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sábado, 30 de março de 2013

TORTURADO E MORTO, JESUS

Silvio Prado, professor

Pela noite de quinta-feira, Jesus foi mesmo entregue por um dos seus. Do Gtsamani, entre soldados, ele saiu arrastado e acabou ficando frente a frente com Pilatos. Não deu outra. Pilatos, inutilmente, tentou lavar a sujeira das mãos e deu carta branca para que o inferno incrustrado na mente doentia dos torturadores escapasse pelas mãos truculentas do poder.

Madrugada adentro, Jesus comeu o pão vomitado pelo ódio da elite religiosa de seu próprio povo. Como se estivesse nos porões do Dops, sob as mãos do delegado Fleury, em plena ditadura militar brasileira, ou como se estivesse em alguma delegacia brasileira em qualquer momento de nossa história, Jesus foi esbofeteado, chutado. Sua cabeça foi rasgada por uma espinhenta coroa. O rosto, cuspido.

Depois outro judeu, Vladimir Herzog, nos porões do Segundo Exército, em São Paulo, estraçalhado e morto pela ditadura. Depois pelas ruas, com uma cruz sobre as costas, ele foi arrastado, como foi arrastado pelas ruas do Recife, em 64, Gregório Bezerra, militante comunista das Ligas Camponesas, amarrado por uma corda a um jipe do Exército, já com os hematomas provocados pelos muitos chutes que recebera nos testículos, bexiga arrebentada, o que o fará urinar sangue por quase trinta dias.

Os carrascos de Jesus, em nome do fundamentalismo judeu e dos interesses imperialistas romanos, barbarizaram o corpo de Jesus exercitando sobre ele inúmeras técnicas de dor e morte, muitas até hoje praticadas por órgãos de segurança e ensinadas como matéria obrigatória em academias militares.

Sob tanta tortura, o que se esperava de Jesus é que ele negasse tudo o que havia pregado, ensinado e feito nos últimos três anos em que viveu diuturnamente misturado ao povo. Não houve negação de nada e nenhuma palavra dita que contrariasse tudo o que dissera antes. Nenhum gesto nem sinal. Jesus foi tão integro na sua pregação quanto também, na pior hora de sua vida, no silêncio afirmativo das coisas que disse e fez.

Só quem já viu um preso torturado e chorando sua humilhação e dor no corredor de uma delegacia, aguardando temeroso por outra porrada covarde, pode imaginar a noite de quinta e a madrugada da sexta-feira suportada por Jesus. Por mais fértil que seja a imaginação dos criadores de ficção, ela não alcançará jamais as dimensões do real que o terror da tortura provoca no corpo e na alma humana, mesmo em pessoas determinadamente fortes e decididas.

Por isso, não deve haver grito mais agudo e dilacerado, cortando o silêncio de alguma noite, que o grito dos torturados, sob total abandono e tragados pelas violentíssimas forças do inferno encarnadas em homens que, em nome da ordem e do poder estabelecido, torturam.

Jesus, na cruz, na hora extrema de sua dor, deixou escapar um grito derradeiro e igualmente revelador de todo o seu desespero, o que serve como medida incomparável do imenso sofrimento de um homem violentado, mesmo que ele tivesse a estatura moral de uma pessoa como o Nazareno.

“Meu Pai, meu Pai, por que me desamparaste?” Diante da frase final de Jesus, a tortura, metaforicamente falando, parece ser uma espécie de abandono total de Deus, tanto sobre aquele que sofre, ou sobre aquele que prática essa coisa abjeta, considerada hoje crime imprescritível.

Diante dos absurdos que os órgãos de repressão romanos impuseram sobre o filho de Mária e José, a sexta-feira, entendida como santa pela Igreja Católica, não deveria ser apenas o momento de recordar a dor, os gritos e a morte de seu fundador, depois de intensa e criminosa sessão de espancamento.

A Sexta-Feira Santa deveria também ser o dia em que a humanidade, olhando objetivamente para este que também se disse Deus, entendesse e visse que as práticas que há dois mil anos atrás lhe arrancaram a vida são coisas comuns ainda hoje.

Jesus, conforme os Evangelhos venceu suas imensas dores, superou a morte e alcançou as glorias do céu. Já os torturados e matados de muitas partes do mundo e também do Brasil, principalmente os da ditadura militar, continuam ainda proibidos de qualquer ressurreição: permanecem desaparecidos, mortos, sepultados em arquivos e impedidos de qualquer abertura.

Até quando?