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sexta-feira, 14 de junho de 2013

OS SINOS DA CATEDRAL

Celso Brum, sociólogo e professor
(Artigo publicado originalmente pelo Diário de Taubaté)

Ele foi um escritor. Sua vida foi permeada de acontecimentos dramáticos. Foi respeitado e admirado. Mas, um dia, como acontece com todos os seres vivos, morreu. Na casa em que morava havia uma enorme quantidade de livros, jornais e recortes de jornais, cadernos com apontamentos, fotos, revistas, enfim, o resultado de uma vida dedicada a ler, escrever e guardar, com carinho, tudo quanto lhe parecia importante, como marcas de sua caminhada. Conta-se que, após o sepultamento, seus filhos, diante de tanta coisa escrita e impressa, não viram outra solução: juntaram tudo no quintal da casa e fizeram uma fogueira, uma dolorosa fogueira, que destruiu para sempre uma parte da memória da cidade.

Era uma grande discoteca. Havia discos preciosíssimos, alguns tão raros que poucos restavam em todo o mundo. Milhares de discos de 78 rotações, conservados com emoção e veneração pelo seu proprietário, organizados e cadastrados com rigor de um pesquisador. Também, um dia, morreu, que pena. Seus filhos, que não compartilhavam do seu amor por aquelas velharias, ofereceram a coleção às autoridades municipais, segundo consta por um preço alto, embora o valor real fosse dezenas de vezes maior. As autoridades municipais, de então, cometeram o pecado de não negociar de forma adequada. A coleção acabou sendo vendida, ao que se sabe, a uma pessoa de outra cidade, por um preço muito menor, em relação àquele pedido ao município. E a cidade ficou sem a preciosa coleção de discos, como ela pouquíssimas existentes em todo o mundo.

E havia as palmeiras imperiais que eram verdadeiras marcas da cidade. Quando um visitante chegava, ficava encantado com as lindas e imponentes palmeiras. As fotos da época mostram como eram lindas e imponentes as palmeiras. Certo dia, infeliz dia, o prefeito e os vereadores de então, decidiram que aquelas lindas e imponentes palmeiras imperiais eram perigosas. Não se tinha notícia de que alguém tivesse sido ferido por causa daquelas lindas e imponentes palmeiras imperiais. Mas, segundo o prefeito e os vereadores de então, as lindas e imponentes palmeiras eram também perigosas. Por isso, as lindas e imponentes palmeiras imperiais foram cortadas. Outras foram plantadas, no lugar daquelas, mas não era e não é a mesma coisa. E as lindas e imponentes palmeiras imperiais ficaram na lembrança.

E havia os casarões no centro da cidade. Aqueles casarões com grandes portas e grandes janelas, plantados em terrenos valiosíssimos. Porque os terrenos eram valiosos, os casarões foram derrubados ou deixados à ação do tempo, sem cuidados e sem manutenção, para que a ação do tempo os destruíssem. E então, no lugar dos casarões, foram construídos prédios, bancos e estacionamentos.

E o que dizer daquele prefeito desalmado que permitiu e ou patrocinou a destruição de partes do conjunto da CTI? O que dizer da transformação em estacionamento do teatro do Círculo Operário Taubateano, onde uma multidão de artistas amadores se apresentavam em noites memoráveis?

Leio ontem, neste jornal, a assombrosa notícia de que sinos, com mais de 150 anos da Catedral de São Francisco das Chagas, estão em Uberaba para serem refundidos. Alguém me informa que não serão refundidos e sim recuperados de trincas e rachaduras. Porém, uma pessoa entendida afirma que é impossível consertar trincas e rachaduras, sem refundir. Ou seja, os sinos foram mandados, para Uberaba, para serem derretidos e darem origem a outros sinos.

Custo a acreditar nessa notícia espantosa. Refundir sinos de 150 anos é demais para mim. Sinos de 150 anos são peças de museu, são verdadeiras relíquias históricas. Não são, apenas patrimônio da Igreja Católica: constituem patrimônio da história de Taubaté.

Os sinos, de uma maneira geral, quando tocam, chamam os fieis para as celebrações e, ao mesmo tempo, prestam homenagem ao Deus Todo Poderoso. Fico pensando quantos milhares e milhares de fieis foram chamados, por esses sinos, para as missas e para as rezas e quantas vezes esses sinos abrilhantaram as festividades religiosas, nesses 150 anos.

Os escritos e guardados daquele escritor, a fabulosa discoteca daquele colecionador, as palmeiras e os casarões tinham um significado poderoso: eram a alma da cidade ou parte da alma da cidade. Quando não estiveram mais ao nosso alcance, perdemos, todos nós, muito dessa alma, dessa identidade. Se os sinos de 150 anos, da Catedral de São Francisco das Chagas, forem destruídos, diminuirá ainda mais, o que resta da alma da cidade.

Como nos livros de realismo fantástico de Gabriel Garcia Marquez, imagino que, amanhã, fazendo sol e havendo céu azul, passearei pela cidade e verei as palmeiras imperiais, os casarões, intactos o conjunto da CTI e o teatro do Círculo Operário Taubateano. No Museu de Imagem e Som encontrarei os escritos e guardados daquele escritor e, numa sala climatizada, a fabulosa coleção de discos. E, no Museu de Arte Sacra, num lugar de destaque, estarão os sinos de 150 anos da Catedral. É tão bom sonhar!...