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segunda-feira, 29 de abril de 2013

SECRETÁRIO ABUSADO

Silvio Prado, professor

Não quero ser abusado
Mas proponho ao secretário
Que viva só por um mês
Cumprindo meu itinerário
Tendo dentro da carteira
O que me paga de salário.

Eu garanto que pra ele
O mês será uma eternidade
Sofrimento impossível
Para uma autoridade
Acostumada ao conforto
E tanta comodidade.

Que esqueça o gabinete
O carro e até o motorista.
O assessor competente
Quase sempre à sua vista
E a imprensa todo dia
Pedindo nova entrevista.

Se fizer a experiência
Indo para o anonimato
Entrando, saindo de salas
Abrindo mão do aparato
Como professor do Estado
Ele terá outro trato.

Indo para três escolas
Sacudindo num busão
Ou então em carro próprio
Cumprir sua obrigação
Que o secretário conheça
O lado b da educação.

Suportando a rotina
Da vida pobre e comum
Feito professor do Estado
Tratado como mais um
Quando então coçar o bolso
Sempre encontrará nenhum.

Que ele pague água e luz
Telefone e moradia
Compre no supermercado
Pão e leite todo dia
Levando vida regrada
Sem nenhuma mordomia.

Sem a grana respeitável
Do cartão corporativo
E andando de carona
Ou num busão explosivo
Para seguir na educação
Ele não terá motivo.

Quando for surpreendido
No trânsito ou na padaria
Com o celular tocando
Em qualquer hora do dia
Saberá que é cobrança
De uma tal Casas Bahia.

Se também sua saúde
Pifar pelo itinerário
Sem Iamspe atendendo
Não fazendo o necessário
Nessas horas o bicho pega
Para quem não tem salário.

Que doença pode ser
Tão prontamente tratada
Se o médico já marcado
Trazendo a agenda lotada
Transferiu pro mês seguinte
A consulta desejada?

Diante de tanta urgência
Imposta pela doença
Conclui logo o professor
Que a espera não compensa
Pois percebe que o Iamspe
Nunca faz a diferença.

Se não aparece um irmão
Metalúrgico ou petroleiro
Ou quem sabe o cunhado
Trampando hoje de  pedreiro
O professor nessa hora
Não vê a cor do dinheiro.

Pois no Banco do Brasil
O seu credito anda zerado
E não adianta argumentar
Que é professor do Estado
Que seu empréstimo antigo
Não será renegociado.

Mesmo assim o governo
Alheio a sua pobreza
Numa peça bem bolada
Repleta de safadeza
Vai mostrá-lo pela mídia
Sem os traços de pobreza.

E quem vê a propaganda
Em torno da educação
Não pensará o quanto ela
Traz também enganação
Com professor sorridente
E sem o pires na mão.

Pois vá olhar o seu bolso
Ou mesmo a conta bancária
Com saldo sempre zerado
E a pobreza arbitrária
Sem saber como enfrentar
Uma vida tão precária.

Não quero ser abusado
Como disse inicialmente
Mas sim dar ao secretario
A chance de ser um docente
Levando vida precária
Sob salário indecente.

Sendo que é muito fácil
Falar sobre a educação
E falar mal do professor
Sem a mínima noção
Do vazio de seu bolso
E da pobreza de sua mão.

Pois nunca a experiência
De um mestre ignorado
Cabe na falsa estatística
E nem na lógica do estado
Que nunca cumpre o que diz
E deixa o ensino de lado.

Enfim, só quero saber
Como fica o secretário
Por trinta dias terríveis
Cumprindo rígido horário
Entrando saindo de salas
Pago com o meu salário.