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segunda-feira, 3 de março de 2014

CLÁSSICOS DO CARNAVAL BRASILEIRO

Silvio Prado, professor

Descobri no Diário Oficial Leitura, Publicação Cultural da Imprensa Oficial do Estado de São Paulo, na edição de dezembro de 1992, um longo artigo do jornalista e estudioso da MPB, Assis Angelo, apresentando o que na época ele considerou os mais expressivos clássicos do carnaval brasileiro.

Começando por Noel Rosa e chegando inclusive em Caetano Veloso, ele faz um apanhado de expressivas obras musicais que marcaram a história do carnaval brasileiro. A seleção, conforme o estudioso, não é completa e certamente desagradará muita gente.

Ele mesmo diz: “se pudéssemos publicar 500 (clássicos do carnaval), o problema seria o mesmo”. Portanto, para mexer com a saudade de muita gente, transcrevo algumas letras das músicas que deram o tom e embalaram muitos dos nossos melhores carnavais.

Eu Vou Pra Vila
Noel Rosa

Não tenho medo de bamba
Na roda de samba
Eu sou bacharel...
Sou bacharel
Andando pela batucada
Onde eu vi gente levada
Foi lá em Vila Isabel.

Na Pavuna tem turuna
Na Gamboa gente boa
Eu vou pra Vila
Onde o samba é da coroa.
Já mudei de Piedade
Já sai de Cascadura
Eu vou pra Vila
Pois o que e bom não se mistura.

É bom parar (1936)
Raul Soares e Noel Rosa

Por que bebes tanto assim rapaz
Chega, já é demais
Se é por causa de mulher é bom parar
Porque nenhuma delas sabe amar.

Se tu hoje estas sofrendo
É porque Deus assim quer
E, quanto mais bebendo
Mais lembras dessa mulher.
Não crês conforme suponho,
Nestes versos de canção:
“Mais cresce a mulher no sonho
Na taça e no coração”.

Sei que tem em tua vida
Um enorme sofrimento...
Mas não penses que a bebida
Seja um medicamento!
De ti não terei mais pena
É bom parar por aí!
Quem não bebe te condena
Quem bebe zomba de ti!

Abre a janela (1938)
Arlindo Marques Junior e Roberto Roberti

Abre a janela formosa mulher
E vem dizer adeus a quem te adora
Apesar de te amar como eu te amei
Na hora da orgia eu vou embora.

Vou partir e tu tens que me dar perdão
Porque fica contigo o meu coração
Pode crer que acabando a orgia
Voltarei para a tua companhia.

Não tenho lágrimas (1938)
Max Bulhões e Milton de Oliveira
(NR – esta música foi gravada por Nat King Cole em português, com forte sotaque americano)

Quero chorar,
Não tenho lagrimas
Que me rolem nas faces
Pra me socorrer
Se eu chorasse
Talvez desabafasse
O que sinto no peito
E não posso dizer
Só porque não sei chorar
Eu vivo triste a sofrer.
Estou certo que o riso
Não tem nenhum valor
A lágrima sentida
É o retrato de uma dor.
O destino assim quis
De mim te separar
Eu quero chorar não posso
Vivo a implorar.

O trem atrasou (1941)
Artur Vilarinho, Estanislau Silva e Paquito

Patrão, o trem atrasou
Por isso estou chegando agora
Trago aqui o memorando da Central
O trem atrasou meia-hora
O senhor não tem razão
Para me mandar embora.

O senhor tenha paciência
É preciso compreender
Sempre fui obediente
Reconheço o meu dever
Um atraso é muito justo
Quando há explicação
Sou um chefe de família
Preciso ganhar  o pão
(breque) não me diga que não.

Aurora (1941)
Mario Lago e Roberto Roberti

Se você fosse sincera
Ô ô ô ô
Aurora
Veja bem que bom que era
Ô ô ô ô
Aurora

Um lindo apartamento
Com porteiro e elevador
E ar refrigerado
Para os dias de calor.
Madame antes do nome
Você teria agora
Ô ô ô ô
Aurora

Pedreiro Valdemar (1949)
Roberto Martins e Wilson Batista

Você conhece o pedreiro Valdemar?
Não conhece
Mas eu vou lhe apresentar
De madrugada ele toma o trem da circular
Faz tanta casa e não tem casa pra morar.

Leva a marmita embrulhada no jornal
Se tem almoço nem sempre tem jantar
O Valdemar, que é mestre no ofício
Constrói o edifício
E depois não pode entrar.

