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sábado, 16 de março de 2013

OS DESAFIOS DO NOVO PAPA

Celso Brum, sociólogo e professor

Vivemos num tempo de falta de fé, digo, da fé mística, transcendental. Para a maioria das pessoas, o que existe é uma religiosidade residual, neste mundo tomado pela tecnologia e pelo conhecimento científico. Como é muito mais fácil acreditar naquilo que enxergamos e podemos tocar e operar, a experiência religiosa fica em 2º plano, para os momentos de desespero ou para as raras práticas meramente rituais.

Desde o alvorecer da humanidade, os homens pretenderam entender o sentido da vida. A crença num criador de todas as coisas (o Princípio) sempre pareceu óbvia e lógica. As religiões procuraram sempre estabelecer a explicação e a sequência dos acontecimentos, além das formas de estar em consonância com o Criador e seus profetas. No entanto, as religiões gradativamente foram perdendo o seu espaço nos corações dos homens e foram sendo suplantadas pelos acontecimentos. Na prática, o homem moderno precisa mais da tecnologia (ou seja, dos objetos que lhe dão a sensação de conforto e bem-estar) e da ciência (cujo desenvolvimento tem o condão de curar suas dores e prolongar sua vida) do que da religião. Ainda mais que a religião tem essas normas e regras tão contrárias ao hedonismo predominante. A vida, segundo as religiões (maioria delas) deve ser fundamentada no sacrifício, para a obtenção de um bem maior que está na eternidade. Vamos convir, não é fácil ser religioso em nossos dias.

Assim, a atual crise em que se encontra a Igreja Católica, não é só dela, é uma crise da humanidade. E não começou agora.

Quando Michelangelo fez aquela obra de arte imperecível que é a Capela Sistina, ele pintou a criação do homem, colocando Deus dentro de um cérebro humano. E o rosto de Deus é exatamente o mesmo rosto de Moisés, na estátua que também esculpiu. A mensagem, que provavelmente pretendeu passar, é bem peculiar de quem não aceitava pacíficamente as verdades da fé cristã-judaica.

A crise da fé vem de longe, mas, recentemente, no século 20, o existencialismo tornou-se fonte de uma nova visão da vida, que deve ser vivida segundo padrões avessos à qualquer religião.

Para os existencialistas de hoje em dia (entre eles, maioria de “religiosos de estatística”) a religião perdeu o sentido e, quando muito, as práticas religiosas são eventuais. As igrejas vão ficando vazias e, nem por isso, as pessoas são mais felizes, longe da religião.

Particularmente, a Igreja Católica vem perdendo fieis e seu poder – ainda muito grande – vem sendo abalado, em nosso tempo. Suas crises estão expostas pela mídia, implacavelmente. A inesperada e extraordinária renúncia do papa Bento XVI está sendo interpretada como resultado dessas crises.

Dentre as crises da Igreja Católica, uma é crucial: a definição (e a ação posterior) da sua pedagogia. Desde que, doutrinariamente, os objetos maiores estão determinados pelas palavras de Jesus Cristo.

O Concílio Vaticano II, convocado pelo papa João XXIII, produziu uma grande abertura da Igreja Católica. Do que resultou a Teologia da Libertação, uma “modernidade” que ganhou adeptos entusiastas e motivou o surgimento das comunidades eclesiais de base, aqui no Brasil. Os papas João Paulo II e Bento XVI não tiveram apreço (muito pelo contrário) pela Teologia da Libertação e, para a nomeação de bispos, arcebispos e cardeais, trataram de escolher clérigos mais tradicionalistas. Ao que se sabe, o perfil dos bispos, arcebispos e cardeais, no mundo inteiro, não é diferente. É notório que a Igreja Católica está mais tradicionalista.

Os milagres saíram de moda, há muito tempo, é o que dizem os que não tem fé. Mas, com certeza, a Igreja Católica precisa de um milagre: ela precisa de um novo João XXIII.

(O texto, até aqui, escrevi no dia 07, ou seja, na 5ª feira passada. O que segue, escrevo agora, dia 14, quando todos sabemos quem é o novo papa.)

O cardeal argentino Jorge Mario Bergoglio é o novo Papa Francisco. Ao escolher o nome Francisco, é muito provável que o novo papa tenha dado um claro recado ao católicos em geral e, em particular, aos clérigos da Igreja Católica.

Conta-se, da vida de São Francisco de Assis, que o jovem Francisco escutou a voz de Jesus, dizendo-lhe para reformar sua igreja. Em princípio, ele pensou ser a reforma dos templos em ruínas, mas, Jesus esclareceu que era uma reforma interior, das práticas do catolicismo de então.

Nesse momento de crise da Igreja Católica, com tantas revelações depreciativas, com a perda de fieis e, principalmente, com a perda da fé, é preciso correr o risco de estabelecer reformas no interior da cristandade.

Que ninguém espere alterações de conteúdo moral (sobre aborto, união homossexual, uso de preservativos, por exemplo). Também não acredito que, para atrair os jovens, haja uma revivescência da Teologia da Libertação e das comunidades eclesiais de base.

As reformas possíveis serão, a meu ver, o incremento da catequese e uma rigorosa melhoria na formação dos padres, ou seja, os seminários e demais instituições formadoras dos clérigos terão que passar por uma dramática adaptação às novas necessidade da Igreja e dos fieis. Umas outra novidade, talvez, nos próximos anos, será a possibilidade de ordenação de homens casados, para auxiliar os padres celibatários. É possível, também, que o Papa Francisco oriente os clérigos a não se deixar envolver pelas atividades meramente burocráticas.

No mais, para os católicos, este é um momento de esperança renovada. O Papa Francisco pareceu-nos simples e informal. Rezou e pediu orações. Nada poderia ser mais sábio.