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terça-feira, 10 de dezembro de 2013

TODOS PELA MESMA CAUSA

Pollyana Gama, vereadora

A morte do líder político sul-africano Nelson Mandela na última quinta-feira, dia 5, trouxe à tona sua história e as discussões sobre o preconceito, especialmente o racial, no Planeta, e as desigualdades sociais que ainda acentuam diferenças. Ex-presidente da África do Sul entre os anos de 1994 e 1999, Mandela, prêmio Nobel da Paz, foi o símbolo do combate ao regime do “apartheid”, que significa “vida separada”, ao qual os negros foram submetidos naquele país por longos anos, dominados pelos brancos.

Sob o efeito dessa atmosfera iniciou-se no fim da semana passada o 4º Congresso Nacional de Mulheres do Partido Popular Socialista (PPS), em São Paulo, do qual participei como representante da Coordenação das Mulheres do nosso Estado. O encontro ocorreu concomitantemente ao 18º Congresso Nacional do partido, liderado pelo deputado federal Roberto Freire, presidente da sigla no Brasil.

Marcado por intensos debates, a arquiteta Helena Werneck fez a abertura enfatizando a luta de Mandela como inspiração e exemplo a ser seguido pelas mulheres na conquista de espaços tidos culturalmente como masculinos. Na sequência, as militantes do partido Adoração Villar, Débora Albuquerque, Norma Shirley Ribeiro, Dina Lida Kinoshida, Luiza Ribeiro, Tereza Vitale e a deputada federal Carmen Zanotto (PPS-SC) compartilharam de suas percepções a respeito das questões de gênero em nosso país e da necessidade de ampliarmos a participação da mulher na política potencializando ações concretas.

Tive uma breve participação. Breve mas suficiente para reafirmar que precisamos distinguir diferenças das desigualdades que ainda marcam vidas e mais vidas de nossa gente. Diferenças nos completam e, quando assim compreendidas, tem o poder de nos aproximar para fazer acontecer uma ação conjunta, tendo por resultado, por exemplo, uma nova vida: o que seria do espermatozoide não fosse o óvulo e/ou vice e versa? Já as desigualdades, pelo contrário, nos distanciam e criam realidades distorcidas, impossibilitadoras de um desenvolvimento que tenha por princípio contribuir para a equidade social.

Nós, mulheres, ficamos por muitos anos à margem da história política do Brasil quando proibidas de votar ou se candidatar a cargo eletivo. Contudo, o que dizer desses direitos frente ao direito que os antecede? Refiro-me ao direito a vida, tirada a força de muitas mulheres vítimas da violência masculina ou de sistemas opressores, preconceituosos e segregadores. Para lembrar, em 1932 o governo de Getúlio Vargas garantiu o direito às mulheres de participar da vida política, no entanto, quatro anos mais tarde, entrega a militante Olga Benário, grávida de Luis Carlos Prestes, à Gestapo (polícia política alemã). Olga foi executada numa câmara de gás pelos nazistas em 1942.

A consolidação da presença de lideranças femininas na política ocorre, mas a passos lentos, apesar do interesse de muitas delas. Entre a garantia desse direito e a sua concretização de forma equânime tem-se um longo percurso. Embora já possamos contabilizar ascensões significativas, os avanços que permitam um quadro mais equilibrado entre homens e mulheres nos cargos eletivos exigem dotar a mulher de seu próprio ser, de sua feminilidade e de sua própria vida.

Para se ter uma ideia da força da mulher, na década de 1970 representávamos 35% do eleitorado brasileiro. Em 2006 ultrapassamos a marca dos 50%, conforme o Tribunal Superior Eleitoral. O mesmo TSE informa que o número de candidaturas femininas alcançou 31,7% do total de registros nas eleições de 2012. E esses números refletem a realidade nos espaços políticos?

Um estudo da União Interparlamentar, ligada à Organização das Nações Unidas (ONU), revelou que nosso país ocupa o 120º lugar em um ranking da proporção de mulheres nos parlamentos. Estamos atrás de países islâmicos como Paquistão, Sudão e Emirádos Árabes Unidos. Analisando dados apresentados pelo governo, veremos que a participação das mulheres na Câmara dos Deputados é de apenas 9% e, no Senado, de 10% do total. Na Câmara Municipal de Taubaté, dos 19 vereadores eleitos, somos 4 mulheres (Pollyana, Graça, Gorete e Vera) representando um percentual de pouco mais de 20% das cadeiras.

Mais uma vez, de forma breve e direta, pode-se observar que a quantidade de mulheres na disputa, possibilitada pela lei 9504/95, não garante a mesma proporção nas esferas de governo. A luta de Mandela não extinguiu o preconceito mas desacomodou, incomodou, sensibilizou, despertou consciências para o desenvolvimento de seres humanos capazes de perceberem a igualdade na diversidade e a solução, para muitos males, nas diferenças.

Como mulher, e participante desse congresso, senti que mudar a realidade desse contexto exige usar nossa indignação de modo inteligente para romper paradigmas, muitos deles enraizados em nós mesmas, e somar com homens e mulheres dispostos a transpor barreiras culturalmente resistentes. A causa deve ser percebida como de todos nós.