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sexta-feira, 7 de fevereiro de 2014

VOCÊ É UM POLÍTICO,
E NÃO PODE ESCAPAR DISSO

Antonio Barbosa Filho, jornalista

O jornalista Irani Lima publicou em seu prestigiado Blog um esclarecedor artigo "Em defesa do poder Legislativo" (http://www.iranilima.com/2014/02/em-defesa-do-poder-legislativo.html) que merece alguns comentários. Num momento em que algumas pessoas manifestam-se contra todos os políticos e a atividade política em geral, de forma genérica, alguns alertas e lembretes são necessários - e este foi o espírito do texto de Irani.

As proclamações indignadas contra "a Política" são, antes de mais nada, inócuas. Não significam nada e não causam qualquer efeito. A Política não desaparecerá porque nós não gostamos dela. Nascer num determinado lugar, determinada época e determinada sociedade independe de nossa escolha - e é nosso primeiro ato político. Nossa vida inteira será determinada por esses fatores: eu não nasci na Roma Imperial como gladiador, tampouco na Paris da Belle Époque, ou nos EUA da Guerra Civil. Em cada uma dessas situações, eu seria uma pessoa completamente diferente, com papéis sociais totalmente diversos, e minha intervenção na vida da comunidade seria, em cada caso, absolutamente incomparável com as demais hipóteses.

A circunstância involuntária de ter nascido no Brasil, em meados do século 20, filho de pessoas de classe média baixa, e numa cidade que fica entre duas serras, num Vale chamado do Paraíba, num Estado que era o mais rico do país, moldou desde logo minha personalidade, minha vocação, meu jeito de pensar e sentir. É assim com todos nós. Eu não poderia ser vaqueiro nordestino, ou tocador de fandango gaúcho. Eu tinha que conviver com outros taubateanos como eu, nascidos ou não em Taubaté, andar pelas nossas ruas, comprar no nosso comércio, estudar nas nossas escolas.

Prá encurtar a história (estou sendo muito didático para leitores tão inteligentes, desculpem-me): a vida me fez um taubateano, com amigos e família taubateanos e, portanto, dependente das condições de vida que minha cidade me ofereceu e oferece. Aí começa o cidadão: partícipe, a princípio e em muitos aspectos involuntário, de tudo que acontece na minha cidade.

A Política é mera extensão. Se é a Política que acaba por decidir os rumos da minha cidade, eu (e todos nós) sou político. Posso ser mais passivo, limitando-me a votar e pagar impostos. Posso ser um pouco mais ativo, ligando-me a entidades do meu bairro, da minha igreja, do meu sindicato profissional, do meu clube preferido, etc. E posso ser ainda mais participante, filiando-me a um Partido Político, ocupando cargos de direção nele, e até sendo candidato a cargos eletivos, submetendo-me à escolha ou não de meus conterrâneos.

Tudo isso é perfeitamente legítimo, civilizado - é, aliás, a maneira pela qual nossos ancestrais organizaram nossa cidade e nosso País. Ou seja: são essas as regras do jogo no qual sou peça, mais ou menos importante, mas sempre com iguais direitos e deveres perante a comunidade a que pertenço.

FORMAÇÃO POLÍTICA

A Política partidária é uma forma superior de atuação cidadã. Se realmente quero mudar algo na minha cidade, alterar ou propor leis, regular os impostos, defender meu bairro, minha classe profissional ou social, não tenho outro caminho a não ser entrar na Política.

No nosso regime político, os meios para se atingir o Poder - condição para influenciar o "comum" - são os partidos políticos. É assim no mundo todo, pois as pessoas têm maneiras de pensar, projetos para a cidade e o País, que se diferenciam. Há partidos cujos programas aproximam-se de princípios religiosos; outros, que defendem classes sociais; outros que representam interesses econômicos; outros ainda que se vinculam à defesa da Natureza, etc.

Todos, em princípio, são válidos. A diversidade vem da própria sociedade. E a soma desses interesses, que muitas vezes combatem entre si, resulta no avanço da sociedade para solucionar os problemas de determinada época e circunstância. Às vezes, predomina um partido mais ligado às classes mais ricas; outras vezes, são as camadas mais pobres que vencem as eleições; ora são os cristãos, daqui a pouco são os mais afastados das igrejas.

Este jogo, porém, só pode existir em Democracia. Quando uma força autoritária chega ao poder, pelas urnas ou pelas armas, logicamente reprime e tenta eliminar as demais. O partido autoritário não admite o debate, e tenta moldar toda a sociedade aos seus princípios. Simplificando, isso é uma Ditadura. E toda Ditadura precisa ser, por sua natureza, violenta, centralizadora e repressiva às divergências.

Entender a diferença entre Democracia e Ditadura é o primeiro passo que alguém precisa tomar, antes de se meter a opinar sobre Política. Quem acha que tanto faz o regime, nada entende de vida em sociedade, é um cidadão, no mínimo, desinformado.

Pior ainda é quando um cidadão, digamos, da classe pobre, ou da classe média, defende um regime que privilegie apenas os muito ricos. Parece burrice, mas na verdade é o resultado de uma propaganda ideológica que recebemos desde crianças. Toda organização social, as instituições, são formatadas pela classe dirigente, geralmente a detentora do poder econômico. E ela tenta, através desses aparelhos ideológicos, que incluem as igrejas, as escolas, a publicidade, os meios de Comunicação, entre outros, convencer toda a sociedade de que os interesses da minoria poderosa são os interesses de todos. Nós achamos, por exemplo, que basta trabalhar bastante para ficarmos milionários e entrarmos no restrito clube dos donos do poder econômico. Pode até acontecer, um caso em um milhão (dependendo do país e da atividade que abracemos); mas o sistema não foi montado para isso. O sistema quer que os "de cima" não desçam, e os "de baixo" fiquem onde estão.

(Continua)