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terça-feira, 26 de novembro de 2013

"GANHAR O DIA"

Camões Filho, jornalista e pedagogo

Nós vivemos na corda bamba do dia-a-dia com a doce ilusão de ganharmos o dia. Mas ganhar o dia, não materialmente falando, mas através daquelas pequenas coisas que nos fazem melhores e mais felizes. Obviamente que cada pessoa tem suas expectativas, seus sonhos, suas ilusões.

O que é que nos faz ganhar o dia? Esta semana ganhei o dia, o mês, o ano, com uma rápida conversa, não mais do que dois minutos, com um amigo publicitário que não via há anos. Estava em um supermercado, empurrando o carrinho de compras, absorto entre frutas e legumes, quando ele me viu de longe. Percebi que seus olhos brilharam, como brilham os olhos dos amigos que de há muito não se veem.

Depois de um bate-papo rápido, ele me disse que eu não tinha mudado, que parecia que o tempo não havia passado para mim, que eu era o mesmo de vinte anos atrás, quando batalhávamos na mesma trincheira da imprensa.

Ao se despedir, ele me disse: “Você está o mesmo, parece que o tempo não mudou para você.” E completou: “Tem um porém... tudo isso, Camões, é porque você merece”.

Quem é que não ganha o dia com um amigo falando assim pra gente?

Ganhei o dia.

Eu ganho o dia quando ouço em um daqueles antigos discões da Maria Bethânia recitando versos de Fernando Pessoa.

Ganho o dia quando uma criança ri para mim.

O dia já está ganho quando ao acordar ouço lá fora o canto dos pássaros.

Ganho o dia quando, em meio à atribulação do dia-a-dia, a pessoa amada tira um minutinho para telefonar pra mim e me diz: “Só liguei pra dizer que te amo”.

Ganho o dia quando chego em casa e encontro no fogão a minha comidinha preferida.

Ganho o dia quando abro um livro que de há muito não leio e encontro em uma página qualquer um bilhetinho amarelecido pelo tempo.

Eu ganho o dia quando uma pessoa amiga chega de supetão e diz que estava morrendo de saudade.

Ganho o dia quando recebo um recadinho amável, de uma pessoa que ainda não conheço, dizendo que leu minha crônica e que gostou muito.

Ganho o dia quando posso sentar em um banco de um jardim qualquer, relaxar, tomar um sorvete.

Eu ganho o dia quando tenho a oportunidade de conversar com uma pessoa que está carente, papear com um idoso que se sente solitário e abandonado, ajudar alguém que está precisando de apoio, sem que essa pessoa sequer desconfie de quem o ajudou, pois como dizia minha saudosa mãe em sua santa sabedoria, o que a mão direita faz a esquerda não precisa saber.

Ganho o dia quando posso refestelar-me tranquilamente em minha poltrona preferida e ler os jornais, desde o artigo do Carlos Heitor Cony até os quadrinhos do Angeli e do Hagar O Horrível, passando pelas palavras cruzadas do Estadão.

Ganho o dia quando consigo conciliar meus afazeres e minha agenda com aqueles que me são caros.

O dia está ganho quando boto a cabeça no travesseiro e durmo o sono dos justos e posso ter os mais belos sonhos do mundo.

Pronto, ganhei o dia...