Nega maluca (1950)
Fernando Lobo e Evaldo Rui

Tava jogando sinuca
Uma nega maluca me apareceu
Vinha com um filho no colo
E dizia que o filho era meu.

Não senhor!
Toma que o filho é seu!
Não senhor!
Guarde o que Deus lhe deu!

Há tanta gente no mundo
Mas meu azar é profundo
Veja você meu irmão
A bomba estourou na minha mão

Tudo acontece comigo
Eu que nem sou do amor
Ate parece castigo ou então
Influência da cor.

Daqui não saio (1950)
Paquito e Romeu Gentil

Daqui não saio
Daqui ninguém me tira.
Onde é que eu vou morar
O senhor tem paciência de esperar
Ainda mais com quatro filhos
Onde é que eu vou parar...

Sei que o senhor tem razão
Pra querer a casa pra morar
Mas onde eu vou ficar
No mundo ninguém perde por esperar.
Mas já dizem por ai
Que a vida vai melhorar.

Maria Candelária (1952)
Armando Cavalcante e Klecius Caldas

Maria Candelária
É alta funcionaria
Saltou de paraquedas
Caiu na letra ó
Ó ó ó ó
Começa ao meio dia
Coitada da Maria
Trabalha, trabalha
Trabalha de fazer dó!
Ó ó ó ó
À  uma vai ao dentista
Às duas vai ao café
Às três vai à modista
Às quatro assina o ponto 
E dá no pé!
Que grande vigarista que ela é!...

Eva (1952)
Haroldo Lobo  e Milton de Oliveira

Eva me leva
Pro paraíso agora
Se estou com muita roupa
Eu jogo a roupa fora.
Você vive bem
Em pleno verão
Você vai ao baile
Ate de calção
Queria também
Usar pouca roupa
Mas é que a polícia
Daqui não dá sopa.

Maracangalha (1957)
Dorival Caymi

Eu vou pra Maracangalha
Eu vou
Eu vou de uniforme branco
Eu vou
Eu vou de chapéu de palha
Eu vou
Eu vou convidar a Anália
Eu vou
Se Anália não quiser ir
Eu vou só
Eu vou só

Trem das Onze (1965)
Adoniram Barbosa

Não posso ficar
Nem um minuto sem você
Sinto muito amor
Mas não pode ser
Moro em Jaçanã,
Se eu perder esse trem
Que sai agora às onze horas
Só amanhã de manhã
Alem disso mulher
Tem outra coisa
Minha mãe não dorme
Enquanto eu não chegar.
Sou filho único,
Tenho minha casa pra olhar.

Tristeza (1966)
Haroldo Lobo e Niltinho

Tristeza,
Por favor vai embora
Minha alma que chora
Está vendo o meu fim
Fez do meu coração sua moradia
Já é demais o meu penar
Quero voltar àquela vida de alegria
Quero de novo cantar
La ra ra ra ra
La ra ra ra ra
La ra ra ra ra
La ra ra ra ra
Quero de novo cantar.

Vem chegando a madrugada (1966)
Adil de Paula e Noel Rosa de Oliveira

Vem chegando a madrugada, ô
O sereno vem caindo
Vem chegando a madrugada, ô
O sereno vem caindo.
Cai, cai sereno devagar
Que meu amor está dormindo.

Deixa dormir em paz
Que uma noite não é nada
Não acorde meu amor
Sereno da madrugada. 

Chuva, suor e cerveja (1972)
Caetano Veloso

Não se perca de mim
Não se perca de mim
Não desapareça
A chuva tá caindo
E quando a chuva começa
Eu acabo de perder a cabeça
Não saia do meu lado
Segure o meu pierrô molhado
E vamos embolar
Ladeira abaixo
Acho que a chuva ajuda
A gente a se ver
Venha, veja, deixa, beija, seja
O que Deus quiser
A gente se embala, se embola, se enrola
Só pára na porta da igreja
A gente se olha, se beija, se molha
De chuva, suor e cerveja.

Enfim, aí está um resumo do resumo feito por Assis Ângelo das letras das principais obras musicais que, segundo o jornalista, embalaram grandes carnavais brasileiros. Frutos da expressiva sensibilidade musical que sempre caracterizou nossa cultura popular, elas refletem um país e um carnaval que até certo ponto não existem mais.

Lendo cada uma delas, fica a impressão (ou certeza) de que o Brasil perdeu alguma coisa parecida com inocência, singeleza, e até capacidade para organizar sua alegria de forma espontânea e sem vínculos com grupos que não dão um passo se o lucro do investimento (se possível com dinheiro público) não estiver garantido.