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domingo, 10 de novembro de 2013

COMOVENTE!

Acabo de receber do amigo José Carlos Cataldi, advogado, jornalista e colaborar deste blog, a carta que reproduzo abaixo. Ela não trata de política, mas do drama de milhares de brasileiros às voltas com a justiça. Cataldi me informa que os missivistas são leitores do blog e rogam pela sua publicação. A carta deixa as almas mais duras condoídas. É comovente!

ONDE FOI QUE NÓS ERRAMOS?

A maternidade é sonho de toda mulher. Tanto que o primeiro brinquedo é a boneca, suposta filha. Do Homem, o primeiro sonho é ser Pai. O filho há de ser seu orgulho... Melhor do que ele próprio!

Assim foi quando Alexandre chegou para o casal João Bosco e Regina Célia Beraldo. A ele todos os carinhos e afetos. Mas, desde cedo, Alexandre José de Souza Beraldo demonstrou não ser uma criança normal. Era frágil. Sensível. Sempre doente. Exigia cuidados... Até que em novembro de 1987, quando tinha exatos 7 anos, tão freqüentes eram as infecções de garganta, que passou a submeter-se a tratamento seguido, com injeções de Benzetacil. Mesmo assim, o quadro não evoluía para melhora.

Os médicos recomendaram exame profundo de especialista. O Otorrino pediu biópsia. E, quando já definia a necessidade urgente de cirurgia, um último exame constatou linfoma...  O sonho de João Bosco e Regina Beraldo virou susto! Alexandre, de apenas 7 anos, tinha câncer na garganta!

A família desolada seguiu a orientação de levar Alexandre, frise-se, aos 7 anos, para o  Hospital Regional, com o médico Flávio Salgado. Mas como qualquer Pai ou Mãe, em busca do melhor para o filho, o casal juntou todos os recursos que possuía para levar o garoto até a Capital. A primeira consulta no Hospital A.C.Camargo foi a 18 de janeiro de 1988.
Magoados, desesperados, mas sempre com muita fé e confiança na missão, certamente que dada por Deus, o casal ouviu, ao final do exame, a triste confirmação de que Alexandre padecia de Leucemia Linfoide aguda, e, o pior: de alto risco.

Não foi fácil deixá-lo sozinho, internado naquele hospital. Sim, porque ao tempo, não era sequer admitida a presença de acompanhante. Foram 12 dias de internação. Os mais longos 12 dias de nossas vidas. Alexandre chegou a ficar na Unidade de Tratamento Intensivo. Depois passou por tratamento ambulatorial por mais ou menos 5 anos, representando mais de 360 viagens, ida e volta, entre Pindamonhangaba e São Paulo.

A satisfação, no entanto, veio como milagre, quando em 1992, o médico deu alta a Alexandre. Mesmo sabendo que a cada seis meses teríamos de retornar a São Paulo, para saber se o câncer havia voltado! Mas, era a cura tão esperada se avizinhando.

Aos quinze anos de idade, supostamente curado, Alexandre começou a namorar. A vida ia bem até que seu relacionamento, de dois anos, começou a fraquejar. Ao terminar o namoro, Alexandre se abateu profundamente. Foi buscar consolo nas drogas. Percebemos o comportamento estranho, e, aí observamos que ele passara a se anestesiar da dor fumando maconha.

O sofrimento voltou para todos nós. A família adoeceu junto com ele. Foram 10 anos de drogas, entre maconha, crack e bebida. Várias internações entre dependentes químicos. Tentamos até uma vacina experimental em São José do Rio Preto.

O pior, entretanto, veio a 27 de junho de 2005. Recebemos telefonema da delegacia. Alexandre estava preso por furto. Traficantes o obrigaram a conseguir dinheiro para pagar pelo consumo de drogas. Ficou três meses na cadeia, saindo somente depois, para responder o processo 000733271.2005.8.26.0445 em liberdade.

