Páginas

segunda-feira, 18 de março de 2013

A FALTA QUE FAZ A RÁDIO CACIQUE

Silvio Prado, professor

Qual a importância do caótico trânsito da cidade de São Paulo para um morador de Lagoinha ou Natividade da Serra, e mesmo de Taubaté, precisamente entre sete e oito da noite? Nesse horário, qual dos moradores dessas cidades caminha na direção do Metrô ou corre o risco de ficar entalado com seu carro no trânsito da Rebouças ou São João? A resposta é obvia: nenhum.

Mesmo assim, a Joven Pan, que tercerizou a antiga Rádio Cacique de Taubaté, na sua luta contra o horário da A Voz do Brasil, vive argumentando que seus ouvintes, devido a retransmissão desse programa oficial ficam, entre sete e oito da noite, sem as informações necessárias sobre o trânsito paulistano. Por isso, ela pede, como outras emissoras de rádio a flexibilização do horário de transmissão da A Voz do Brasil.

Aqui em Taubaté, ou Lagoinha e Redenção, onde a Pan é ouvida via antiga Rádio Cacique, as informações sobre o trânsito de São Paulo não tem importância nenhuma. Como se trata de uma rede que alcança mais de 100 emissoras e fala para mais de 20 milhões de ouvintes, dá para supor situações absurdas geradas pela formação de grandes redes de rádio cobrindo o Brasil inteiro e retransmitindo uma programação feita centenas de quilômetros longe do ouvinte, como acontece com a Joven Pan e tantas outras redes de rádio formadas a partir das grandes cidades brasileiras.

Por exemplo, é um absurdo, senão um crime cultural, que nos fundões da Amazônia um anônimo seringueiro ao invés de ter nos ouvidos notícias de interesse regional, entre sete e oito da noite, ou mesmo durante o dia inteiro, tenha que ficar matutando abstratamente sobre notícias específicas do trânsito ou de qualquer outro problema específico de São Paulo. Será que uma emissora regional, com uma programação que contemple os interesses locais não seria muito mais interessante para as populações interioranas? Não se trata de deixar de lado a cena nacional ou internacional, importantíssimas. Porém...

Mesmo considerando o bom jornalismo e os programas diários da Jovem Pan, em Taubaté estamos sofrendo grande prejuízo com a terceirização do espaço radiofônico da antiga Cacique. Nesse momento crucial, quanto mais informação houver sobre a cidade, melhor para todos. Porém, como é possível mais informação sobre a cidade se a programação daquela que foi a nossa segunda mais importante rádio AM é produzida em alguma redação da distante Avenida Paulista?
Só mesmo interesses empresariais justificam uma emissora local fazendo o papel de simples retransmissora, vinte e quatro horas por dia, sem nenhuma inserção nos problemas locais, com exceção de raros minutos diários de um jornalismo que não passa de repetição de manchetes obvias extraída de outros órgãos de imprensa.

O exemplo Pan/Cacique é o modelo implantado em todo o país, passando por cima de especificidades regionais, ignorando questões culturais, sociais, mas sempre de olho unicamente no faturamento empresarial. A terceirização da Cacique empregou quantos jornalistas em Taubaté? Uma emissora que no passado teve uma programação que incluía inúmeros locutores, técnicos de som e até programas de auditório, qual é o seu corpo de funcionários hoje? Não se pode esquecer que emissoras de rádio são concessões públicas e, portanto, não podem se restringir tão somente ao interesses meramente ditados pelo mercado, como hoje acontece com a antiga Rádio Cacique.

As distorções do modelo Joven Pan/Cacique só reforçam a necessidade de uma lei de médios que de fato democratize os meios de comunicação brasileiros. Num país marcado por um analfabetismo crônico e necessitando de informação de qualidade que ajude a vencer nosso atraso cultural, não dá para admitir mais a concentração dos meios de comunicação em tão poucas mãos. Concentração com qual finalidade: faturar sobre a ignorância da população, não informando e enchendo a cabeça de todos com uma programação, principalmente musical, que apenas imbeciliza.

Já passou da hora de moralizar e democratizar os meios de comunicação, doa a quem doer!