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sábado, 30 de novembro de 2013

A MORTE E A MORTE DE ZÉ DIRCEU

Celso Brum, professor e sociólogo

(qualquer semelhança com pessoas ou fatos conhecidos é mera coincidência)

Este artigo foi publicado em 11 de Outubro de 2012. Seis meses depois, em 10 de abril de 2013, no final de uma entrevista que ele concedeu à Folha de São Paulo, Zé Dirceu disse: (...) Eu às vezes penso que era melhor se eu tivesse morrido do que passar pelo que eu estou passando”. Exatamente como eu coloquei no final deste croniconto. Com a prisão de José Dirceu, achei oportuna sua releitura. Anotem, no entanto: Ainda não é o final do mensalão”. Antes do derradeiro e definitivo julgamento da História, haverá outros capítulos. Quem viver verá.

Zé Dirceu estava exilado em Cuba. Tinha pouco mais de 20 anos. Certo dia, ao anoitecer, voltava para a sua quitinete (quarto, cozinha e banheiro), onde morava sozinho. Ao abrir a porta, sentiu que havia algo diferente, uma coisa estranha. Acionou o interruptor e a luz não foi acesa. Caminhou até o fogão, pegou a caixa de fósforos e acendeu uma providencial vela que estava no armário. Foi aí que notou que havia mais alguém ali. Sentado numa das duas cadeiras, Zé Dirceu viu alguém com uma imensa e pesada túnica negra, com o rosto escondido por um grande capuz. Era a Morte. Apesar da visita inusitada, Zé Dirceu não se abalou. Depois de passar por sessões de tortura, no seu país de origem, a visita da Morte não lhe pareceu a pior coisa do mundo. Colocou a vela entre eles e pode ver um rosto pálido, diríamos um rosto sepulcral.

E a Morte falou:
- Zé Dirceu, muito e muitíssimo raramente o Todo-Poderoso permite que eu ofereça a um mortal que escolha o seu destino e, consequentemente, a morte que deseja. E você foi o escolhido.

Você sabe, Zé Dirceu, que o nosso destino pode ser totalmente alterado por acontecimentos fortuitos.

Não foi o seu caso, eis que você escolheu ser esquerdista e subversivo, quando poderia perfeitamente ter apenas concluído o seu curso de Direito na PUC e, depois, ganhar dinheiro, casar, comprar um barco, enfim, viver a vida como um cidadão bem adaptado. Você não quis assim e tudo o que aconteceu, daí em diante, foi para que você chegasse a este momento. Assim, veja como poderá ser a 1ª morte:

Você voltará ao seu país e constituirá um grupo armado para a guerrilha urbana. Como essas coisas não costumam dar certo no Brasil, você será preso. E numa bela manhã, virão busca-lo na cela. Quando você passar pelo corredor da prisão, os demais presos gritarão o seu nome. Ao chegar ao pátio, você vai sentir o sol, ver o céu azul dos heróis e uma brisa generosa vai sacudir os seus cabelos compridos e empapados de sangue. E você marchará firme, com seus pés descalços e com sua roupa suja da terra que você queria livre. Vão oferecer-lhe uma venda para os olhos, que você recusará, porque quer olhar nos olhos dos seus algozes.

Enquanto seus companheiros cantam “ou ficar a Pátria livre, ou morrer pelo Brasil”, antes de escutar a ordem para o fuzilamento, você gritará, como os heróis dos livros de história, “Liberdade ou morte”. Então, você morrerá.

Sua morte fará de você o herói que você quer ser. Seu rosto será estampado nas camisetas, como o rosto do Che Guevara. Farão músicas, filmes e peças de teatro em sua homenagem. Escreverão livros, em que suas façanhas serão aumentadas e até inventadas. Enfim, você vai virar uma lenda e seu nome será inscrito no panteão dos heróis.

