Páginas

sexta-feira, 21 de junho de 2013

O RECADO ESTÁ DADO

Carlos Karnas, jornalista e escritor

O recado do povo brasileiro está dado, com endereço certo: à classe política, aos partidos e aos nossos governantes. O respingo também atinge a classe empresarial que se afina e se mantém conivente às benesses das negociatas políticas. Os protestos fantásticos em todo o país, agora históricos e inesquecíveis, são incontestáveis. Clamor generalizado contra todas as mazelas que se perpetuam no país por artimanha da incompetência política e das autoridades.

Os observadores criticam que os movimentos populares não identificam acertadamente suas lideranças para qualquer rodada de negociação e entendimento. E daí? A sociedade brasileira, nessas manifestações fantásticas, agiu na consequência daquilo que todos reclamam e não têm: liderança. A sociedade brasileira não tem mais em que se espelhar e, portanto, não pode se afinar e seguir valorosos exemplos que deveriam estar sedimentados nos governantes, na classe política e nos partidos. Não temos estadistas. A falta de identificação e a falta de rumo ideológico são reflexos, pela ausência de norteadores de princípios, pela falta de condutas, posturas, ética, moral e dignidade que devem embasar o exercício de políticas públicas coerentes e sustentáveis, de maneira justa e voltadas para o bem comum.

A massa de protesto, por justiça social, alijou e rechaçou todas as bandeiras partidárias que abrigam políticos corruptos e coniventes, os salafrários que criaram imenso bolsão de interesses e de locupletação. Corporativismo nefasto, hipócrita, criminoso. Nele se estabelecem os conluios, as perniciosas negociatas, os escandalosos acertos público- privado que incham e ao mesmo tempo sucateiam, sugam a máquina pública. Uma roda viciosa que esmaga a dignidade do povo brasileiro, que trabalha quatro meses ao ano só para pagar impostos sem a devida, honesta e justa contrapartida. Imensos recursos malversados que se evaporam, impunemente, às vistas do poder judiciário omisso e frágil, queixoso do volume do seu trabalho, mas que se perde no seu próprio discurso de leis. Todos acomodados e negligentes à voz do povo.

A fragilidade das instituições brasileiras tornou-se aterradora. Escamoteiam e maquiam a transparência, portanto, convivem com a desonestidade. Reforçam paternalismos para estabelecer determina burrice e acomodação popular. Pois chegou a hora do basta. Uma nova ordem brasileira é que se quer, pois a ditadura e a democracia foram incapazes de estabelecer legados saudáveis, sociais e justos. A rebelião brasileira, sem lideranças identificadas, é uníssona: o povo está de saco cheio. Experimentou e agiu tal e qual os exemplos perversos que estão estabelecidos. A identificação coletiva única é a indignação.

A desestruturação social, os vandalismos ao patrimônio público e privado são reflexos e consequências malditas. Foram praticados por bandidos e criminosos que não tiveram, na base familiar e social, parâmetros, amparo, ensinamento, educação, exemplos morais e condições para outra forma de agir. A violência da depredação e a falta de segurança, bem como a conduta da autoridade policial, demonstram o quanto a sociedade está minada pela perversidade, consequência direta daquilo que lhes foi negado. A base familiar (célula-mãe) está minada, desestruturada e sem condições de identificar os rumos ideais do bem comum coletivo, com pleno emprego de políticas públicas essenciais saudáveis, justiça social uniforme, oportunidade e perspectivas dignas, coerentes naquilo que deve ser primordial. Nossas instituições, políticos e partidos desprezaram e desprezam princípios fundamentais exemplares. São oportunistas, interessados na locupletação de uns poucos em benefício próprio. Estruturas nacionais que proporcionam direção e sustentam desenvolvimento harmônico foram privatizadas de maneira escandalosa. Terceirizações do serviço público alimentam cada vez mais os gastos governamentais, cimentam as negociatas interesseiras e imorais que não beneficiam a sociedade. A incompetência está generalizada. Mas o povo brasileiro sabe. Precisa ganhar unidade para a sua mobilização ter força. É o que está estabelecido agora no universo Brasil.

Sintomático é a classe política, como sempre, se acovardar diante da manifestação popular. Perdeu a vergonha na cara e permanece muda como criança em fralda borrada. A classe política tem conhecimento da sua própria venalidade, da sua calhordice, das suas práticas imorais e antiéticas. Nessas alturas, deve continuar a pensar no que é melhor para ela própria se safar, por ser oportunista e inescrupulosa. Entretanto, a política como está posta, subsiste pelo nosso mau voto, pelas nossas más escolhas e identificações. E neste quesito há triste realidade, pela inexistência de nomes representativos e programas partidários realmente levados ao pé da letra. Todos os partidos pregam e confundem seus ideários numa salada que se torna indigesta, pois todos querem mamar às custas do Fundo Partidário e das benesses que o poder dispõe. Imoralidade total.

As manifestações populares acontecidas nos últimos dias, tornam o Brasil um país único e com povo único. As manifestações aconteceram em todas as capitais e em centenas de cidades espalhadas por todo o território nacional. Tiveram apoio de brasileiros no exterior, nas maiores cidades do mundo e de muitos continentes. A grandiosidade deste fato é a maior do que todas as demais manifestações pontuais realizadas ultimamente em outros países. O que acontece, presentemente no Brasil, fica registrado nos anais da história universal.

E se o ato pacífico da maioria é reconhecido, infelizmente também permanece a prática criminosa de alguns depredadores. Esses devem ser identificados pela autoridade policial e denunciados pela sociedade. Devem ser detidos e penalizados. Devem pagar pelo que fizerem. Se não tiverem condições de ressarcir pelos estragos vândalos que praticaram, que esta conta faturada seja enviada a cada político (pessoa física) brasileiro para que eles a paguem. Ressarçam os danos ocorridos com o patrimônio público e privado. Eles, tão somente eles (em qualquer palácio, congresso, sede de governo, prefeitura, assembleia legislativa, câmara municipal) são os responsáveis. A partir disso, a palavra de ordem é mudança total, respeito, justiça social, harmonia e desenvolvimento com todas as políticas públicas essenciais aplicadas como devem ser. A ordem vale para o sistema bancário e para o empresariado que alimenta o governo com suas conivências, interesses e zonas de conforto. O povo não participa das negociatas, ele quer viver com dignidade, com justiça social, ordem, progresso e paz.