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sábado, 24 de agosto de 2013

TAUBATÉ, TERÇA-FEIRA, 20 DE AGOSTO

Silvio Prado, professor

Quando Mariano entrou na sala, o Willian Bonner falava de uma cidade distante do estado de São Paulo, Taubaté, e o assunto era a cassação de seu prefeito. Mariano, marido de Rosemara, morador de um bairro de Olinda, Pernambuco, acabara de chegar do trabalho, entrou pela porta da cozinha e já foi sentindo o cheiro da comida quentinha sobre o fogão. Deu um beijo rápido na mulher, encheu o prato e foi sentar-se diante da tevê. Para ele a notícia da cassação não era nova. Muito antes, lá pelas onze da manhã, fuçando a internet ele tomou consciência do fato.

Bem diferente aconteceu com Antonia, merendeira de uma escola pública de Manaus, que ficou sabendo da cassação pelo noticiário da Rádio Nacional , emissora AM, que emitindo de Brasília atravessa e integra toda a Amazônia com sua programação. Antonia ficou vexada com o que ouviu. Para ela o dinheiro da educação é coisa sagrada. “Se fosse na China”, disse para sua companheira de cozinha, “ia ter pena de morte”.

Mas não só Antonia ficou indignada com o fato. Numa minúscula cidade do Paraná, quase divisa com Santa Catarina, uma rádio comunitária tocou no assunto. “Outro político cassado por usar ilegalmente verbas da educação”, disse o locutor que chegou a confundir Taubaté com Tatuapé, um bairro paulistano. O locutor parabenizou a justiça e desejou longos anos de cadeia para o “político desonesto”.

E assim foi pelo Brasil (e talvez pelo mundo) a terça-feira em que Taubaté saiu do anonimato para entrar mais uma vez no mapa da corrupção nacional. Com certeza, depois que o Bonner tocou rapidamente no assunto e as retransmissoras da Globo cumpriram o seu papel, até os jacarés do Pantanal agora sabem que o prefeito Ortiz Junior foi condenado em primeira instância e corre o sério risco de ter oito anos livres para ficar o dia inteiro praticando o tal joguinho da velha no seu computador.

Como Mariano em Olinda, o Alfredo Muller, engenheiro aposentado e morador nas imediações do Beira Rio, em Porto Alegre, também tomou conhecimento de mais um político taubateano cassado pela justiça. Muller, apesar de engenheiro e bem informado, nem sabe direito onde fica Taubaté. Ele tem a impressão que fica perto de Guaratinguetá, onde tem um time de futebol que disputa hoje a segunda divisão do campeonato brasileiro. Ou de Aparecida, que já recebeu a visita de três papas,ou de São José dos Campos que, apesar da tragédia do Pinheirinho, continua produzindo aviões para o mundo inteiro?

Muller, como Mariano e outros personagens fictícios dessa historiazinha baseada em fatos reais, mesmo não sabendo nem a localização geográfica de Taubaté, aos poucos, pelo noticiário, vai compondo na cabeça o perfil de nossa cidade, aquela que já teve prefeito e primeira dama passeando em camburão da Federal, médicos roubando órgãos de pacientes e médica  entrando com cachorro em UTI, centenas de mortos no pronto socorro, barriguda fictícia ganhando projeção nacional e, agora, prefeito cassado por usar verbas do ensino para comprar votos.