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terça-feira, 4 de junho de 2013

A HISTÓRIA DE UM BALÃO

Camões Filho, jornalista e cronista

Aos leitores do blog quero oferecer um presente: a partir de hoje, o jornalista Camões Filho passa a abrilhantar este espaço com suas belas crônicas. Tive a honra de ser colega de redação de Camões na sucursal do ValeParaibano em Taubaté, na Rua Jacques Felix e, se a memória não me trai, na Rua Dr. Souza Alves.

Bons tempos aqueles, no início dos anos 1980. A televisão não havia chegado ao Vale do Paraíba e o principal meio de informação da região era o jornal de São José dos Campos, que está cerrando suas portas por conta de desentendimentos empresariais.

O que importa e termos Camões ao nosso lado, depois de tantos anos, chamando nossa atenção para assuntos que consideramos banais. mas que ganham dimensão graças à sua verve de bom observador e narrador de fatos que ganham significância com seus textos.

Obrigado, Camões Filho, por sua colaboração.

5 de junho é o Dia Mundial do Meio Ambiente e da Ecologia. Também estamos no mês de festas juninas, quando muita gente ainda insiste em soltar balões. Por conta dessas datas, hoje estou publicando este conto infanto-junvenil de minha autoria, “A história de um balão”. Espero que gostem.

O pai de Joãozinho estava no quintal, todo feliz, admirando o verde da mata, quando o filho chegou esbaforido, acompanhado do amigo Pedrinho:

Paiê... paiê... não é verdade que é proibido soltar balão?

O pai assustou-se com a chegada tão apressada do filho e sua pergunta.

- Claro, meu filho. É proibido sim. Afinal, você está vendo essa serra toda verdinha? Pois se cai um balão aí, pode queimar as árvores, matar pássaros e animais...

- Tá vendo, Pedrinho? Não te falei?

Ele vai dizendo e acrescentando, com toda pressa do mundo:

- O Pedrinho disse que o avô disse que ele adorava soltar balão. Não pode, né, paiê?

- Isso, não pode. Mas o avô do Pedrinho agia assim, pois antigamente não havia tanta informação entre as pessoas. Nem estavam tão disseminadas as noções de respeito às questões ambientais.

 - Ih, paiê... tendi nada não.

Seu pai, com toda paciência do mundo, então assim falou ao filho e ao Pedrinho:

- Sentem-se aí que vou lhes contar uma historinha...

Houve um tempo e já faz muito tempo em que os meninos podiam fabricar seus balões de papel-de-seda e soltá-los pelo céu. Não existiam tantas casa como hoje e as fábricas eram raras. Aqui na nossa cidade só tinha uma, do Seu Jeremias, onde ele, com sua cara muito branca e sempre assustada, fazia uns queijos brancos iguaizinhos a ele, deliciosos. Era um queijo todo furadinho que nem a rede do Berto Sete Cacetes para pescar peixes. E as matas viviam livres da tal poluição e eram verdinhas, livres de queimadas.

Neste tempo, os meninos ainda soltavam balões.

Mas como estava dizendo, naquele tempo não tinha muitas casas, fábricas e o mato era verde, não estava esturricado como agora.

Neste tempo os meninos ainda soltavam balões. Foi o que fez o avô do Pedrinho.

Dizem que ele foi um moleque muito supimpa na fabricação de balões. E todo ano, quando o mês de maio dobrava a esquina, trazendo junho e aquele friozinho gostoso, o guri já ia juntando folhas de papel-de-seda, taquarinha pra armar o bicho e uma cola danada pra colar. E lá ficava ele, o dia todo, cuidando de seus balões.

Um dia ele resolveu fazer o mais bonito balão do mundo. E o danadinho fez o maior e mais bonito balão do mundo, mesmo.

 Era papel pra cá, papel pra lá, daqui pracolá. E corta papel, emenda papel, combina cores, bota azul, amarelo, verde, laranja. Um balão pra deixar a criançada do bairro babando que nem babaca.

Era o balão mais bonito da paróquia. Um balão tipo mexerica, doze folhas e uma mecha dessssssssssse tamanho. Ele botou no meio da estopa vela, breu e outras artimanhas e mumunhas.

No dia de Santo Antônio ele resolveu soltar o balão.

A criançada toda do bairro veio para verde e todo mundo fez o maior silêncio quando ele começou a tarefa para botar aquele artefato no ar, pois respeito é bom e ele merecia. Ah, se merecia.

Quando ele encheu aquelas doze folhas coloridas, a emoção tomou conta de todos. O maior balão já feito pelo avô do Pedrinho estava serelepe, querendo fugir, ganhar os céus. Os meninos seguravam nas pontas com força, não deixavam aquele bólide zarpar para as alturas. Eles queriam curtir um pouco mais a fera.

Depois, o avô do Pedrinho ordenou e o balão foi solto e foi subindo, subindo. Ele brincava com o vento, dançava gostoso, deixando cair pingos de breu, sol estrelinhas do céu. Os garotos ficaram imóveis, vendo aquele boitatá perder-se no infinito. Ele até chorou de contentamento. Foi então que ele percebeu que existem certas coisas que podem fazer chorar de dor ou de alegria.

Era dia de Santo Antônio e o avô do Pedrinho ficou olhando para o céu, imaginando a viagem do seu balão. Até imaginou seu balão voltando, descendo em suas mãos, trazendo uma estrela na ponta.

Mas o balão foi é cair na fábrica de queijos do Seu Jeremias. Queimou algumas formas de fabricar queijo e causou o maior susto e alvoroço.

Foi assim que o avô do Pedrinho aprendeu a lição e nunca mais soltou balão, que é uma coisa proibida e muito perigosa.

Joãozinho gostou muito da história contada pelo pai e prometeu que ele nunca soltaria balões e um dia contaria essa mesma história para seu filho.

“Balão, nunca, jamais”, disse ele. “Ao invés de balões, Pedrinho, vamos soltar pipa!”

E os dois garotos foram saindo, correndo como um pé de vento. Ao que o pai completou:

- Pipa tudo bem. Mas, meninos... sem cerol, hein?


Mas essa já é outra história...