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terça-feira, 20 de agosto de 2013

LIÇÃO PARA TAUBATÉ

Carlos Karnas, jornalista e escritor

Demorou. Demorou, mas, enfim andou o processo movido pelo Ministério Público Eleitoral contra os crimes praticados por José Bernardo Ortiz Monteiro Júnior, que ocupa a cadeira de prefeito de Taubaté; o vice-prefeito, Edson Aparecido de Oliveira; o ex-presidente da FDE (Fundação para Desenvolvimento da Educação), José Bernardo Ortiz; e a coligação “Taubaté com tudo de novo”. A juíza Sueli Zeriak de Oliveira Armani decidiu pela perda de mandatos do prefeito e do vice-prefeito.

É de se pensar e imaginar alguns bastidores nessa disputa judicial grave e importante para Taubaté. A ação do Ministério Público Eleitoral, extremamente consistente e bem fundamentada, passou por mãos de dois juízes e acabou no poder de decisão da juíza Sueli Zeriak de Oliveira Armani. Na decisão da magistrada podem ser interpretados caminhos convenientes de defesa dos réus e um novo período de demandas judiciais. Elas já ocorreram. Houve ardilosidades para desmerecer a ação do Ministério Público Eleitoral (decisão do “sobrestamento” imposto pela magistrada e derrubado posteriormente em instância superior). Foi este fato que caracterizou a necessidade de a juíza decidir-se, enfim. Mas, novos ingredientes poderão rechear a massa fermentada desse caso político escandaloso e indigesto. Ninguém está livre de surpresas.

O processo é volumoso e poderia ter ficado melhor sedimentado para a punição dos réus. Fatos relevantes, para muitos, foram desconsiderados ou rejeitados. A boa e imparcial advocacia, a atenta leitura jurídica do processo e o final – estabelecido até este momento – podem revelar sutilezas que não se coadunam nem se harmonizam com o que a opinião pública e a imprensa independente alardeia desde bem antes do desfecho da eleição do ano passado, que premiou e referendou dois políticos – prefeito e vice-prefeito de Taubaté – envolvidos em graves crimes eleitorais. Por este motivo, a guerra surda de bastidores continuará, envolvendo Ministério Público, advogados de defesa e a magistratura. Outras instâncias serão exigidas para a apreciação do processo de cassação do prefeito José Bernardo Ortiz Monteiro Júnior e do seu vice. Mas, à duras penas, um passo importante foi dado, finalmente. Houve pressão civil, e esta foi preponderante

Independentemente dos caminhos ainda a serem trilhados pelo judiciário, neste caso, indiscutivelmente fica a mancha para Taubaté e para toda a sua população. O processo democrático estabelecido na cidade é estranho e questionável: bolsões populacionais, especialmente de eleitores, estão subjugados por práticas espúrias do coronelismo e caciquismo político, onde impera a mais infame e degradante política de poder. O nome contundente da família José Bernardo Ortiz sempre desponta e sempre ultrapassou os limites da lei impunemente. A corrupção, o nepotismo, as negociatas, propinas e todas as transgressões praticadas pelos grupos de poder político resistem com força, há décadas. Pior: é descomunal o comprometimento e a venalidade da massa política taubateana, impregnada no executivo e no legislativo, das mais estranhas maneiras.

Ao longo de imenso tempo do processo de cassação do prefeito, os vereadores e todos os demais políticos taubateanos, com ou sem representação, se acovardaram e se omitiram. Calaram-se borrados para permanecerem alheios e distantes dos crimes cometidos e conhecidos. Deixaram para a opinião pública e para a imprensa independente o ônus das batalhas e de toda uma guerra cívica pela moralidade, ética e honradez que envolve a política de importante município paulista. Não escapa um. E nessa vergonhosa e triste constatação, a classe política taubateana perde totalmente o respeito. Está desqualificada. O município está jogado, novamente, em escandalosa administração pública. A representatividade legislativa inexiste, é tacanha, conivente com o poder. Pratica toda a sorte de ardilosidades para se locupletar, sem dar a devida atenção para o povo, para os ideais nobres de harmonia, políticas públicas e desenvolvimento saudável para a cidade. Não há setor público onde escândalos continuados na explodam e comprometam Taubaté. E se os vereadores estão afinados com o poder político e com o atual prefeito, agora que o propineiro José Bernardo Ortiz Monteiro Júnior é réu julgado e condenado, cabe à sociedade taubateana entender que seus representantes legislativos vestem a mesma carapuça e estão irmanados no mesmo barco. Salvo raras e honrosas exceções, se houverem. Novamente o destino lança sinais para Taubaté ter juízo e deixar de ser sangrado no bolso e na sua própria dignidade. Está na hora da sociedade aprender a lição e sustar a imagem ridicularizada do município que se espalha, vez ou outra, por todo o país. Tudo por conta da política e dos políticos taubateanos.