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domingo, 21 de abril de 2013

AS NÚVENS

Celso Brum, professor e sociólogo

A frase é atribuída a Magalhães Pinto, mas, pode ser de um outro político mineiro, José Maria Alkmin: “A política é como as nuvens. Você olha, elas estão de um jeito. Você olha outra vez e elas estão de outro jeito”. É a quintessência da obviedade e virou chavão da política nacional. O que essa frase já foi pronunciada é uma grandeza, não há político que não a tenha citado. Mas, a frase não deixa de ter sentido.

Uma das delícias de um comentarista da política é fazer previsões. Outra, é interpretar os fatos. Nas previsões, como nas interpretações, é grande a margem dos erros, no entanto, arriscar é preciso.

Disse, em um dos meus últimos comentários, que a grande batalha eleitoral de 2014 será travada no estado de São Paulo. Isto, partindo-se do princípio de que, na eleição presidencial, o favoritismo de Dilma Rousseff é muito grande. Assim, em São Paulo, é que se dará a batalha decisiva para a afirmação do PT ou para a sobrevivência do PSDB. E quando digo “afirmação do PT”, é bom acrescentar, no estado de São Paulo, o estado mais conservador do Brasil.

Na semana passada, em Guaratinguetá, numa reunião de representantes do PSD, do Vale do Paraíba, Gilberto Kassab anunciou que vai ser candidato a governador. Não é uma novidade absolutamente transcendental, porque isso já estava sendo colocado como possibilidade. É que, com sua declaração, Kassab transforma a possibilidade em fato. E um fato que altera o que estava posto, até então.

A candidatura de Gilberto Kassab vai navegar nas águas da direita, onde já navega Geraldo Alckmin. Se Paulo Skaf for candidato a governador, pelo PMDB, o que pode acontecer, os votos da direita serão distribuídos entre eles. Sem contar que Celso Russomano também poderá aventurar-se na disputa pelo voto do conservadorismo paulista. Vamos convir, é muito machado para um mesmo arvoredo.

Enquanto isso, no campo da esquerda, (sem contar os candidatos do PCO, PSTU e PSOL, sem chances) estará o candidato do PT. Pode-se ter certeza de que haverá um 2º turno e, no 2º turno, o candidato petista estará presente.

Com os prováveis candidatos, que disputarão os votos da direita (Kassab, Alckmin, Skaf e Russomano) quem estará no 2º turno? Embora muito desgastado, especialmente na cidade de São Paulo, Geraldo Alckmin ainda tem uma grande força no interior do estado, que gosta do seu estilo cool e clean.  Não vai ser batido com facilidade, mas, com certeza, será a batalha mais difícil em toda a sua vida. Num possível 2º turno, contra o candidato do PT, Alckmin não conseguiria o apoio de Kassab, nem de Skaf, ou seja, não teria vida fácil. Mais do que isso, o PSDB paulista tem graves divisões internas e José Serra tenderia a apoiar Kassab, no 1º turno, e a omitir-se, no 2º turno, caso Alckmin seja o candidato disputando a eleição.

Quanto à eleição presidencial, Kassab e Skaf, além do candidato do PT a governador, todos apoiariam Dilma Rousseff, enquanto Alckmin estaria com a candidatura perdedora do PSDB e isso, certamente, não seria bom para a sua saúde eleitoral, diga-se passagem.

Como disse, linhas atrás, o estado de São Paulo é conservador, portanto, não será fácil a vitória do PT. Ajudará enormemente a eleição do candidato do PT, o desempenho de Fernando Haddad na prefeitura de São Paulo.

Posso dizer, com absoluta segurança, que ele será cobrado com todo o rigor possível, já que ele é do PT. Então, para que o seu desempenho seja bem avaliado, precisa ser muito ótimo, muitíssimo excelente e muitíssississimo magnífico, nada menos. Qualquer erro e qualquer derrapada serão explorados impiedosamente pela grande imprensa. Portanto, ele não pode errar. Em 100 metas, se ele cumprir 98, serão ressaltadas e divulgadas as 2 que faltaram, nada menos.

Na pesquisa datafolha, publicada no último dia 10, Haddad teve 31% (ótimo e bom) de aprovação. Em período semelhante (os primeiros 100 dias de administração) os prefeitos anteriores, Serra e Kassab, tiveram, respectivamente, 16% e 20%. Considerando-se que Haddad teve 42% de consideração regular, pode-se entender que o seu desempenho é muito promissor. Isso estabelece boas perspectivas para o candidato do PT, ao governo do estado de São Paulo.

Mas, como a política é como as nuvens...