Páginas

domingo, 17 de novembro de 2013

HOUVE JUSTIÇA?

Carlos Karnas, jornalista

Os ânimos estão excepcionalmente quentes neste momento da vida brasileira. Também divididos. A prisão de alguns dos condenados do “Caso Mensalão”, justamente na data de comemoração da Proclamação da República, é fato político. Faz o judiciário brasileiro se amalgamar ao redemoinho político nacional, recheado de dúvidas entre o que é certo e errado, o legal e o ilegal. A sociedade sabe das imoralidades, antiéticas, corporativismos, conivências, subornos, corrupção e impunidades de todas as grandezas. Procuram-se procedimentos dignos e fidedignos para o ordenamento justo e eficiente das nossas instituições. O “Mensalão” gerou espetáculos grandiloquentes, por fim punição em julgamento espichado, de anos, e ainda totalmente inconcluso por força dos meandros ardilosos das nossas leis. Mas, as punições determinadas pelo STJ podem ser questionadas, devem ser questionadas. Réus comuns, envolvidos em crimes reconhecidamente bárbaros e aterrorizantes, não conseguem condenações tais quais como as ocorridas com os envolvidos no “Mensalão”. E, na verdade, a política brasileira infame continua a sustentar e manter vivo o corpo imundo e estranho de diversos “Mensalões”. É sistemática sanguessuga malditamente impregnada na vida brasileira. Há universo político de réus envolvidos em crimes que continuam impunes. No caso do “Mensalão”, nomes degradantes e abjetos da vida nacional ainda continuam soltos. O poder lhes concede benesses.

O conjunto dos acontecimentos, neste caso, mostra claramente que não há santos nem vestais entre todos os envolvidos. A luta democrática, por justiça brasileira coerente e imparcial em todas as instâncias, está longe de terminar – se isso realmente vier a acontecer. A conduta e postura do judiciário brasileiro, frente ao “Mensalão”, obriga-o a se posicionar, a partir de agora, da mesma maneira frente a outros processos idênticos que têm pela frente. Inclusive, determina celeridade e determinação do judiciário diante das atitudes, determinações e jurisprudência estabelecidas.

É de se pensar no grandioso custo do processo “Mensalão”, no tempo e dinheiro desperdiçados naquilo que foi intrínseco nos julgamentos e no que alimenta a manutenção do espetáculo – até mesmo a exposição dos réus condenados, na mobilização, gestos e palavras de ordem que se sucedem. Os supostos mártires, que não são bobos, têm seguidores que alimentam opiniões contraditórias e divergentes.

Dúvidas persistem. As penas são controversas. Há mais envolvidos que se escondem por trás dos holofotes. A sociedade brasileira jamais será ressarcida daquilo que lhe foi roubado. Entretanto, o “Mensalão”, mal ou bem, estabeleceu um marco: políticos e figurões foram julgados e condenados. O exemplo deve servir de baliza para outros julgamentos, para outros crimes praticados e persistentes. Há muitos outros graúdos envolvidos neste e em outros fantásticos casos acontecidos e que continuam a surgir . A atuação de políticos na política das conveniências corre desenfreada, sem domínio e totalmente impune. Os ministros do judiciário conferem firulas ao espetáculo e não são uníssonos: eles também tiram seus proveitos midiáticos e vantajosos quando arbitram sentenças de pesos com medidas diferentes. O que vale para um deve valer para todos.

Houve justiça? Se ela foi feita ou não, há muito mais por fazer, porque a força independente e digna do judiciário brasileiro é temerária. Impunes estão à solta, acobertados pelo sistema. Até mesmo os condenados do “Mensalão” têm seus méritos e deméritos acobertados na manipulação que se sucede. Que haja comoção momentânea de alguns, mas persiste a desconfiança social do que realmente se estabelece nos corredores e entranhas do poder. Um espetáculo de custo alto e indefinido para toda a sociedade brasileira que paga a conta e não vê resgates éticos e morais privilegiados.