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quinta-feira, 13 de junho de 2013

O PRÍNCIPE MORREU

Com meu pedido de desculpas pela demora em publicar o texto do professor Celso Brum, quero me explicar: passei 10 dias sem internet, impossibilitado, portanto, de fazer as costumeiras publicações. Agora está resolvido o problema. Obrigado pela compreensão.

Celso Brum, sociólogo e professor

Ele ficou famoso nacionalmente quando a grande imprensa tirou a frase do contexto, para esculhambar a classe política, coisa muito comum em nosso país. O que ele quis dizer, com sua costumeira irreverência não foi o que a grande imprensa divulgou e ele ficou com a achincalhe principesco, foi como se ele se considerasse um príncipe.

No ano passado, ele teve cassado o seu mandato de Vereador e cassados também os seus direitos políticos por 5 anos. O motivo? Ele havia transportado, no carro da Câmara Municipal, pessoas doentes a São Paulo.

Estou falando de Rodson Lima, que morreu e foi sepultado ontem. Morreu tão jovem, apenas 50 anos, deixando 5 filhos e 7 netos.

Diante dos fatos, cabem algumas considerações.

Em primeiro lugar, a existência de uma permanente campanha de desmoralização da classe política e, em especial, do Poder Legislativo.

O grande Ulisses Guimarães disse, certa vez: “Eu amo o Parlamento.” Ele tinha razão de amar o Parlamento, pois, é ali que está a garantia do processo democrático. Todas as ditaduras, eu disse todas as ditaduras, extinguem ou manietam o Poder Legislativo.

É exatamente no Poder Legislativo que o povo está mais claramente representado, com suas diversas tendências e opiniões. Todas essas tentativas, de degradação dos políticos e do Poder Legislativo, guardam a indelével marca do “despotismo esclarecido”, que tem tudo de despotismo e nada de esclarecido: são as manifestações das “classes superiores” denegrindo os representantes das “classes inferiores”. Embora seja verdadeiro que os políticos erram muitas vezes e muitas vezes o Poder Legislativo deixe a desejar. Mas, reparem os meus caros, raros, fieis e inteligentes leitores, a grande imprensa não fica batendo no Poder Judiciário, nem com um centésimo de intensidade, pelos seus erros, omissões e demoras.

Ah, como é fácil bater nos políticos!....

Em segundo lugar, Rodson foi condenado porque levou pessoas doentes no carro da Câmara, para São Paulo. Ou seja, supriu uma evidente carência de ambulâncias, para esse tipo de transporte. Mais tarde, adquiriu um veículo próprio, para continuar transportando doentes.

Quem sou eu para julgar a Justiça. Não me cabe discutir a decisão judicial, que me pareceu extremamente rigorosa. De mais a mais, canso de ver tanta coisa acontecendo e de que discordo e, por comparação, fica parecendo que o erro do Rodson talvez não fosse assim tão grave. Talvez a pena imposta tivesse sido exagerada e ele merecesse continuar com sua política assistencialista, na sequência do seu mandato e na conquista de um novo mandato.

Quem sabe, se o entusiasmo da perspectiva de continuar na política, não o teria mantido saudável. Lembrando que alguns estudiosos apontam a possibilidade de causas psicossomáticas para o câncer.

Fiquei triste com a morte de Rodson Lima. Ele foi meu aluno e me tratava com grande consideração, a mesma que eu tinha por ele.

Todos vamos morrer, mas morrer jovem é uma judiação. Certamente Rodson Lima morreu jovem demais.

Quero manter, em minha lembrança, a imagem do Rodson Lima, aos sábados, no Mercadão, tocando violão e cantando ou tocando saxofone, simples e feliz entre os feirantes, uma imagem positiva que bem retratava o ser humano que ele era.

Certamente, como pobre filho de Adão e Eva, como todos nós, ele teria imperfeições e, como todos nós, cometeu pecados: e isto é um assunto da alçada da justiça e, sobretudo, da misericórdia divina.


Mas, para todos aqueles – mais simples e mais pobres do que ele, desassistidos e humilhados – e que ele pôde ajudar e proteger, todos e todos o consideravam como um príncipe, o príncipe dos necessitados, um príncipe que fará falta.