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quarta-feira, 20 de novembro de 2013

OPERAÇÃO DE ROTINA

Após um longo período de ausência nas redes sociais, o professor Silvio Prado está de volta com mais um brilhante texto, desta vez sobre polícia, negros e racismo, a partir de sua experiência pessoal.  Tema para reflexão neste Dia da Consciência Negra.

Silvio Prado, professor

Manhã de 26 de dezembro de 1983, três policiais me cercaram na estação Jabaquara, Metrô, São Paulo. “Temos que revistá-lo, olhar sua mala”, disse um deles. “Um homem, negro como o senhor, calça jeans, camiseta azul, roubou uma loja nas imediações da estação Liberdade...”

Os policiais, pelo rádio, foram instruídos a deter e dar uma geral nesse homem. E esse homem, conforme concluíram, deveria ser eu, mesmo que naquele dia eu nem tivesse posto os pés no bairro da Liberdade.

É claro que resisti às investidas dos policiais, principalmente do sargento, um homem também negro. Ele, a princípio não quis nem saber. Conforme fez entender, eu era suspeito e, pronto, acabou. Nada de resistir, apenas mostrar documentos, abrir a pequena mochila e expor docilmente o corpo às mãos vasculhadoras de um dos três policiais.

A abordagem se deu na fila formada diante do guichê da empresa que vendia passagens para o ônibus que, as dez, desceria até Santos. Indignado, continuei resistindo à ideia de ser revistado. O sargento, até bem educado pelos padrões da polícia frente a um “suspeito”, insistia no argumento de que eu me enquadrava nas características do ladrão de uma loja próxima a estação do Metrô Liberdade. Portanto, estava claro, apenas isso já dava aos policiais o direito de me revistar, vasculhar meus pertences e me humilhar diante da multidão que colou os olhos sobre o trio de fardados e mais alguém, quase desesperado, resistindo ao assédio.

Diante da insistência, perguntei se ao invés da revista não ajudaria em alguma coisa se dessem uma olhadinha em meus documentos. Até hoje não sei porque o grupo de policiais, diante de flagrante resistência, não me obrigou a encostar num canto qualquer e ficar na pose humilhante dos que são grosseiramente revistados, ou seja, mãos espalmadas contra a parede e pernas escandalosamente abertas, enquanto duas mãos estranhas e atrevidamente sacanas vão e vem, sobem e descem por seu corpo, apalpam quando, onde e como querem,constrangendo, humilhando.

O sargento, surpreendentemente, aceitou olhar os documentos antes de iniciar qualquer revista ou abrir e revirar minha bolsa. Olhou com atenção o rg,, cpf, título de eleitor. Depois, meteu os olhos na carteirinha amarela que o MEC, na década de oitenta, fornecia aos que concluíam certos cursos universitários. Não conhecendo o tal documento, o sargento parece que encontrou motivo para me achar mais suspeito ainda, o que me fez mais intranquilo. Depois, como último e desesperado recurso, retirei do fundo da carteira um recorte extraído do jornal Valeparaibano que, falando sobre os vereadores eleitos em Taubaté nas eleições de oitenta e dois, trazia meu nome relacionado entre os suplentes.

Tudo não passava de uma pequena notícia, algo sem muito conteúdo, porém o suficiente para despertar no policial a ideia de que eu não era tão suspeito assim. E o policial, vendo meu nome na tal relação, perguntou, de forma incisiva, se o tal ali citado era eu mesmo. Aí pensei: além de acusado de roubo, logo serei acusado de falsificar esses documentos, inclusive o pequeno recorte do jornal. Enfim, uma pequena notícia recortada às vésperas daquele dia parece ter sido mais útil que todos os documentos apresentados ao cara que só pensava em revistar, vasculhar meu corpo e, quem sabe, levar mais um “bandido negro” para uma dessas perigosas delegacias de São Paulo ou para ser executado no fundão de qualquer canto da periferia.

Enquanto tentava me safar, havia a sensação de que toda a estação me devorava com olhos repletos de receio. Hoje, nem lembro como terminou essa horrível manhã na estação Jabaquara. Sei apenas que o trio de milicos pediu desculpas pelo engano cometido e deu o fora. Mesmo assim, fui e voltei de Santos com a frase do sargento martelando a memória: “um homem negro, como o senhor, roubou uma loja.

Teria sido muito bom se a experiência de suspeito aos olhos policiais tivesse terminado por ai. Por outras justificativas que só as suspeitas razões da polícia conhecem, passei por outras situações um tanto parecidas. Uma vez no terminal Tiete, outras duas vezes no trânsito, em Taubaté, e mesmo não tendo o corpo apalpado, suportei seguidos minutos de constrangimento, a bolsa revirada e dezenas de olhos filmando minha performance de suspeito de alguma coisa. No final, a cara amarela e fria do policial dizendo que não era nada, só operação de rotina.

Mas tem também o caso que considero mais acintoso e estúpido, onde, em frente a uma escola pública, nove da manhã, encostado num poste e rabiscando qualquer bobagem na agenda, fui abordado por policiais com a justificativa de que – inacreditável – eu estava em atitude suspeita. Mas nesse caso, acredito que a polícia tinha razão. Num país como o nosso, onde o monopólio da palavra e da opinião está centrada numa elite branca, uma pessoa negra e pobre tentando escrever qualquer coisa, mesmo que seja numa agenda chinfrim, certamente deve ser um caso digno de merecer a atenção policial.

O tenente, com as práticas inquisitoriais adquiridas na escolinha do Barro Branco, me enquadrou num beó pela recusa em revelar o que estava escrevendo e, pior ainda, ter resistido à ordem de me identificar enquanto a polícia não dissesse porque, em plena luz do dia, diante de uma escola, apenas portando caneta e agenda, eu era considerado suspeito.Foi demais.

Li e reli o revelador Rota 66, livro publicado em 97 pelo repórter Caco Barcelos. Li também tantos outros relatos jornalísticos que mostram do que são capazes a discriminação e o preconceito quando elementos orientadores da prática de instituições policiais, como é o caso da policia paulista.

Nesses casos, os donos de pele negra, como os pobres em geral, são sempre suspeitos de alguma coisa, e os policiais, mesmo aqueles que são negros, se encarregam de provar na prática (e quase sempre à força) a falsa verdade dessa teoria.

Os resultados, independente de leituras como as do livro de Barcelos, todo mundo conhece. Apesar de tudo, diz um samba bem conhecido que ser “negro é a maior felicidade”. Quando a polícia não está por perto, é claro.