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quinta-feira, 18 de abril de 2013

O QUARTO ISCARIOTES

Silvio Prado, professor

Se deixasse, o pai ficaria o dia inteiro sentado na cadeira destinada ao filho. Este, por sua vez nunca pensou que um dia fosse passar por constrangimentos desse tipo, ou seja, chegar pela manhã no gabinete e encontrar lá o velho pai, muito bem acomodado na cadeira de mandatário.

Todo dia era a mesmíssima coisa: o velho lá, solenemente sentado, compenetrado, mexendo e remexendo nos papeis que só ele, o filho, legalmente poderia mexer e remexer. Não adiantava nada falar que não era certo e nem correto, que não pegava bem e que os adversários poderiam usar maldosamente aquele fato e lhe trazer prejuízos políticos.

O pai, apesar de ser o seu herói favorito e inspirador de muitos de seus gestos, era um cabeça dura incomparável e tinha uma sede de poder também incomparável. O filho, ninguém negava, cada vez mais se assemelhava a uma cópia muito bem feita do pai: a mesma sede de poder, a mesma mão dura escrevendo decretos fulminantes ou golpeando quem atravessasse seu caminho.

Porém,o pai ignorava os temores do filho e só abandonava o posto, ou seja, a cadeira de mandatário, quando não tinha mais jeito e o constrangimento prometia ficar grande.

“Olha velho”,  dizia o filho, “faz pra mim o seguinte: dá hoje uma passadinha por alguns postos de saúde pra ver se essa gente vagabunda tá mesmo trabalhando.” Ou: “sabe aquele problema da tubulação que desmoronou? Então, dá um pulinho até lá pra ver se tão reparando e fazendo a coisa certa”.

Enfim, todo dia o filho inventava um e outro servicinho para o velho pois, com urgência, precisava vê-lo longe da principal cadeira da cidade. Já estava dando nos nervos ver o seu lugar preferido ocupado por outro, mesmo que esse outro fosse seu amado e querido pai. Pouco importava que o velho cometesse excessos costumeiros ou já fosse flagrado dando sermão indevido em funcionários de repartições onde inesperadamente, como um fantasma, parecia atravessar paredes ou surgir do fundo de um cesto de lixo qualquer. De fato, o pai não tinha autoridade legal para fazer o que andava ultimamente fazendo. Mas que fazer se ele era o poderoso homem de sempre, pai amado e eleitor principal do novo prefeito?

Mas, infelizmente, era preciso tirá-lo, todo dia e sempre, das imediações da cadeira principal da cidade. Para o vereador que denunciou as ingerências do velho nos negócios públicos, o filho estava se lixando. Ora, se não posso contar ao menos com minha família, com quem mais vou contar?

Enfim, passavam-se os dias, semanas, meses, e a disputa pela tal cadeira continuava. Um dia, diante de notícias desastradas e erros grosseiros de sua assessoria, o filho estava com os nervos escapando pelos poros e levou quase meia hora para convencer o pai sobre a necessidade de desocupar sua cadeira. “Pai, daqui a pouco chega uns empresários coreanos, sabe?” E nada do velho se mexer na cadeira. A paciência estava no limite e, por um triz, quase que a reunião com os coreanos se transforma num desastre pois apenas minutos antes da chegada do grupo o pai, resolvendo ir ao sanitário, abandonou a tão disputada cadeira.

Para o filho foi duro decidir, mas, no final do expediente, ele deu ordens para os assessores e também para o segurança do gabinete: “a partir de hoje, ninguém entra mais aqui se eu não estiver presente”. “Nem seu pai”, perguntaram. “Nem papai”, respondeu. Porém, na manhã seguinte ele viu que de nada valeu a ordem dada. O pai, tranquilamente, remexendo numa montanha de papeis, estava lá. No lugar de sempre.

Por isso, no final do expediente, o filho tomou uma atitude radical: chamou um chaveiro e rapidamente trocou a chave da porta do gabinete. Na manhã seguinte, o impossível aconteceu: o pau quebrou feio entre pai e filho, seguranças e assessores tiveram até que intervir separando um e outro. Por sorte, ninguém da imprensa viu e nem ouviu discussão tão calorosa, ou seja, “extremamente amorosa”, entre pai e filho.

À tardinha, porém, aconteceu o impensável: do Último Gole ao bar Cantagalo, passando pelo Convênio da rua XV, entrando pelos botecos da Imaculada, Três Marias e quebradas São Gonçalo, já havia gente apostando que na manhã daquele dia tinha acabado de nascer o 4º Iscariotes.