1983, quando o papa visitou a Nicarágua. O padre jesuíta Ernesto Cardenal, intelectual e poeta respeitadíssimo naquele país, fazia parte da comitiva oficial que recepcionaria o sumo pontífice já no aeroporto. Após o desembarque do papa, Cardenal, respeitosamente, ajoelhou-se diante dele no intuito de beijar-lhe a mão, explicitando assim a sua condição de servo da Igreja submisso e obediente ao seu mandatário maior.

No entanto, propositalmente, João Paulo, ignorou e passou como um foguete pelo jesuíta, que por certo sofreu a maior humilhação pública de sua vida. A imagem de Cardenal, ajoelhado no aeroporto de Manágua e ignorado pelo papa, é a imagem que mais se aproxima do que a cúpula do Vaticano, a partir da década de 80, fez com a igreja da América Latina e os seguidores da chamada Teologia da Libertação.

Os fatos descritos acima são parte dos relatos que o sociólogo e professor Emir Sader fez da visita do papa em 1983 na Nicarágua, pequeno e frágil país da América Central  sofrendo naquele momento o cerco brutal da administração Ronaldo Reagan. Os Estados Unidos declararam guerra aos nicaragüenses e ao projeto revolucionário sandinista. Reagan fez o diabo para destroçar o sandinismo e gastou fortunas treinando em Honduras um exercito contra revolucionário que pudesse minar a revolução nicaragüense.

De fato, o cerco norte-americano, depois de muitas mortes e atrocidades minou a Nicarágua, que até hoje apresenta um dos maiores níveis de miséria na América Latina. A Igreja Católica através de sua cúpula, aliada incondicional do violentíssimo governo Reagan, desempenhou friamente o seu papel nesse crime.

O que João Paulo II fez na Nicarágua não foi um fato isolado. Nas quase três décadas de pontificado, ele voltou as baterias do Vaticano contra a igreja popular do continente e contra tudo o que foi considerado como desvio do catolicismo. Não perdoou ninguém. Leonardo Boff, talvez a cabeça mais brilhante da Teologia da Libertação, só teve paz quando resolveu sair fora da Igreja.  João Paulo exigiu dele o tal silêncio obsequioso, censurou seus livros e o proibiu de escrever, publicar ou lecionar qualquer coisa que fosse teologia.

D.Helder Câmara, referência obrigatória do catolicismo no século XX passou pelo constrangimento de ser aposentado e substituído por um bispo reacionário. Sua obra pastoral no Recife foi desmontada e desqualificada. O seminário e o Instituto Teológico do Recife, fundados por ele, foram fechados. Também D. Pedro Casaldaliga, cercado por fazendeiros assassinos e vivendo sob inúmeras ameaças de morte em S. Felix do Araguaia, recebeu advertências e, adepto da Teologia da Libertação, foi considerado por gente do Vaticano como um guerrilheiro socialista.

No México, na região de  Chiapas, durante os anos 90, o bispo de São Cristobal de Las Casas viveu sob sanções pelo fato de ter compromisso com as reivindicações dos massacrados índios da região. Enfim, no Brasil e em toda a América Latina, a chamada igreja popular foi perseguida, mesmo que essa igreja tenha produzido mártires como o bispo Oscar Romero, de El Salvador, assassinado no altar no momento em que celebrava. O assassinato de D. Oscar e outros religiosos não mudou em nada a política do Vaticano para a região.

O papado de João Paulo II parece nunca ter se dado bem com as resoluções do Concilio Vaticano II e jamais engoliu a chamada opção preferencial pelos pobres. Tudo que fugia ao modelo esclerosado do catolicismo europeu precisava ser combatido. Essa ofensiva do papa teve a  participação especialíssima do teólogo alemão Josef Ratinzger.  Desde 1981,  como prefeito da Sagrada Congregação da Doutrina da Fé (nome atual da terrivel Inquisição), e depois diretamente como Bento XVI, Ratinzger deu sequência ao trucidamento da esquerda da igreja e as opções religiosas de caráter popular.

Como o papa anterior, ele se desfez da opção preferencial pelos pobres e foi viver cercado pelos notáveis da Opus Dei, Legionários, Comunhão e Libertação, poderosíssimos grupos influentes no Vaticano que, como verdadeiras máfias, travam qualquer tentativa de saneamento da Igreja. Diante dessa gente, o papa reina mas não governa. Não tem força para combater a pedofilia, muito menos para sanar as finanças do Vaticano e nem deixá-las longe das práticas comuns do crime organizado internacional.

Agora, com a renúncia, Bento XVI escancarou uma crise que iguala a Igreja Católica a qualquer organismo humano sujeito a erros, mostrando uma cúpula mergulhada em privilégios e divorciada das agruras do homem comum.  Parte da crise, ou fruto dela, são os quase 120 cardeais que escolherão o novo papa, nenhum deles portando perfil que destoe do conservadorismo imposto nas últimas décadas. Nenhum deles tem uma história próxima a de D. Paulo Evaristo Arns, Helder Câmara ou Pedro Casaldaliga. Nem de longe possuem a sombra de Oscar Romero. São extremamente bem comportados diante das necessidades reais da humanidade e estão mais preocupados com o crescimento quantitativo da Igreja do que transformá-la em instrumento que possa realmente servir aos homens, principalmente os indefesos.

Certamente se a mão de ferro do  Vaticano não tivesse sido  posta sobre a igreja popular, hoje o catolicismo poderia ter referências que pudessem significar mudanças de fato. O conservadorismo não seria gritante e o distanciamento das questões urgentes da humanidade seria menor. Com certeza a pedofilia receberia outro tratamento e o banco do Vaticano não seria depositário de fortunas vindas do crime organizado. Enfim, a crise exposta pela Igreja Católica, como toda crise, foi construída.
A da Igreja Católica foi construída a partir da decisão política de isolar descontentes, exterminar diferenças, punir divergentes, ou expulsar todo aquele que desaprendeu a dizer amém aos que vivem cobertos de erros, mas acham correto e natural se apresentar como infalíveis.

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