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sexta-feira, 5 de abril de 2013

UM JORNAL PARA O BRASIL

Celso Brum, sociólogo e professor

(Artigo publicado originalmente pelo Diário de Taubaté)

Num dos meus últimos artigos, para este jornal, sugeri às esquerdas (comprometidas com o projeto do PT) que utilizassem os meios, ao seu alcance, para criar um jornal. Lembrei que, no Brasil, existem milhares de publicações de esquerda, de pouca relevância e menor repercussão ainda, embora cheias de boas, ótimas e excelentes intenções. Insisti que é possível e dramaticamente necessário a existência de um jornal que seja o contraponto da imprensa direitista-reacionária do nosso país.

A “grande imprensa” do Brasil-sil-sil tem uma longa tradição direitista, como sabemos. Ela foi contra Getúlio Vargas (até levá-lo ao suicídio) contra Juscelino Kubistchek, contra João Goulart, contra Lula e é contra a Dilma Rousseff. E foi à favor do golpe militar de 1964, à favor da eleição de Fernando Collor, à favor (até hoje) de Fernando Henrique Cardoso e a favor do PSDB, que é, como sabemos, uma UDN apoplética: entreguista, americanófila, elitista e, portanto, anti-populista. Mas, isto não é o pior: a “grande imprensa” sequer é jornalística.

Eu explico: divulgar os fatos é a essência do jornalismo. Ter opinião é extremamente importante, mas, os fatos estão em primeiro lugar. E é bom esclarecer que deduções, ilações e interpretações não podem ser confundidos ou apresentados como fatos. Ficou muito comum, na “grande imprensa” o uso canalha das palavras “suposto”, “suposição”, “supostamente”, com o intuito de divulgar acusações contra os desafetos, sem correr o risco de tomar um processo por calúnia. Essa prática canalha e cafajeste tornou-se recorrente na “grande imprensa”, depois do caso da Escola Base, ocorrido há quase 20 anos, em que a divulgação de notícias falsas (porque não houve um prévio levantamento dos fatos) levou à perda da honorabilidade de uma família e à destruição do seu negócio. Isso resultou num processo, em que os principais veículos da “grande imprensa”, escrita e televisada, foram condenados (o processo levou mais de 10 anos e, ao que eu saiba, ainda está em fase de recursos). Depois dessa condenação, a “grande imprensa”, sempre que tem o interesse de pichar algum desafeto (quase sempre gente da esquerda) usa dessa canalhice e cafajestice, ou seja, refere-se ao “suposto”, ou fala da “suposta ação”, do que “supostamente” ocorreu, etc., protegendo-se assim dos processos.

Mas, é preciso deixar muito claro, que qualquer órgão da imprensa pode e deve ter opinião. A opinião de um jornal está nos seus editoriais. Os grandes jornais do mundo civilizado fazem isto. Mas, os grandes jornais do mundo civilizado respeitam os fatos. Para os grandes jornais do mundo civilizado, não existem supostos fatos, existem fatos.

No Brasil, a “grande imprensa”, direitista e reacionária, seleciona o que deve ser divulgado. Se é contra os seus desafetos, manchetes na 1ª página. Se é a favor, o fato não é divulgado ou, quando divulgado, junto vem um factoide ou uma opinião desabonadora, quase sempre por conta desses sabujos que se prestam a escrever as tolices que o dono do jornal quer que sejam ditas, sem comprometê-lo.

Aos meus caros, raros, fieis e inteligentes leitores já sugeri – e repito a sugestão – que ouçam o programa “A voz do Brasil”, às 19 horas, todos os dias em todas as emissoras de rádio. Não é sem motivo que a “grande imprensa” faz uma campanha pelo fim do programa. É que na “Voz do Brasil” nós podemos tomar conhecimento das coisas boas que acontecem em nosso país, notícias que a “grande imprensa” esconde dos seus leitores.

Por isso e por muito mais, um jornal verdadeiramente democrático (que respeite os fatos) precisa ser criado urgentemente. Esse jornal tem feito muito falta e muita falta irá fazer, daqui em diante. É claro que este jornal terá sua opinião, a ser exposta claramente, sem subterfúgios, confrontando as opiniões dos jornalões e revistas da direita reacionária.

O PT e as esquerdas alinhadas com o PT precisam superar suas idiossincrasias e criar o jornal destinado a ser o “rei das bancas”, vendido pela metade do preço dos jornalões. Esse jornal, não sendo pernóstico, precisa ter uma nova linguagem, diferente dos jornalões e das revistas campeãs das salas de espera. Os jornalistas e intelectuais do PT e das esquerdas são bastante capazes e competentes para fazer isso.

Não há tempo a perder, porque muito tempo já foi perdido: é preciso fazer um jornal para o Brasil e para os brasileiros.