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quinta-feira, 13 de junho de 2013

SOTAQUE? QUE SOTAQUE?

Camões Filho, jornalista, escritor e pedagogo

Conversava esta semana com uma pessoa nascida no Rio Grande do Sul, na divisa com o Uruguai, que usa aquele sotaque tipicamente gaúcho. Eu observava a forma peculiar do sulista pronunciar algumas palavras e letras, especialmente o “erre”. O erre é uma letra linguodental, ou seja, deve ser pronunciado dessa forma: a língua vibra e encosta nos dentes frontais superiores. É assim que o gaúcho fala. Perfeito. Errados somos nós, especialmente os paulistas, que pronunciamos o erre como se fosse uma letra gutural, ou seja, o som sai como que rasgante da garganta. Faça esse teste e veja como é.

Isso me faz lembrar de um amigo que foi visitar o Ceará e ficou encantado com o sotaque do nordestino. Um dia, conversando em um grupo, na praia, disse que estava adorando o sotaque dos cearenses. Ao que um deles, surpreso, respondeu: “Sotaque? Que sotaque?”

Isso pois para eles aquele jeito de se falar que era o normal, não tinha nada de sotaque. Quem de certo estava tendo seu sotaque observado era meu amigo taubateano.

Aliás, nós de Taubaté nem percebemos, mas temos um sotaque característico. Conversava com uma colega de trabalho, que é de Campos do Jordão, e ela me disse que eu tenho o sotaque típico dos taubateanos. “Sotaque? Que sotaque?”, disse-lhe, com a mesma surpresa dos cearenses.

Assim são as características de cada região. Estive recentemente em Minas Gerais e ficava observando as pessoas falarem, com aquele jeitinho mineiro. Se nós falamos “titia”, eles dizem “tchitchia”. As palavras saem arrastadas, moduladas.

Tem um texto, que circulada por aí, que retrata perfeitamente a forma do mineiro falar, e eu digo isso com propriedade, pois meu pai era mineiro de Careaçu:

“Sapassado, era sessetembro,
tavaeu na cuzinha tomando uma pincumel
e cunzinhando um kidicarne cumastumate
pra fazer uma macarronada cum galinhassada.
Quascaí di susto quanduvi um barui vinde denduforno,
parecenum tidiguerra.
A receita mandapô midipipoca
denda galinha prassá.
O forno isquentô, o mioestorô
e o fiofó da galinhispludiu!
Nossinhora! fiquei branco quinen um lidileite.
Foi um trem doidimais!
Quascaí dendapia!
Fiquei sensabê docovim, noncotô, proncovô.
Ôpcevê quilocura!
Grazadeus ninguém simaxucô!

Para quem não entendeu nada desse linguajar mineiro, eu fiz uma “tradução” para o português paulista:

"Sábado passado, era 7 de setembro.
Estava eu na cozinha tomando uma
pinga com mel e cozinhando
um quilo de carne com uns tomates
para fazer uma macarronada com galinha assada.
Quase caí de susto quando ouvi um barulho
vindo de dentro do forno parecendo tiro de guerra.
A receita mandou por milho de pipoca
dentro da galinha para assar.
O forno esquentou, o milho estourou
e o rabo da galinha explodiu.
Nossa Senhora! Fiquei branco que nem um litro de leite.
Foi doido demais!
Quase caí dentro da pia!
Fiquei sem saber de onde eu vim,
nem onde eu estou, para onde eu vou.
Olha, para você ver que loucura!
Graças a Deus ninguém se machucou!"

Entendeu agora? Pois é, e ainda falamos a mesma língua em todo o país. Doidimais, sô!

Camões Filho, jornalista, escritor e pedagogo, pós-graduado em Jornalismo e Assessoria de Imprensa, é membro titular da Academia Taubateana de Letras.
E-mail para contato com o autor:  camoesfilho@bol.com.br