Você poderá ter essa morte e esse destino glorioso. Mas, poderá escolher, se quiser, a 2ª morte:

Será assim: anistiado, você voltará ao Brasil e ajudará na fundação e organização de um novo partido. E encontrará um certo metalúrgico, líder sindical. Esse metalúrgico, de poucas letras, é tão inteligente quanto você. Mas, tem um grande carisma, é uma pessoa rara, dessas pessoas que só aparecem a cada 100 anos ou mais. E não preciso dizer o nome dele, você vai reconhecê-lo. Você vai ser amigo dele e ele vai perceber o seu talento e o seu incrível pragmatismo. E será com seu talento e o seu pragmatismo que você conseguirá dominar o seu partido e impor suas ideias.

Com o extraordinário carisma do líder metalúrgico, com sua pregação sincera e emocionada, somados ao seu pragmatismo, traduzido em um projeto ousado de conquista do poder, o metalúrgico conseguirá ser eleito Presidente da República.

E, no seu governo, você será o homem forte, o 2º na escala do poder. O governo do metalúrgico quebrará paradigmas históricos, fazendo da distribuição de renda fator de desenvolvimento, recuperando a economia do Brasil, pagando a secular dívida externa e os empréstimos recentes que foram feitos para socorrer um país quebrado, aumentará suas reservas, equilibrará sua balança comercial, trará para a classe média cerca de 40 de milhões de pessoas, tirará da miséria extrema mais de 30 milhões, recuperará a confiança do povo brasileiro e o fará mais feliz, trazendo ao Brasil um desenvolvimento nunca antes visto e o respeito das demais nações.
Diante de tantas conquistas, das quais você participará com suas ideias e com o seu pragmatismo, você sonhará em suceder o seu amigo metalúrgico na presidência da República.

Os olhos de Zé Dirceu brilharam, mas a Morte continuou:

- No entanto, o extraordinário sucesso do governo atrairá o ódio das elites – expressado pela poderosa Corporação da Casa-Grande – antes absolutas no exercício do poder e, ainda quase absolutas no controle das instituições, muito especialmente da “grande imprensa”.

Então acontecerá o inevitável, um grande escândalo no centro do qual você estará. E a Corporação da Casa-Grande, através da “grande imprensa”, irá fazer de você o inimigo público nº1. Você será denegrido sem dó nem piedade, farão de você um vilão abominável.

E virá o processo, um processo implacável. Embora os seus poucos amigos e até alguns juristas venham afirmar que não existem provas, você será condenado. Quando a história desse período for contada, o seu nome poderá ser reabilitado e seu trabalho reconhecido. No entanto, no tempo presente a Corporação da Casa-Grande fará com que você seja lembrado como agente da corrupção e chefe de quadrilha. Será a morte dos seus sonhos. Mais do que isto: condenado e tendo de cumprir a pena que lhe for atribuída, você será ferido mortalmente em sua honra, embora você – com o que restar do seu orgulho – vá reiterar que viverá para provar sua inocência.

Dito isso, a morte ficou em pé e perguntou:

- Então, Zé Dirceu, que morte você escolhe?

Talvez – e nunca ninguém vai saber – Zé Dirceu tenha pensado que seria possível enganar a Morte e mudar o destino. Ou, quem sabe, tivesse mesmo o altruísmo dos heróis. Ele respondeu:

-Escolho a segunda morte. Com a resposta de Zé Dirceu, a Morte desapareceu.

Quando Zé Dirceu voltou ao Brasil, começou a procurar o metalúrgico prometido. Quando finalmente o encontrou, ele logo o reconheceu. E foi tudo exatamente como a Morte havia dito. E exatamente como a Morte havia dito, Zé Dirceu estava no centro do escândalo chamado mensalão. E Zé Dirceu foi condenado.

Os inimigos jurados de Zé Dirceu não admitem, mas, o fato é que Zé Dirceu é apenas um ser humano, um pobre filho de Adão e Eva, como todos nós: com a grandeza da dignidade humana, como todos nós e, como todos nós, falível e pecador.

Nesses últimos dias Zé Dirceu anda triste e decepcionado. E, na sua tristeza e decepção, Zé Dirceu fraquejou: ele tem pensado que, diante de tudo o que está acontecendo, seria melhor ter escolhido, aos 23 anos, o fuzilamento.