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domingo, 12 de janeiro de 2014

COISAS PARA QUEM JÁ PASSOU DOS 40

Camões Filho, jornalista e pedagogo

Tive um professor que dizia que a vida é assim: somos incendiários aos 18, 20 anos. Depois dos 40, viramos bombeiros. Tem lógica. Todo jovem é revolucionário. Todo adulto, mais assentado. Deveria ser assim. Afinal, errado é o jovem ser quadrado e o coroa, aos 40, 50 anos, vestir-se, falar ou portar-se como adolescente.

Se você lembra aquele antigo jogador de futebol – ou seja, já é quarentinha – ou até já dobrou a marca de meio século, está preparado para esse teste. Respire fundo, tome um copo de água e vamos nessa.

Hoje a garotada curte salgadinhos, doritos, mac isso ou aquilo. E no nosso tempo, o que a gente comia, quais eram as besteirinhas que alimentavam nossas tardes e noites, nos passeios, nos bailinhos, na escola? Pensou bem? Não se lembra?

Tomávamos Kresto e comíamos pão com geleia de mocotó Colombo. E íamos a pé para a escola, que naquele tempo não existia perua escolar. A gente ia caminhando, gastando a sola de nossos keds.

Sempre havia espaço para uma parada na venda, para tomarmos uma tubaína ou um guaraná Joaninha. Ou um Crush ou Grapette, que gosto é gosto.

Se era verão e a mesada desse, chupávamos um eskibon. ou chicabon.

Na volta da escola, deliciávamos com um copaço de groselha vitaminada Milani. Ou íamos para nossa mãe comprar na padaria uma bengala torradinha. Na volta, o café já estava pronto, passado no coador de pano, que ficava dependurado numa trempe de arame bem grosso. Eta cafezinho bom!

Depois de fazer a tarefa, que a gente chamava de “dever de casa”, e bater uma bolinha com os colegas – as inesquecíveis peladas – era banho, janta e ver na televisão Zorro, Rin Tin Tin, Terra de Gigantes, Bonanza. No intervalo, corríamos para a geladeira, ver o que tinha para beliscar. Sempre tinha algumas guloseimas, como aquela gelatina com quadradinhos de todas as cores. Ou pegávamos no buffet da cozinha um pedaço de bolo Marta Rocha ou algumas bolachas Aimoré, e corríamos para não perdermos nada na televisão, que era em preto e branco, mas nossos pais botavam uma folha plástica azulada na frente da tela, que deixava a imagem com uma cor esquisita, mas que era a grande sensação, tipo TV de LED pré-histórica.

Quando a gente deixava as calças curtas, era hora de pensar na vida. Arrumar um emprego, estudar no Senai, ajudar os pais ou simplesmente ficar esperando chegar a hora de ser “de maior”, ou seja, passar dos 18. Afinal, ninguém com seus 17 anos conseguia trampo, pois era a tal da idade de servir o Exército.

Depois desse rito de passagem, a gente já podia entrar em filme “rigorosamente proibido para menores de 18 anos”, como aqueles da Brigitte Bardot. Surgiam os namoricos e nos bailinhos, depois de dançar de rosto colado, a gente tomava Cuba Libre, feita com Ron Marino. No Carnaval, era uma maratona de três dias de muita pauleira e, para aguentar o tranco, a gente tomava Caracu com ovo. Naquele tempo a gente “pulava Carnaval”, e era uma festa de alegria, música, curtição. Sem violência, sem drogas. Só paz e amor, que era o slogan dos hippies e que a gente adorava.

Para disfarçar o bafo de bebida, a gente chupava Gotas de Pinho Alabarda ou Jintan.

E assim seguia a vida, colorida e bela, em um tempo que não volta nunca mais.