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terça-feira, 22 de outubro de 2013

DE LOBATO ATÉ O PRÉ-SAL

Pollyana Gama, vereadora

Dona Benta explicava para a criançada do Sítio do Picapau Amarelo que, quando dormimos, os nossos pensamentos diários são metamorfoseados em sonhos. Pois de tanto pensar e refletir sobre o leilão de privatização que o governo brasileiro realizou para a exploração do poço de Libra, na área do Pré-Sal da Bacia de Santos, sonhei que Monteiro Lobato havia se tornado presidente da Petrobrás e do alto da importância de sua autoridade bradava: Pare com tudo isso, O PETRÓLEO É NOSSO!

Como foi apenas um sonho, ao acordar, fui remetida à minha infância e corri para procurar em meio aos livros do autor, que ganhei de minha mãe, um muito especial para este importante momento da economia do país, quando se discute a privatização da maior reserva de Petróleo encontrada na área do Pré-Sal: O Poço do Visconde, que, certamente, fora escrito às sombras das frondosas mangueiras da Chácara do Visconde em 1938.

O maior gênio da literatura infantil, lá pelos idos dos anos 30, foi também um grande ativista intelectual e político que pensava um Brasil que pudesse superar o atraso crônico em que vivia, deixando de ser uma grande fazenda para se tornar um país que soubesse educar sua gente para, então, utilizar seus recursos naturais de forma a crescer com sustentabilidade econômica e social.

Pois bem! Em sua narrativa, por meio das aulas de geologia ministradas por Visconde do Sabugosa, e com as ideias de Emília, Pedrinho resolveu o problema do petróleo no país, inaugurando o primeiro poço petrolífero do Brasil, com direito a um letreiro, feito por Pedrinho, com os dizeres: SALVE! SALVE! SALVE! DESTE ABENÇOADO POÇO – CARAMINGUÁ Nº. 1, a 9 de agosto de 1938 saiu num jato de petróleo, A INDEPENDÊNCIA DO BRASIL.

Quem conhece Taubaté há mais tempo, pode se lembrar que ali na Chácara do Visconde, na Rua do Petróleo, existiu uma grande torre feita em madeira preta que simbolizava o poço de petróleo construído pelo pessoal do Sítio. É muito triste passar por lá e não mais ver a torre erguida por Lobato. Um atentado contra a nossa memória!

Lobato arregaçava as mangas e punha suas ideias em prática. Chegou a ter sua própria empresa de petróleo, que, sem apoio do governo, faliu. Crítico ferrenho da política de Getúlio Vargas, publicou o livro “O ESCÂNDALO DO PETRÓLEO” que denunciava a venda de segredos do subsolo a empresas estrangeiras. O livro foi na época censurado e Lobato foi preso pela ditadura de Getúlio.

Contudo, as denúncias de Lobato continuam atualíssimas. Tanto que, em setembro de 2013, uma CPI mista foi instaurada no Congresso Nacional para apurar espionagem do governo americano nos assuntos da Petrobrás. Com base nas denúncias, uma ação popular tentou barrar o Leilão de Libra, mas sem êxito. Os legados de geologia deixados pelo genial "Visconde" certamente serviram para que os técnicos da Petrobrás pudessem descobrir as imensas jazidas de petróleo do Pré-Sal.

O Congresso aprovou, em setembro de 2013, a lei dos royalties oriundos da exploração do Pré-Sal – estimados na ordem de R$270 bilhões, no caso do campo de Libra – para que sejam usados no financiamento de políticas públicas de Educação e Saúde, na proporção de 75% e 25%, respectivamente. E é justamente aí que percebemos que o petróleo não é uma política de governo, é uma política de Estado.

Desde os anos 80, o Brasil investe na tecnologia de perfuração de poços em águas profundas. O mais difícil foi fazer jorrar o petróleo de Libra. Sua exploração e comercialização pelo consórcio vencedor (Petrobrás, Shell, Total, CNPC e CNOOC) fará movimentar a economia e alavancar definitivamente a indústria petrolífera brasileira, principalmente se somarmos esforços tecnológicos com a Shell e a Total e se projetarmos os negócios focando nos pilares da sociedade do conhecimento, isto é, buscando a tecnologia por meio de investimentos na ciência, que são condicionados pela política pública de educação.

Nós, educadores, ainda acalentamos o sonho de Lobato, pois sabemos que com esta riqueza poderemos oferecer a todos os brasileiros educação e saúde públicas de qualidade e à altura do nosso potencial econômico para que sejamos gigantes tanto pela própria natureza, quanto pelo conhecimento, empreendedorismo.

Lobato foi pioneiro e decisivo, tanto quando sabidamente afirmou que “uma nação se faz com homens e livros”, quanto ao reforçar que o “Petróleo é Nosso”, ao construir, aqui em Taubaté, o Poço Caraminguá nº. 1, o marco zero da política petrolífera do Brasil.