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terça-feira, 15 de outubro de 2013

A VALORIZAÇÃO DOS DOCENTES

Pollyana Gama, vereadora

Há um consenso teórico de que melhorar a qualidade da educação passa pela valorização docente. Sou filha de professora e escolhi a profissão, mesmo em meio a um contexto desfavorável muito conhecido e divulgado, por acreditar na potencialidade que há no fazer e ser docente. Esse cenário, de certa forma, foi o que me conduziu a engajar tanto pela formação adequada quanto politicamente pela causa.

Com a política verifiquei que só é possível ir além do discurso com conhecimento. Para ilustrar, a Rede Municipal de Educação de Taubaté conquistou avanços importantes ao longo dessa década, como a aprovação do Estatuto do Magistério, 40% de adicional nos salários para quem tem nível superior; além de parceria com a Unitau para a formação superior de professores por exemplo. Todos eles só foram possíveis por causa da mobilização de grande parte da classe e, principalmente, porque para assegurar os seus direitos previstos em lei, realizamos, de forma coletiva, estudos técnicos que nos deram fundamentação suficiente para convencer os agentes públicos da possibilidade de implantação. Dos mecanismos de valorização previstos em lei sabe-se que faltam o Plano de Carreira, a atualização dos salários dos professores anualmente, como também as ações realizadas por professores e legislativo local nesse sentido. Todas essas experiências apontaram-me a buscar mais conhecimento.

Recentemente conclui o Mestrado em Desenvolvimento Humano pela Universidade de Taubaté. O tema pesquisado não poderia ser diferente ou distante de algo latente e que acredito ser necessário à qualidade do ensino: a valorização docente. A pesquisa não foi tarefa fácil. Embora se saiba que a valorização esteja assegurada legalmente por meio do artigo 206 da Constituição Federal, as realidades quanto à implantação dos mecanismos previstos por parte do Poder Público – o maior empregador de professores – diferenciam de cidade para cidade, de Estado para Estado.

Em meio a essa problemática, com a professora Doutora Marcia Maria Dias Reis Pacheco, minha orientadora, estabeleci o “roteiro” da jornada para tratar desses aspectos da valorização. A fim de constituir uma pesquisa de relevância social que cumprisse o objetivo de conhecer as representações sociais de licenciandos sobre valorização docente, desenvolvemos a pesquisa de forma interdisciplinar, dialogando com as linhas do mestrado - políticas públicas, formação e práticas sociais.

A pesquisa foi realizada com estudantes dos cursos de matemática e física de uma instituição pública de ensino superior do Vale do Paraíba, dado ao déficit de professores para essas disciplinas e a significante diminuição da procura por esses cursos. O olhar psicossocial adotado para a abordagem, com base nos pressupostos do romeno Serge Moscovici, psicólogo social, foi essencial para o alcance do objetivo proposto e para observar as aparentes diferenças existentes entre as representações de ingressantes e concluintes. Conhecer essas representações implica em possibilidade de estabelecer meios para intervenções devidas enquanto se processa o pensamento para a ação.

O resultado apontou preponderância de aspectos relativos à necessidade de melhores salários para os iniciantes e, para os concluintes, a necessidade de reconhecimento social, distanciando-se do conjunto que compõe a valorização docente expresso na Constituição brasileira.

A inquietação voltou a surgir. Primeiro porque não se observa mudanças substanciais entre os discursos dos iniciantes e concluintes. Segundo porque a análise dos resultados permitiu verificar que enquanto os licenciandos afirmam que a temática valorização docente é articulada e discutida pelas disciplinas ao longo dos cursos, afirmam também que o tema salário/piso salarial docente, usados em seus discursos para definir essa valorização, é o mais utilizado.

Pode parecer, a princípio, que esse resultado não constitua nenhuma novidade, contudo, para quem assim acredita, é interessante expressar ser uma crença, um jeito de pensar próprio do universo consensual composto por falas massificadas que integram o senso comum e que se somente repetidas, sem nenhuma interferência que promova um despertar para um novo pensar e uma nova ação, de nada colaborará para a realidade que se busca.

Do resultado aqui parcialmente exposto, emergiram indagações e sugestões, entre elas a de se repensar o conteúdo curricular dos cursos de formação para que se diminua a distância entre o que se quer e o que se tem, entre o falar e o fazer acontecer, e, permita ao licenciando, futuro professor, perceber a si mesmo como parte do "social" de quem tanto espera reconhecimento.

Conhecer para transformar é tarefa primordial, pois colabora no despertar de consciências adormecidas, hipnotizadas e reprodutoras de discursos repletos de expectativas, mas duvidosos quanto à capacidade de solução e ação realizadora.

Acredito ser emergencial para esse feito aproximar os homens da ciência dos homens políticos. A alquimia desejada, quanto a educação de qualidade por meio da valorização de seus profissionais, exige consciência que não paralisa e uma indignação que impulsione o seres humanos a CONHECER para fazer acontecer.

Do contrário, o resultado já se sabe.