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quarta-feira, 30 de outubro de 2013

"AUDI PARTEM ALTERAM"

Camões Filho, jornalista e pedagogo

A polêmica das biografias sem autorização dos biografados, que tramita no Congresso Nacional, ganhou um ingrediente a mais domingo passado, com a entrevista do cantor e compositor Roberto Carlos. A posição do artista – que já proibira sua biografia, de autoria do jornalista  e historiador Paulo César de Araújo – é a favor da publicação de biografias sem autorização prévia, desde que haja entre biógrafo e biografado ajustes à legislação.

Minha opinião pessoal é que não deve realmente haver autorização prévia para a publicação de uma biografia, mas que o biógrafo deve manter contato com o biografado, anunciar sua intenção e até ouvi-lo para compor sua obra. Mais ou menos como fazemos no jornalismo, onde devemos sempre ouvir a outra parte. Se a outra parte não quiser se manifestar, é direito dela, mas isso não pode impedir a publicação da biografia.

Para escrever o livro “O Canto do Vento”, que é um livro-reportagem, que trata de uma história real da 2ª Guerra Mundial, envolvendo alemães e brasileiros, peguei minha agenda, meu gravador e meu bloco de anotações e saí a campo. Produzi dezenas de entrevistas e tenho todo esse material guardado a sete chaves no meu arquivo.

Como escreveu Luiz Gonzaga Belluzzo, “a liberdade de expressão está sujeita aos limites impostos pelas demais prerrogativas dos cidadãos: honra, privacidade etc.”

Em minha carreira jornalística sempre me pautei por essa frase de Santo Agostinho, “Audi partem alteram”.

Em bom português, “Ouve o outro lado”.

Não podemos admitir a censura prévia de jeito algum. Mas também devemos preservar o direito constitucional dos cidadãos à privacidade e a preservação de sua imagem.

Um meio termo é esse aqui proposto: manter o biografado informado que sua biografia está sendo escrita. E dar-lhe oportunidade de contar sua história ao seu jeito, como falou Roberto Carlos no Fantástico, que pela primeira vez citou o acidente que lhe tirou parte de uma perna. Como ele comentou com toda propriedade, somente ele pode falar com autoridade sobre o acidente, a dor que ele sentiu, como isso o afetou naquele momento trágico e para o resto de sua vida

Perfeito. Ele tem esse direito.

Mas os escritores, jornalistas, historiadores e pesquisadores também têm o direito de escrever – e publicar - biografias sobre nossas personalidades. E o público, o direito de lê-las.

Se houver excessos ou inverdades, a Justiça está aí para resolver essa pendenga.