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quarta-feira, 22 de maio de 2013

INDIGNAI-VOS!

Pollyana Gama, vereadora

Indignai-vos! Eis aqui o desejo, “convite/ordem/apelo”, do diplomata francês e escritor Stéphane Hessel (1917-2013). Ao manifestar seu desejo de que cada um de nós tenha seu motivo de indignação, Hessel tinha nele - assim sinto ao ler seus escritos - a esperança de unirmos forças à corrente histórica que se engaja e milita por mais justiça.

De certo, como ele mesmo o fazia, indignado com o nazismo - ao resistir a campos de concentração e posteriormente participar da redação da Declaração Universal dos Direitos Humanos (1948) - ao testemunhar a dolorosa condição dos habitantes da Faixa de Gaza, compadecendo-se e ajudando-os na conquista de direitos universais.

Diante de preconceitos e desigualdades ainda latentes torna-se imperativo encontrar um motivo para se indignar e aceitar o convite proposto. Na hipótese de haver dificuldades para esse encontro, sugiro observar os direitos humanos. O artigo 26 da Declaração Universal diz que “a educação (...) deve favorecer a compreensão, a tolerância e a amizade entre todas as nações e todos os grupos raciais ou religiosos, bem como o desenvolvimento das atividades das Nações Unidas para a manutenção da paz”. Podemos afirmar que toda a humanidade se beneficia desse direito?

Estou certa que não. Veja a seguinte situação que ocorre em nosso país. Mesmo após 125 anos de a Lei Áurea libertar milhares de negros da condição de escravo, seria equivocado afirmar que eles conquistaram sua liberdade plena, compreendida enquanto igualdade de condições e oportunidades. Em nosso país os negros correspondem a 7,6% (15 milhões) do total da população, de acordo com o Censo 2010 do IBGE. Entre os maiores de 15 anos, a taxa de analfabetismo é de 14,4% dos negros.

Os pesquisadores Adailton e Josenilton da Silva e Waldemir Rosa, ao tratarem da problemática de acesso da juventude negra à educação superior, utilizaram estudo divulgado pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) que acompanhou “a trajetória das crianças negras em relação às crianças brancas nascidas nos anos de 1987 e 1988, ou seja, grupo de jovens que, em uma trajetória educacional adequada, estaria iniciando sua formação de nível superior em 2007”.

Concisamente, observou-se que ao final do ensino fundamental apenas um em cada cinco jovens negros conseguiu chegar na idade prevista; no ensino médio, apenas 15% dos jovens negros concluíram contra 25% dos jovens brancos e no ensino superior, apenas a metade desse percentual de estudantes negros conseguiram ingressar no ensino superior em menos de dois anos, enquanto que os estudantes brancos praticamente a totalidade. Resultado: percurso desfavorável aos jovens negros devido a marcante presença do fracasso escolar. Fechar os olhos? Talvez seja essa a reação dos que preferem a indiferença, pior dos males, como sedativo.

Indignado? A esperança é que sim. A conjugação de políticas públicas educacionais com as de combate às desigualdades raciais pode constituir um meio de enfretamento para a inserção e a permanência dos jovens negros nas escolas, universidades, como também nos debates a respeito, a fim de se refletir equanimidade entre as raças nos diversos segmentos da sociedade.

Para aqueles ainda em dúvida, transcrevo o apelo de Hessel para “uma verdadeira insurreição pacífica contra os meios de comunicação de massa, que, como horizonte para os nossos jovens, só sabem propor o consumo de massa, o desprezo aos mais fracos e à cultura, a amnésia generalizada e a competição desenfreada de todos contra todos”. Qual seu motivo de indignação?

Encontrando-o ou já desperto a ele junte-se a essa rede de resistência à indiferença colaborando com atitudes, muitas delas ainda impossíveis a seres humanos torturados, esquecidos por parte de uma sociedade resistente em abrir os olhos e ver no próximo a extensão de sua existência.