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sábado, 23 de março de 2013

O XADREZ DA POLÍTICA

Celso Brum, professor e sociólogo
(Texto publicado originalmente pelo Diário de Taubaté)

Joguei xadrez, quando jovem. A bem da verdade, conhecia as regras do jogo, estava longe de ser um jogador. Não é fácil tornar-se um razoável jogador de xadrez. São várias as peças do jogo: peões ou soldados, torres, bispos, cavalos, o rei e a rainha. O rei é a peça mais importante, embora com movimentos limitados. A rainha é a mais poderosa, com amplos movimentos. O movimento que encerra a partida é o xeque-mate ao rei. Antes disso, cada jogador, procura atingir o rei contrário e defender o seu rei.

O grande jogador de xadrez é aquele estudioso que conhece os milhares de movimentos possíveis e, assim, é capaz de antecipar as jogadas do adversário: então, defende-se bem e ataca com eficiência.

Penso que a política pode ser relacionada com o jogo de xadrez, embora as suas regras nem de longe, sejam tão estáveis, nobres e previsíveis.

Estamos longe das eleições de 2014, mas, no tabuleiro da política, os movimentos são intensos. Recentemente, Marina Silva fez o anúncio do seu novo partido, inicialmente chamado Rede Sustentabilidade. Teve todo o respaldo da “grande imprensa”, que faz de tudo para derrubar o governo do PT. Certamente, Marina esperava um formidável movimento de adesão, fortalecendo o novo partido. Foi muito barulho por nada. O movimento de Marina caiu no vazio. Um bom jogador de xadrez, travestido em analista político, seria capaz de antecipar esse resultado. Marina Silva e a “grande imprensa” ainda não conseguiram enxergar que ela não é detentora daqueles 20 milhões de votos da eleição de 2010. Aquilo foi resultado de uma intensa campanha de desconstrução da Dilma Rousseff e nunca mais se repetirá.  Se Marina for candidata a presidente, em 2014, dificilmente chegará a dois dígitos percentuais.

O noticiário, dos últimos dias afirma que Roberto Freire, o coveiro do PPS (antigo PCB, o “Partidão”, de memorável e respeitável passado) prepara o seu movimento e, como é contra o governo do PT, terá ampla cobertura da “grande imprensa”: haverá a fusão do PPS com um pequeno partido (provavelmente o PMN) com os mesmos objetivos da Rede da Marina Silva, ou seja, para poder receber os desacomodados de outros partidos. Se isto acontecer, o PPS estará vitaminado e fortalecido, para as próximas eleições.

Naturalmente, os meus caros, raros, fieis e inteligentes leitores estão interessados em saber o que pode acontecer, com a jogada do coveiro do PPS. Posso antecipar: não vai acontecer nada de importante. É quase impossível que um grande nome da política brasileira vá querer associar-se ao PPS, condenado à extinção, mais hoje mais amanhã, graças aos movimentos insensatos do seu coveiro, Roberto Freire.

A “grande imprensa”, que sabemos não ser isenta e, portanto, confiável, tem afirmado que Eduardo Campos, do PSB, está preparando a sua candidatura a presidente, em 2014. Como Marina, Aécio Neves, José Serra e tantos outros, Eduardo Campos tem todo o direito de ser candidato. Ainda mais ele, que tem o legado histórico de seu avô, o grande Miguel Arraes. E, desde que – fiel às suas raízes e fiel às ideias e ideais de seu avô, mantenha-se longe da contaminação da perniciosa e antipatriótica da direita reacionária brasileira – sempre merecerá o meu respeito.

No entanto, não creio que Eduardo Campos seja candidato em 2014. Também, para a surpresa de muitos, não creio que o Aécio Neves seja o candidato, do PSDB. Ambos irão preservar-se para 2018. Eduardo Campos apoiará Dilma e o inefável José Serra acrescentará mais uma derrota em seu currículo. É também muito provável que Marina Silva seja candidata ao Senado ou ao governo do Acre e a candidata da Rede a presidente da República poderá ser Heloísa Helena.

E, segundo os dados da última pesquisa do IBOPE, divulgada nesta semana (63% de aprovação ao seu governo e 79% de aprovação pessoal) Dilma Rousseff pode assistir, atenta e atuante, aos movimentos dos seus adversários. Tudo indica que Dilma Rousseff vai ganhar, e ganhar bem, a eleição presidencial de 2014. Só uma sucessão de grandes desgraças poderá evitar sua vitória: desemprego em massa, inflação altíssima, paralisia total do parque industrial e coisas desse tipo. Ou seja, a vitória da oposição só acontecerá se o Brasil for “para o vinagre” e o povo brasileiro “se ferrar”. A “grande imprensa” torce muito para que isto aconteça.

Ah, ia esquecendo de dizer que uma invasão alienígena (a tomada do Brasil pelos marcianos) também pode causar a derrota de Dilma Rousseff. Isto não acontecendo....

No mais, podemos aguardar uma mitigada reforma política, antes de 2014. Provavelmente, serão eliminadas as coligações partidárias para as eleições proporcionais. Isso passou a ser do interesse até do PSDB, para conter a celeridade do seu inevitável declínio. Trata-se de uma medida importantíssima para a política brasileira, pois, em duas ou três eleições gerais, reduzirá radicalmente o número de partidos com representação no Congresso, o que será muito bom para governabilidade do país.

No xadrez da política, 2014 é fundamental. Quem viver, verá.