A partir daí a vida foi muito mais difícil. Tentou trabalho, mas, tinha más referencias policiais. Conseguiu atuar como servente de pedreiro, em subempreitadas que não exigiam informações, mesmo dentro da Villares e da Confab. Também foi cobrador terceirizado do “O Lojão” e da APAE. E, em outros lugares, como  o Semar e o Erk Magazine, onde igualmente não pediam comprovante de bons antecedentes criminais. Afinal, ainda que na rua, estava respondendo processo.

Alexandre sempre recaia. Se desfazia de tudo que conquistava: TV, som, bike, celular, roupas, tênis... Chegou ao ponto de dar em pagamento na ‘boca’, a aliança da mãe, corrente de ouro, dinheiro, etc... Na família ninguém agüentava mais a situação. Pais, irmã, avós, parentes; todos já estavam no limite, quando surgiu a idéia de comprarmos uma moto para que ele pudesse trabalhar de motoboy.

Tudo parecia muito bem. Trabalhava na empresa Arruda Motoboy durante o dia, e, à noite, para o Muvuca lanches, porém, depois de algum tempo, infelizmente recaiu. Desapareceu por 5 dias. Retornou a casa todo sujo, machucado, rasgado, com a dignidade abaixo de zero, como das outras vezes que isso acontecia. Dessa vez, porém, sem a moto.

Foram mais de 3 meses sem sequer sair do quarto. Levantava apenas para ir ao banheiro. Ouvíamos quando sussurrava: "Não agüento mais essa vida. Não quero mais viver assim. Não agüento mais ver toda a família sofrendo por mim”... Foi quando assumiu  perante todos nós, que nunca mais faria uso de drogas.

Como Pai, me enchi de coragem. Fui até a ‘boca’. Paguei a dívida e resgatei a moto. Mas ela veio “depenada”, estragada! ... Consertamos! E tal era o carisma de Alexandre, a qualidade de seu trabalho, que, tanto a empresa Arruda, quanto a Muvuca Lanches, resolveram dar nova oportunidade a ele.

Daí decorreram 3 anos sem recaídas. Alexandre honrou o compromisso firmado com a família e perante Deus! Recuperou a dignidade. Conseguiu trocar a moto antiga por uma nova, que terminou de pagar mês passado, com o fruto do seu trabalho honesto. Comprou seu próprio carro, conquistando um sonho. Já efetuou o pagamento de mais de 40 prestações. Conseguiu comprar uma TV LCD, um computador, roupa, tênis novos.

Nunca poderíamos imaginar, no entanto, tanto ele quanto nós, que a assistência da Defensoria Pública do Estado de São Paulo (própria ou delegada à OAB)  não tinha compromisso com a fase recursal no processo nº 000733271.2005.8.26.0445. Alexandre, sem saber, ficou totalmente desassistido e indefeso. Com a dignidade inteiramente recuperada, e, imaginando que tudo ia com a Justiça, exatamente no dia de seu aniversário  – 30 de outubro de 2013; ganhou de presente, às 8 horas da manhã, a voz de prisão, dos policiais que vieram à nossa casa cumprir o mandado de execução judicial.

Não houve recurso. Nós nem soubemos que Alexandre estava indefeso. A Defensoria Pública do estado de São Paulo ou a OAB em missão delegada pelo Estado, carro chefe da federação brasileira; nem para avisar que não faria o recurso serviu. Nosso filho está preso. Não recorreu... Será que o Estado, esse gigante irresponsável, vai destruir toda essa luta de recuperação? A prisão pode melhorar ou detonar de vez a cabeça de Alexandre?

Continuamos confiantes na justiça dos homens, inspirada pela Justiça do Criador, que nos guiou até a ajuda, agora do Advogado particular Juliano Modesto de Araújo. Estamos certos de que Deus ainda não terminou sua Obra, com Alexandre e Conosco. Deu a ele a vida em liberdade, que será recuperada . E, a nós, o dever de lutar por ele até a morte. Estamos certos de que somente com a família ao lado, Alexandre manterá a dignidade recuperada a muito custo.
Amém!
Pindamonhangaba, SP, 07 de novembro de 2013.

João Bosco Alves Beraldo                Regina Célia de Souza Beraldo